quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Presente pra quem me deu esperança.


Surjo do nada para me expor
aos prazeres da vida que me corrompe...
Deixo-me levar pelo puro ar que vagueia,
gira e faz redemoinhos no meu pensamento.

Meu pensamento me deixa bêbado,
inebriado pelas voltas e voltas dadas...
Vejo o surreal surgindo do nada
para me expor aos prazeres da vida.

Descubro que o nada e o surreal
surgem assim como minha vida,
sem explicação ou algo que envolva
uma concisão que me leve à ferida.

Ferida inflamada faz-me contorcer
na minha derradeira dor que me arrebata...
Mata meu interior e faz-me arrefecer
Diante da inconstância do meu universo tênue.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Pesadelo do Homem


Encosta-me na parede e me bate!
faz-me esquecer de quem nunca serei...
espreme os meus cravos e me traz erva-mate,
tira esses óculos e me mostra o que não sei.

Abre o meu crânio e estuda o tecido,
torna-me ébrio de nojo ao ver
meu cérebro, na tua mão, arrefecido
e entope os meus vasos ao desfalecer.

Fura meu peito esquerdo com canivete!
introduz tua mão e aperta meu coração...
aperta com força pra não escapar, aperte!
e o parta ao meio pra não amarmos em vão.

Depois disso eu te agradeço...
porque não mais vou pensar com órgãos
e não mais vou te desejar, eu mereço
é vegetar pra sempre em tuas mãos.

Prodígios terei fugindo da vida,
mas não vou morrer, não quero morrer...
quero só viver sem cérebro e coração, a ferida
da vida cicatrizará quando tu padecer...

Não...não!
- 'Acorda, rapaz, vai estudar, vagabundo!'
Vou, em vão!
Foi só um sonho, devaneio do mundo.

