quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Bumerangue


Minha rua era uma ladeira e minha casa ficava no topo dela. Os morros eram muito comuns nesta cidade e eu sempre via o que estava sob meus pés, onde rolava de tudo, desde bolas de futebol, até mendigos e condomínios de luxo. Sobre a ladeira, os carros subiam e desciam com dificuldade, de tão íngreme que era esta subida, ao passo que os comentários maldosos, às vezes, eram mais rápidos que os sons emitidos pelas bocas das velhas fofoqueiras. Havia ganhado uma Honda 125 cilindradas do meu avô, que morrera recentemente e me deixara também de presente esta casa velha e mal reformada, a qual vacilava com o vento que recebia às cinco da tarde. Era gostoso a sensação que eu tinha quando a casa balançava enquanto eu olhava da janela do meu quarto, parecendo até que eu estava voando, vendo, lá em baixo, a cidade pequena se mexer e ficar sob os meus pés. Mas era paradoxal quando eu pensava que a velha casa poderia desabar a qualquer momento, até via a rachadura da coluna aumentar a cada semana que passava. Se ela desabasse, certamente, seus escombros iriam rolar ladeira a baixo e matariam outras pessoas e destruiriam outras casas.
Recentemente arranjei um emprego de entregador de pizza. Utilizei da minha humilde moto para que me contratassem como motoqueiro e fui bem sucedido. A pizzaria que me contratou é uma das melhores da cidade e sou obrigado a fazer meu trabalho muito bem feito, até porque eles pagam muito bem a seus moto-boys. Andava literalmente pra cima e pra baixo com minha moto, subindo e descendo os morros e entregando as pizzas nas casas de ricos.
Era no condomínio de luxo, logo no sopé da ladeira, que morava Lisa. Ela morava com o pai, a mãe e o irmão mais novo. Lisa tinha 17 anos e seu irmão, 15. Me apaixonei logo que vim morar aqui, quando a vi mexer em seus cabelos enquanto que o vento os açoitava. Foi uma cena inesquecível, pelo menos para mim, mas para seu namorado, isso não passou de uma jogadinha de charme para apimentar a relação. Lisa estudava num colégio pequeno que ficava do outro lado da ladeira e, todos os dias, Alberto, seu namorado, ia buscá-la com sua Honda 650 cilindradas e a deixava na porta de casa. Alberto cantava o pneu da sua moto - isso era o sinal para que eu soubesse que ele ia pegá-la na escola - então, eu chegava até a porta da velha casa e observava aquela lindeza de moto subir a ladeira com um ronco estridente de motor. A moto passava ao meu lado e eu quase quebrava o pescoço para poder acompanhá-la, até sumir completamente ladeira a baixo. Era então que passavam cinco minutos e eu me dirigia até a janela do meu quarto, para observar, do alto, aquela cena que eu via todos os dias. Eu não via Lisa subindo na moto, mas é óbvio que antes disso ela dava uns beijinhos em Alberto e o deixava envergonhado. Depois, eu os via passar em frente à minha janela, os cabelos de Lisa, esvoaçantes, eram desprotegidos do capacete e eu novamente observava as duas, Lisa e a moto, descendo ladeira a baixo até chegarem na porta de casa. Eu achava muito sexy a forma com que Lisa se posicionava em cima da moto, ficava olhando seu traseiro - o da Lisa, é claro! - balançar sobre o assento. Ela dava outro beijinho em Alberto e ele ia pra casa, cantando novamente o pneu da sua Honda 650.
Para mim, ver aquela mesma cena diariamente era instigante. Aquilo movia meus neurônios e me fazia pensar em elaborar alguma coisa para que algo de ruim acontecesse com o namorado de Lisa. Mas eu só pensava e não fazia nada; talvez nem mesmo estivesse amando Lisa, não valeria a pena sujar minhas mãos com um playboyzinho qualquer. O fato é que meus pensamentos nada valiam diante de outra cena cena que eu via: por entre a frestas da janela do quarto de Lisa, eu a via trocar de roupa depois do banho. Era lindo e ao mesmo tempo excitante. Era capaz de ver abrir a porta do banheiro de sua suíte e de fitar a toalha de Lisa escorregando sobre o seu corpo curvilíneo até tocar o chão. Seus cabelos, vez em quando, cobriam seus seios esguios e eu ficava louco para que eles pudessem aparecer entre os finos fios. Minhas pernas tremiam e meu coração descompassava, tinha que ter muito cuidado para que ninguém me visse espiando uma garota.
