
Encontrava-me num lugar escuro, com apenas uma fraca iluminação artificial azul, que cobria-me o corpo reluzente e, de certa maneira, extasiava-me como uma droga. Uma fumaça também azul me estonteava e algum som estranho zumbia no meu ouvido como um zangão que quisesse aporrinhar a minha paciência. Não estava bêbado, encontrava-me sob o efeito entorpecente da luz e da fumaça, juntamente com o efeito que o zumbido angustiante fazia invadindo meus tímpanos. As sensações do meu corpo estavam aguçadas, sentia cheiros nauseabundos, como se estivesse cheirando formol, percebendo o ar estranho percorrendo minhas narinas até chegar aos meus pulmões, retornando de maneira repulsiva.
Estava com forte respiração, sentia o sangue quente percorrendo e rasgando as válvulas das minhas veias, e o coração descompassado batia-me feito uma bomba, como que quisesse explodir dentro do meu corpo e espalhar meu sangue ao longo do ambiente. Avistei uma cama em meio a outro espectro de luz, agora mais roxo e sombrio. Imediatamente joguei-me impulsivamente sobre o aconchegante colchão d'água que balançava-me divertidamente. Comecei a me imaginar dentro dum navio, em alto mar, e o navio remexia-se muito, sentia-me solitário em meio àquele oceano de águas revoltas.
Olhei ao redor, querendo fugir da minha alucinação, mas onde minha vista alcançava só existia mar. Comecei a escutar umas vozes femininas, dando uns risos tímidos e uns gemidos propositais. Procurava de onde vinham as vozes, na esperança de encontrar uma musa, que me afogasse junto com ela naquele mar de tribulações. As vozes se aproximavam, até que consegui distinguir que eram de duas mulheres. Tentei permanecer calmo, mesmo sabendo que estava sob forte alucinação. Depois de algum tempo parado, senti as águas revoltas se acalmarem. Foi então que percebi alguém apalpar-me delicadamente, parecendo a sensação de uma pluma acariciando-me o ombro. Acalmei-me. Subitamente voltei da alucinação, vi novamente a luz roxa.
As carícias continuaram e minha pele sensível eriçou-se toda. Meus pêlos de todo o corpo se arrepiaram. Dei por mim e retomei a visão turva do ambiente. Olhei para os meus ombros, já sentindo-me excitado. Enxerguei, então, uma delgada mão suave a apalpar-me sensivelmente. Vi que a mão tinhas umas unhas vermelhas e grandes, parecendo garras de felinos.
-Até que fim, gostosão, pensei que nuca mais fosse acordar...
Aquelas palavras soaram pelo vazio do ar até chegar aos meus ouvidos, onde lá permaneceram e me fizeram feliz. Senti essas garras percorrerem todo o meu ombro, até estender-se para a minha nuca. Não exitava em me mexer, estava totalmente estagnado e enfeitiçado por aquela mão. Não balbuciei palavra alguma. Contorcia-me de prazer e de desejo sexual, e senti-me totalmente excitado, deixando-me ser tomado pela volúpia carnal que me vinha na mente. Permaneci de olhos fechados e escutando as doces vozes açucarar meus ouvidos. Em meio ao maior prazer que eu sentira antes, outra mão agarra-me, agora nas coxas, e ameaçava tocar o meu pênis. A mão subia até recostar-se na virilha. Tudo parecia um jogo de tentações, que me tomavam por completo e me fazia inebriar junto aos meus prazeres.
Não queria abrir meus olhos e enxergar quem me acariciava, não queria me livrar daquele mar de sensações. Neste momento, não importava para mim a beleza formosa de uma musa romântica, o que me importava era o ser voluptuoso pela carne, que rasgava-me a pele e me fazia delirar em meio àquele ambiente mórbido e resoluto. As mãos agora apalpavam as minhas partes íntimas com pudor. Os três orgasmos foram inevitáveis, apesar de eu ter relutado contra este fato.
O prazer sufocava-me por inteiro e vi que chegava a hora de voltar a estar comigo mesmo, a par de minhas emoções. Não aguentava mais, o sufoco provocava-me asfixia e estava começando a sentir os pesados passos da
Morte. Estava fatigado, exausto, então, com uma ação impulsiva, segurei com força uma das mãos que me apalpava.
- O que você está fazendo, por acaso não está gostando, hein...hein??-disse uma delas, puta da vida.
Ela parecia desconfiar muito de mim, parecia estar com bastante raiva...
- É que...não posso...estou sufocado, eu vou...-eu disse com dificuldade estas últimas palavras.
- Seu cretino, safado, vou te matar seu veadinho de merda!
A outra mão agarrou-me o pescoço tentando me enforcar. Além da falta de oxigênio que eu sentia, suas unhas afiadas faziam sangrar meu pescoço, agravando minha dor. Depois deste inesperado momento, em que a
Morte parecia mais perto, não lembrei de mais nada.
A última sensação que tive foi da angustiante dor que fraquejava meu corpo e me impelia para a
Morte. Passei a ver tudo branco, minha visão tremulava e minhas pálpebras pendiam de cima a baixo querendo cerrar. Foi então que apaguei por completo.
Realmente não lembro o que sucedeu depois do meu desmaio, mas consegui milagrosamente livrar-me das garras felinas que me sufocavam, bem como da
tentadora Morte. O estranho é que me lembro apenas do ocorrido naquela noite, das sensações, e de tê-la visto de perto. Não precisa nem dizer que me refiro à
Morte, a qual esteve me aguardando pelos vários anos que passei para me recuperar das hemorragias e da falta de oxigênio.
Nunca tive notícias daquelas diabólicas ninfetas que me tentaram, que tentaram um homicídio doloso a mim, só espero as encontrar no purgatório, ajoelhadas a meus pés, pedindo-me perdão para não serem condenadas.