sábado, 27 de outubro de 2007

Noite Alucinógena


Encontrava-me num lugar escuro, com apenas uma fraca iluminação artificial azul, que cobria-me o corpo reluzente e, de certa maneira, extasiava-me como uma droga. Uma fumaça também azul me estonteava e algum som estranho zumbia no meu ouvido como um zangão que quisesse aporrinhar a minha paciência. Não estava bêbado, encontrava-me sob o efeito entorpecente da luz e da fumaça, juntamente com o efeito que o zumbido angustiante fazia invadindo meus tímpanos. As sensações do meu corpo estavam aguçadas, sentia cheiros nauseabundos, como se estivesse cheirando formol, percebendo o ar estranho percorrendo minhas narinas até chegar aos meus pulmões, retornando de maneira repulsiva.
Estava com forte respiração, sentia o sangue quente percorrendo e rasgando as válvulas das minhas veias, e o coração descompassado batia-me feito uma bomba, como que quisesse explodir dentro do meu corpo e espalhar meu sangue ao longo do ambiente. Avistei uma cama em meio a outro espectro de luz, agora mais roxo e sombrio. Imediatamente joguei-me impulsivamente sobre o aconchegante colchão d'água que balançava-me divertidamente. Comecei a me imaginar dentro dum navio, em alto mar, e o navio remexia-se muito, sentia-me solitário em meio àquele oceano de águas revoltas.
Olhei ao redor, querendo fugir da minha alucinação, mas onde minha vista alcançava só existia mar. Comecei a escutar umas vozes femininas, dando uns risos tímidos e uns gemidos propositais. Procurava de onde vinham as vozes, na esperança de encontrar uma musa, que me afogasse junto com ela naquele mar de tribulações. As vozes se aproximavam, até que consegui distinguir que eram de duas mulheres. Tentei permanecer calmo, mesmo sabendo que estava sob forte alucinação. Depois de algum tempo parado, senti as águas revoltas se acalmarem. Foi então que percebi alguém apalpar-me delicadamente, parecendo a sensação de uma pluma acariciando-me o ombro. Acalmei-me. Subitamente voltei da alucinação, vi novamente a luz roxa.
As carícias continuaram e minha pele sensível eriçou-se toda. Meus pêlos de todo o corpo se arrepiaram. Dei por mim e retomei a visão turva do ambiente. Olhei para os meus ombros, já sentindo-me excitado. Enxerguei, então, uma delgada mão suave a apalpar-me sensivelmente. Vi que a mão tinhas umas unhas vermelhas e grandes, parecendo garras de felinos.
-Até que fim, gostosão, pensei que nuca mais fosse acordar...
Aquelas palavras soaram pelo vazio do ar até chegar aos meus ouvidos, onde lá permaneceram e me fizeram feliz. Senti essas garras percorrerem todo o meu ombro, até estender-se para a minha nuca. Não exitava em me mexer, estava totalmente estagnado e enfeitiçado por aquela mão. Não balbuciei palavra alguma. Contorcia-me de prazer e de desejo sexual, e senti-me totalmente excitado, deixando-me ser tomado pela volúpia carnal que me vinha na mente. Permaneci de olhos fechados e escutando as doces vozes açucarar meus ouvidos. Em meio ao maior prazer que eu sentira antes, outra mão agarra-me, agora nas coxas, e ameaçava tocar o meu pênis. A mão subia até recostar-se na virilha. Tudo parecia um jogo de tentações, que me tomavam por completo e me fazia inebriar junto aos meus prazeres.
Não queria abrir meus olhos e enxergar quem me acariciava, não queria me livrar daquele mar de sensações. Neste momento, não importava para mim a beleza formosa de uma musa romântica, o que me importava era o ser voluptuoso pela carne, que rasgava-me a pele e me fazia delirar em meio àquele ambiente mórbido e resoluto. As mãos agora apalpavam as minhas partes íntimas com pudor. Os três orgasmos foram inevitáveis, apesar de eu ter relutado contra este fato.
O prazer sufocava-me por inteiro e vi que chegava a hora de voltar a estar comigo mesmo, a par de minhas emoções. Não aguentava mais, o sufoco provocava-me asfixia e estava começando a sentir os pesados passos da Morte. Estava fatigado, exausto, então, com uma ação impulsiva, segurei com força uma das mãos que me apalpava.
- O que você está fazendo, por acaso não está gostando, hein...hein??-disse uma delas, puta da vida.
Ela parecia desconfiar muito de mim, parecia estar com bastante raiva...
- É que...não posso...estou sufocado, eu vou...-eu disse com dificuldade estas últimas palavras.
- Seu cretino, safado, vou te matar seu veadinho de merda!
A outra mão agarrou-me o pescoço tentando me enforcar. Além da falta de oxigênio que eu sentia, suas unhas afiadas faziam sangrar meu pescoço, agravando minha dor. Depois deste inesperado momento, em que a Morte parecia mais perto, não lembrei de mais nada.
A última sensação que tive foi da angustiante dor que fraquejava meu corpo e me impelia para a Morte. Passei a ver tudo branco, minha visão tremulava e minhas pálpebras pendiam de cima a baixo querendo cerrar. Foi então que apaguei por completo.
Realmente não lembro o que sucedeu depois do meu desmaio, mas consegui milagrosamente livrar-me das garras felinas que me sufocavam, bem como da tentadora Morte. O estranho é que me lembro apenas do ocorrido naquela noite, das sensações, e de tê-la visto de perto. Não precisa nem dizer que me refiro à Morte, a qual esteve me aguardando pelos vários anos que passei para me recuperar das hemorragias e da falta de oxigênio.
Nunca tive notícias daquelas diabólicas ninfetas que me tentaram, que tentaram um homicídio doloso a mim, só espero as encontrar no purgatório, ajoelhadas a meus pés, pedindo-me perdão para não serem condenadas.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Tudo é vivo, nós é que somos mortos.