Outro dia eu peguei minha Honda 125 e sai à procura de um bom binóculo. Tinha juntado uma grana que consegui com a venda de meu tênis Nike e mais uns colares de prata. Com o total, apurei 450 paus e comprei o bendito binóculo, que me ajudaria a saber um pouco mais sobre a vida de Lisa. Lembro agora quando escutei pela primeira vez o nome de Lisa alisar os meus ouvidos. Estava entregando pizza, na casa vizinha à dela. Seu pai balbuciou seu nome enquanto ela corria para abraçá-lo. Aquelas quatro letras alisaram meus ouvidos a ponto de me fazerem cócegas, e eu ri, ri abertamente enquanto seu pai lhe perguntava sobre os assuntos do colégio.
Eis que com a posse do binóculo passei a descobrir com mais detalhes os confins do corpo de Lisa. Com a precisão do binóculo fui capaz de perceber os pontinhos das sardas que ela tinha no rosto e sua tatuagem sexy nas costas, que se tratava de duas borboletas acasalando; tive a sorte de tê-la visto melhor enquanto ia à praia com seu namorado. Quando dava umas oito horas da noite, todos os dias, ela fazia a mesma coisa e eu me escaldava com o calor que ela emitia de seu corpo.
Quando Lisa ia para o colégio e seus pais para o trabalho, seu irmão ficava sozinho em casa. Fiquei surpreso na primeira vez que vi aquela fumaça saindo da janela do quarto dele. Ele era um garoto solitário, naqueles momentos a sua única companhia era a maconha, fumava quase todo dia e nem seus pais nem Lisa desconfiavam de algo diferente. Eu também observava aquela erva sofrendo combustão e o seu produto indo se instalar nos pulmões daquele garoto sombrio. Quando ele tragava, a erva ficava incandescente e depois tornava a ser meras cinzas que completavam os espaços de sua mente.
Às vezes eu via que a vida era meio injusta comigo e sempre acontecia algo para ela mesma se complicar. Mas talvez seria eu mesmo que não soubesse como vivê-la intensamente, de maneira a desfrutar dos sabores e cheiros que eu sentia do alto da minha casa. Eu não sabia me livrar dos pequenos obstáculos que me apareciam do nada, não era experiente para conquistar uma mulher de verdade e sempre esperava que as coisas acontecessem, nunca interferia nelas para que não fizesse algo de errado comigo mesmo. Não encarava a vida de frente, talvez eu precisasse descer do morro e colocar meus pés no chão, onde está tudo o que me cerca e me faz pensar. Precisava realmente descer do morro e encarar a vida, ou melhor, a Lisa.
E foi isso que eu fiz.
Estava no fim do expediente e minhas entregas estavam também chegando ao fim, junto com a minha paciência. Carregava nas costas uma mochila pesada - o dia todo - que continha pizzas e refrigerantes dos mais variados. Havia algo em mim que me parecia raiva ou ódio, não sabia ao certo, mas sabia que iria ocorrer alguma coisa naquele fim de expediente. Era cinco da tarde e o vento assobiava na cidade conturbada. Talvez minha velha casa estivesse balançando neste momento, e por um instante pensei nela desabando. Mas nada aconteceu com ela, o problema estava na minha moto. Tinha uma entrega marcada para essas mesmas cinco horas e o trânsito não me ajudava a chegar no horário, além do mais, para agravar a situação, minha pobre Honda 125 morre no meio da avenida. Estávamos chegando no horário de pico do engarrafamento e os carros não se moviam um milímetro se quer, o que me fez descer da moto e empurrá-la até o endereço que correspondia a 2Km de distância de onde estava. Cheguei lá às seis e cinco, a pizza já havia esfriado, levei um grande esporro do cliente e uma fechada de porta na cara. Mas não ganhei isso apenas, parece que já adivinhava o que aconteceria depois, e fui logo me conformando. Voltei à pizzaria e meu chefe apareceu com cara de maus amigos:
- Você já deve saber o que vai acontecer, meu caro. Pegue logo essa sua moto inútil e se manda daqui. Tome aqui suas contas, rapaz, você está despedido!
- Muito obrigado.
Voltei para casa cansado, depois de empurrar a lata velha ao longo de 3Km. Percebi que era esta a hora. Então, peguei minha moto, nem precisei ligá-la - até porque isso não ocorreria - e fui descendo a ladeira em cima dela até chegar ao sopé da casa da Lisa. Nas minhas costas, carregava a mochila de entregar pizza... eu bancaria o entregador de pizza. Esse era o plano.
Toquei a campainha. Ela aparece de camisola na minha frente. De início, faz uma cara meio que confusa. Eu a encaro realmente de frente. Olho no olho.
- Vocês pediram pizza? - eu pergunto com a voz falha e trêmula.
- Não, deve ter sido um engano, qual o endereço que tem aí? - era primeira vez que ouvia o som limpo e sereno de sua voz.
- Rua Labuta, n° 311. - disse eu lendo um suposto papel que carregava no bolso da blusa.
- Sinto muito, senhor, eu não pedi pizza nenhuma, além do mais, estou sozinha em casa.
Um momento de fraqueza me fez imaginar cenas de orgias praticadas com ela e minha cara-de-pau veio à tona quando disse:
- Nossa, uma moça tão jovem e bonita que nem você não tem medo de ficar sozinha em casa?
Ela sorriu um sorriso tímido e deve ter pensado: quem esse canalha pensa que é?
- Não, acho que já tenho idade o bastante para não ficar pensando nessas besteiras. Agora dá licença, por favor? - disse ela meio impaciente.
Eu coloquei a mão na porta para que ela não se fechasse na minha cara.
- Eu sei que você deve tá me achando um canalha, talvez eu seja um realmente. Acho que você já me viu alguma vez, eu sou o cara que mora naquela casa no alto do morro. - ela coloca a cabeça pra fora da porta e olha lá pra cima.
- Ah, é? Acho que já te vi sim, desculpa a inconveniência, meu nome é Lisa!
- Eu sei! - já não podia me conter.
- Como assim sabe? - ela estava totalmente confusa e desconfiada.
- Eu te vejo todo dia indo pro colégio, já vi teu pai falando contigo, vejo teu namorado te buscar na escola com aquela motona...
Seus olhos verdes agora me olhavam com atenção.
- Pô, cara, não sabia que você me conhecia tanto assim. - ela foi bem gentil comigo - não quer entrar e tomar uma água?
- Aceito. Eu vim aqui pra te conhecer melhor, é porque, te vendo todo dia, minha curiosidade aumenta e receio isso ser importante para mim. - nunca fui tão sincero, ela percebeu isto.
- Entra aí, tira essa mochila das costas, você deve estar cansado do expediente, não?
- Como não? Mas hoje eu fui despedido. - abaixei minha cabeça e entrei na casa dela.
Sentei no sofá e tomei rapidamente a água que ela me trouxe. Minha sede por ela era grande, mas me controlava firmemente.
- Eu sinto muito. - eu não acreditava fielmente nestas palavras.
Paramos por um tempo. Nossas vozes cessaram durante dois minutos e não sabia se falava algo ou se esperava que ela falasse alguma coisa. Nós, incrivelmente, resolvemos falar ao mesmo, e ficamos totalmente sem graça.
- Pode falar, o que é? - disse eu, curioso.
- Não, eu prefiro que você fale primeiro - isso me fez achar que ela esperava alguma coisa que eu dissesse naquele exato momento. Acatei ao seu pedido. Esperei dez segundos até que as palavras saíram da minha boca com dificuldade:
- O que significa para você essas duas borboletas acasalando, aí nas suas costas?
Ela sorriu um sorriso mais provocador e respondeu:
- Significa a liberdade de espírito, que vem numa noite inesperada voar sobre o meu corpo e me fazer sentir com asas!
Confesso que foi a transa mais louca que tive na minha vida!



terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Raio de Sensações

Um raio esplendoroso caiu sobre meu peito...
Não vi a luz crepuscular invadir minha alma,
Iluminando o meu pensamento liqüefeito
E apagando as atrocidades de minha calma.

Pensei que fosse morrer por um instante,
E me dispus a escrever sem comedimentos...
Tudo à minha volta pareceu-me angustiante
Mas voltei a me lembrar de meus pensamentos.

Assim, roguei ao meu peito que parasse a dor,
Tirei dos confins do meu corpo a minha carne...
Um turbilhão de ruídos volveu-me em esplendor.

Sempre procurando o sentido que a vida falta
Não encontro nada senão medo e pavor
E nunca vejo, então, a liberdade que me salta.

domingo, 16 de dezembro de 2007

No mundo quem impera são os irracionais

As pessoas nunca olham para dentro de si mesmas. Não percebem o prazer que é se encontrar sozinho no interior de uma jaula enclausurada, a espera que alguém lhe abra a jaula e mostre um mundo medonho e ressequido de entulhos podres. Talvez a prisão consternadora de seus mundos medíocres seja tão desoladora quanto uma manhã azul de sol, entrando, sem querer, por uma janela entreaberta.
Uma noite enluarada na vida de um mesquinho nada mais vale do que uma noite enluarada. Mas, por que sempre tem que haver alguém para atabalhoar todas nossas idéias e nos deixar loucos? Talvez nada mesmo aconteça por acaso, tudo tem algum sentido, por mais difícil que seja de encontrá-lo nas entranhas desta vida. Pode ser que existam pessoas com ações nada comuns, com a intenção de fazer algo que tenha sentido, algo que nos faça dizer, "Porra, isso não aconteceu ao acaso". Todos vão se questionar sobre isso, outros vão apenas ignorar essas palavras impensadas de seus cérebros, e outros poucos, ainda, tentarão entender o motivo de algo não acontecer por acaso.
O que me faz sentir a vida é poder saber de algo que faz parte dela. Aristóteles disse que nada sabia, porquanto sempre procurou entender o que se passava a seu redor. Talvez ele nada sabia a seu respeito, bem como nada sabia de como pensar sobre ela.
Mas, para que pensamos e pensamos e nada sabemos a respeito do que se passa ao nosso redor? Acho que é porque nossa visão de mundo sempre está um pouco tapada, pelos meios de comunicação, principalmente. Eles fazem isso, tapam sua visão de mundo que você tanto almeja desvencilhar, e você nada percebe. Nem percebe, ao menos, que quem realmente te tapa é a Rede Globo, Record, SBT e similares. As "pobrezinhas" nem sequer se dão conta de que estão fazendo isso e apenas mergulham ainda mais em seu estados latentes de espíritos mal-ditos. Mas a televisão te distrai e te faz esquecer dos problemas que ela mesmo ajudou a criar. Talvez se a televisão nunca tivesse existido, não precisaríamos nos preocupar com os problemas diários e esquecê-los por um momento e lembrá-los em outro. Eu neste momento sou a favor do que os caras do filme "Duro de Matar 4" fizeram com os sistemas. Tomaram posse e destruíram todos os meios, apenas para ajudar a minimizar o tempo de destruição total.
Mas a humanidade "evolui" e se auto-destrói. A gente não vive sem a humanidade. Eu preciso comer o feijão que o agricultor planta e colhe, eu preciso da genialidade (se é que isso vem ao caso) de um físico para fazer funcionar a lâmpada da minha casa. Mas se tudo isso não tivesse existido, eu não precisaria da humanidade. Os primeiros Homo sapiens não desfrutavam deste tipo de "prazer" que nós usufruímos e desperdiçamos hoje. Mas ele sempre evolui, é natural na maioria das espécies, e sempre se auto-destrói.
Eu me sinto excluído deste mundo, justamente porque sou diferente da maioria das espécies. Nós temos algo inerente a nós mesmos e os demais animais a eles. Por isso, eles são maioria no mundo. É, no mundo quem impera são os irracionais. Por que você acha que milhões de bactérias se multiplicam rapidamente e existem numa razão absurdamente grande a cada milímetro quadrado de seu corpo? Bactéria nem ao menos é animal. É um Monera, como diria o Amabis. Pois são estes seres, que tanto nos auxiliam como também nos destroem, que imperam. Talvez estas bactérias façam parte de nós mesmos e nos ajudam a nos destruir por completo, apenas para adiantar a morte em si.
Eu prefiro aderir à Lei do Silêncio e não mais falar de nada que eu sei. Aristóteles talvez estivesse tão errado quanto eu estou agora. Psiu!