Não há ninguém aqui. Os fluidos da minha mente começam a se movimentar e dinamizar meus pensamentos. Volto a ser eu mesmo. Tiro a máscara que cobre minha face envergonhada e a deixo de lado, mas guardo-a com cuidado, pois a qualquer momento posso precisar dela novamente. A casa está vazia de gente, vazia de corpos rabugentos, vazia de mentes que falam baboseiras, e sinto-me bem por isso. Estou num processo de transposição, tudo que acontece dentro deste ambiente tem uma explicação plausível, nada ocorre por acaso. Resolvo observar os mínimos detalhes que passam despercebidos quando estou com a máscara, pois ela também tapa um pouco minha visão, a abertura dos olhos da máscara não é suficiente para que eu veja os detalhes.
O que primeiro me toma atenção é o ventilador. Parece que ele quer soprar algo de bom pra mim, ou talvez ele queira jogar nas minhas costas todo o peso que há nele, pra poder se livrar de seu fardo. Ele me manda um ar impregnado de poeira e eu o sinto adentrar no meu nariz. Espirro três vezes. Acho que fez isso de propósito, pra se vingar de algo que eu tenha feito com ele. Mas não me lembro de ter feito nada, nem dava conta da sua existência ali. Dou-lhe uma porrada no botão e ele me responde com frieza, mexendo a cabeça de um lado para o outro, desprezando minha atitude, como se me dissesse: 'não, seu otário, eu não sou fraco o bastante pra sentir dor'. Sinto-me um demente diante daquele ventilador imponente, que me esnoba e zomba de mim como se eu fosse um fracassado isnobe, sem existir por completo. Eu estou agora do tamanho de uma formiga, olho pra cima e o vejo balançar a cabeça insistentemente, como se tivesse com pena de mim.
Acho bom mesmo estar do tamanho duma formiga, pois assim os outros objetos não perceberão minha ínfima presença e não tirarão sarro da minha cara. Resolvo ir à cozinha e me deparo com um imenso paredão. É a geladeira. É assustadoramente grande e me faz medo só de pensar em insultá-la, mas consigo ir até ela. Tento abri-la logo de cara, mas não consigo, parece a que a borracha que a veda está colada ao ferro, ela se recusa a escancarar sua porta pra mim. Fico muito puto por isso, mas não me arrisco a bater em algo do tamanho de uma geladeira, posso levar uma surra e sair dali esculachado.
Percebo, logo em seguida, a prepotência do liquidificador. Olho com receio aquela hélice afiada querendo girar e amputar um dedo meu. Ele começa a girar, girar, mais e mais rápido, e tudo me leva a crer que o mundo gira em torno dele. Tenta sugar-me pra dentro dele, mas ainda encontro forças pra relutar e vencer aquela tentação infernal que anseia me eliminar. Fico hipnotizado quando reparo no movimento circulatório da hélice e permaneço tonto por um bom tempo, o que me faz ir ao chão.
Estou deitado ainda, pregado no chão asqueroso que humanos pisam e deixam seus dejetos, onde cospem chiclets e escarram seus catarros imundos. O chão também é vivo, fico até imaginando o quanto ele deve sofrer pra aguentar o peso esmagador dos gordões que passam por aqui. Ainda consigo ver a luz da cozinha girando com o teto da casa, deve ser o efeito do liquidificador que persiste na minha mente.
O meu lapso de inconsciência mais tarde me revela a explicação para o que ocorre com o "não-vivo". Não-vivo é o que aparenta ser inexistente para nós, que não vivemos para este mundo. O não-vivo dos objetos traz a resposta para mim: simplesmente não vivo. E deixo morto tudo que existe dentro da minha cabeça minúscula.
Acho melhor pôr logo a máscara, vem vindo alguém aí.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Tarde Abominável


Mergulhado numa profunda melancolia
Esta tarde abominável me consome...
E me vem mais angústia e nostalgia,
O invólucro mortal que me envolve some.

Estou exposto à turbulência do mundo
E este clima sombrio decai sobre mim...
Sinto o peso esmagador do choro profundo,
Não sei se reluto ou se espero meu fim.

O céu passou de azul a laranja,
As nuvens brancas agora são cinzentas
E minha mente, que de tristeza esbanja,
Sofre a dor maior de viver isenta.

Entrego-me à morbidez da tarde iminente,
Que logo irá findar junto da tristeza...
O brilho intacto da noite carente
Já vem chegando e trazendo a frieza.