sábado, 8 de dezembro de 2007

Causa Mortis


1) Evidências pré-ambulatórias do laudo médico do IML

Ao encontrar Judith Barbosa Pessoa decaída sobre o jardim, deparamo-nos com a mesma ainda viva, embora agonizante, sua cabeça pendia sobre o ombro já com a clavícula esquerda expostamente fraturada, enquanto seu corpo, ainda trêmulo, apresentava sinais de epilepsia crônica. Seu globo ocular neste instante revirava-se continuamente e sua face retorcia-se toda em meio à paralisias musculares indistintas. Porquanto chegamos ao local, à guisa de muito suor, consegui fazer com que meus ajudantes se aproximassem junto comigo, face ao pleno estado de horror que aquela infernália proporcionava às nossas vistas.
Não logramos tocá-la inicialmente, pois seu corpo desvanecido nos fazia retroceder em laudos imediatos. Todavia, galgamos bem próximo da paciente e injetamos-lhe uma dose de vigabatrina, medicamento especial para estes casos epilépticos. Ao tentarmos suprimir os efeitos da neurose com o medicamento eficaz, observamos que seu estado momentaneamente apaziguara, e suas feições contorcidas desapareceram progressivamente das maçãs de seu rosto. Aproveitamos o ensejo para cobri-la com o manto de manutenção térmica, para seu corpo não retroagir aos estados que antes apresentava.
Adiciono a este documento a falta preparação do SAMU, o qual apresentou longas demoras para chegar com as macas ao local. Esperávamos principalmente pelos para-médicos, que portavam os desfibriladores necessários à revitalização da paciente.
Quando os para-médicos chegaram, frívolos, receberam minhas instruções e iniciaram a preparação para reanimar Judith. Porém, todo o esforço esboçado pelos meus ajudantes não foi capaz de reanimá-la, o que confirmou o meu presságio.
Constato, com imensa frustração, a morte trágica dessa mulher que, sem sombra de dúvidas, teve o seu sortilégio muito bem arquitetado, com o intuito de não deixar a mínima possibilidade de sobrevivência. Neste momento, dou-me a gentileza de levá-la ao carro do IML, para que a perícia corpórea seja feita e possa ajudar a Polícia a desvendar as causas deste óbito.

Dr. Gervázio Costa,

médico legista do IML.