F. Viana.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Não estou sozinho: estou comigo mesmo.


Não percebo a noite passar bem debaixo do meu nariz. Estou monologando comigo há uns quinze minutos, desde que cheguei exausto em casa, depois de um dia inteiro na porra do colégio e de lá ainda indo pro grupo de jovens. É sempre bom ir pra lá, mesmo cansado e tendo que manter a máscara de estar estudando pra passar no vestibular. O fato é que cheguei em casa morto e peguei um livro que estava recostado sobre a mesa da sala. 'Eu sou o mensageiro' de Markus Zusak. Leio as primeiras sete páginas com tamanho entusiasmo e admirando a escrita moderna dum escritor puramente jovem. Uma história do cotidiano, com palavrões usados por nós mesmos, no dia-a-dia. E num vá me dizer que você é santinho, que não fala palavrões com seu irmão, com seus pais, ou consigo mesmo. Não vá achar o cara que escreve uma linguagem escatalógica num livro um imbecil frustrado, de mal com a vida.
Li as primeiras sete páginas e adentrei no monólogo do autor. Mas logo que consegui perceber o valor da história por si, reclinei-me na cama, com a calça surrada do colégio e dormi. Dormi, e nesse pouco tempo de sono comecei a monologar espontaneamente, falando tudo que me vinha à cabeça, como se minha vida naquele momento fosse um capítulo do livro de Markus Zusak-sempre me confundo se é com "S" ou com "Z"- e começo a descrever meu estado, os meus pensamentos e o dos outros, como se tivesse escrevendo uma página de um livro que todos irão ler. Talvez este livro um dia fará sucesso, como o livro de Markus.
Mas o que achei estranho foi estar conversando comigo mesmo, sozinho, desde que li as sete páginas de 'eu sou o mensageiro'. Já se passou meia hora desde que comecei a monologar. E sinto que é bom fazer isso. Nunca fiz isso com tanto prazer, talvez nunca tenha parado pra perceber o barato de monologar. Realmente nunca fiz isso de vera mesmo, só agora. E é bom porque penso melhor, raciocino sobre a vida. São meia noite e dez no meu celular, mas meia noite e vinte no relógio da cozinha. Em alguns momentos tenho que disfarçar que estou escrevendo, pois não quero que ninguém veja. De repente, viro a página desta folha e começo a fingir que estou lendo minha redação. Estou escrevendo numa folha em branco, no verso da minha prova de redação. Tirei oitenta, nota máxima. Na redação eu falo mal de Hugo Chávez e exponho bem as minha idéias.
Meus pais chegam neste momento em casa, tenho que parar de escrever, por um momento. Estou na sala e tenho que ir pro meu quarto, aprontar-me pra dormir. Puta merda! meu irmão ainda tá no meu quarto e é lá que fica o computador. Quando ele vai pro computador conversar putaria com os amigos não sai tão cedo. Tenho de expulsá-lo de lá. Mas hoje não precisou, acho que ele compreendeu minha cara abatida e sentiu pena de mim, saiu logo. Deito na minha cama e continuo a monologar. A luz do meu quarto queimou e tenho que escrever sob a luz amarela do abaju. Ouço os passos do meu pai aproximando-se do meu quarto. 'Quer um pedaço de chocolate meio-amargo?' Viro a folha pra ele não saber que estou escrevendo. Aceito por educação o pedaço. Como é que alguém pode gostar de chocolate meio-amargo?[...]
A folha do verso da redação acabou. Pego outra folha de redação, outro oitenta. Continuo escrevendo no verso, sempre monologando e pensando. São meia noite e meia. Tenho que acordar ainda hoje às 5:55. De novo pra ir pra porra do colégio.
Quando eu fui pro colégio hoje à tarde, fiz prova, então, depois fui pra biblioteca dormir. Cochilei uns dez minutos. Depois tive uma crise existencial profunda pra caralho e escrevi uma poesia mórbida e sombria. De imediato, eu fiquei feliz por ter feito uma boa poesia, mas mergulhei ainda mais na monotonia. À esta hora em que escrevo estou mais feliz porque estou monologando. Não sabia que o monólogo interior fazia as pessoas mais felizes, pelo menos comigo é assim.
Minha irmã agora abre a porta de seu quarto, parece-me que também perdeu seu sono. Vai sentar-se ao pé da porta da varanda, pegar um ventinho gostoso de meia noite e trinta e sete.
Ela deve estar monologando também, será? Tomara que esteja realmente, ela esteve mal nos tempos de véspera de vestibular nos últimos três anos. É a terceira vez que ela vai fazer vestibular e eu a primeira e estou aqui monologando. MO-NO-LO-GAN-DO. É um vocábulo bonito, presunçoso. Faltam quantos dias pro vestibular mesmo? Acho que uns vinte e poucos e eu aqui monologando.
O fato é que estou mais feliz agora, sozinho e monologando. Já fazem mais de quarenta e cinco minutos desde que eu li as primeiras sete páginas de 'eu sou o mensageiro'. Aprendi a monologar com esse livro e percebi essa arte. Acho que sou um 'homem' grande agora. Estou doido pra passar esse meu texto pro meu blog, amanhã. Farei isso.
Meu professor de literatura disse que todo escritor tem insônia. Eu nunca tive. Durmo na hora que quero e não demoro. Mas isso não quer dizer que não sou um escritor de verdade. São meia noite e quarenta e sete e já vou indo dormir. Quantos, no mundo, estão monologando agora? Será que muitos? não sei. O fato é que estou sozinho agora, nenhum barulho na casa, a não ser meu cachorro bebendo água. Mas não estou realmente sozinho, percebo isto, simplesmente. Não estou sozinho: estou comigo mesmo. E monologando.
É uma hora da manhã: 01:00.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Seus olhos amotinaram meu desterro de lágrimas


Seus olhos amotinaram meu desterro de lágrimas...
Triste, ao amanhecer, quedei num choro inconstante.
Fiquei sozinho, à noite, vendo o açoitar dos marginais
Na escura têmpora divina, ao som de arrepios pedantes.

Sua cor dourada mestiça absorveu a luz crepuscular
E sua tez miúda envolveu-se num mundo distante...
À ver navios me deixou e foi pro Além-mar
Derramando-se nas ondas que batiam-lhe obstante.

Foi à Beira-mar esturricar-se de água salgada
E lamber os beiços com sal impregnando-lhe,
Caminhou n'areia volátil de Iracema, à madrugada
E viu o Sol nascer tímido, espiando suas curvas.

Qual virgem dos lábios de mel em seu ledo engano:
Ao invés de doce, seus lábios estavam salgados
De tanto arrefecer seu corpo n'águas, insano
Como a sereia de ouro jogada ao léo cigano.


Khalil Fernandes.