***


2) Nota Policial sobre o óbito de Judith Barbosa Pessoa

Nenhum vestígio, seja de pólvora ou de perfurações de arma branca, foi encontrado no corpo de Judith, o que nos fez pasmar diante da sua aparência física iníqua e esquálida. Nosso objetivo, no entanto, foi de logo nos ocuparmos com a investigação local de toda a casa, desde o jardim, que serviu de espaço para a consumação da morte, até os mais inóspitos aposentos do imóvel. Constantemente recebendo informações de populares, constatamos que o cadáver não apresentava, em vida, qualquer ente habitando consigo, o que nos faz ter a certeza da remota chance de alguém ter pedido ajuda médica imediata.
Segundo o Dr. Gervázio Costa, pioneiro no local de morte, os populares ligaram para o IML para saber se havia morrido a referida mulher, pois há mais de duas semanas a mesma não era vista andando pelas ruas do bairro e quando tentavam a campainha não logravam resposta alguma. Este fato fez com que o Dr. nos comunicasse para logo podermos invadir a casa e averiguar o que teria ocorrido. Não recebemos nenhuma ligação de familiares, que até o presente momento não deram luz alguma à nossa investigação policial.
Constatamos a identidade do cadáver pela conta de energia elétrica que se encontrava sobre a mesa da sala. Algo nos intriga: examinando a folha do pagamento, notamos que sua conta era quase isenta de valor, o que nos permite afirmar que a defunta não utilizava quase luz nenhuma em seus aposentos. A sala estava em perfeita arrumação, ao passo que a cozinha nos apresentou uma forte evidência: encontramos pílulas, dos mais variados tamanhos e cores, espalhadas pela prateleira e pelo chão.
Voltamos ao local da morte e ajudamos os peritos a demarcar o contorno do corpo na área em que o mesmo jazia. Lá, encontramos outro precioso meio para nos ajudar nas procedências do óbito: seu celular estava meio escondido entre as folhas secas do jardim, bem próximo da demarcação do corpo. Tratamos de enviá-lo à Policia Civil para obtermos a autorização necessária ao grampeamento do telefone.
Investigamos o nome da defunta e ficamos sabendo do Ministério do Trabalho que a mesma tratava-se de uma advogada civil, que trabalhava em um escritório na avenida Rebouças. Fomos até lá e obtivemos os nomes dos pais de Judith. O pai já também encontrava-se morto, mas a mãe, de 86 anos, ainda viva, residia em outro bairro, oposto ao que a filha morava.
Ao depararmos com o endereço que nos foi fornecido, pasmamos com o local absolutamente inóspito e sombrio que nos rodeava. A casa jazia sem número algum e era vigiada por cachorros fétidos e valentes, os quais nos obrigaram a manter uma distância mínima de vinte metros do local. Então, sem mais opção a escolher, dei um tiro voltado para o alto com a minha pistola, mas não logramos êxito em expulsar os animais, que permaneciam ferozmente no recinto da casa velha e sombria. Talvez incomodada com o barulho tenebroso que os animais faziam, a velha senhora abriu, ou melhor, tirou a porta do lugar e nos apareceu com uma cara estranhamente severa. Bateu fortemente com sua bengala no crânio de cada um dos animais que nos perturbava, afastando todos, que gritaram agudamente após a pancada. Percebeu então que se tratava de polícia e nos foi logo tratando com poucas palavras, o que nos fez desconfiar da forma como se portou a nós.
Depois das poucas e grossas palavras que a velha senhora nos dirigiu, mandei uma intimação para a mesma depor e ela reagiu de forma muito suspeita.

Ubaldo Ribeiro,
Inspetor-chefe de Polícia do Estado.


***


3) Gravação telefônica-celular fornecida pela Polícia Civil

- Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, boa noite, em que posso ajudar?
- Hum... é... por favor moça... me ajude, por favor...estou morrendo... me envenenaram! Chame logo uma ambulância...
- Mas não sabemos onde mora, moça, o que fizeram com você? Não está em condições de falar?
- Hur...aah, foi a velha maldita, moça, ela me envenenou...aah.
- O que? Moça, responda! Diga-me onde mora! Moça? Alô? Alô? Alô?
- [...]


***


4) Manchete puplicada na primeira página do Jornal Policial

IDOSA DE 86 ANOS É PRESA, APÓS JULGAMENTO, POR ENVENENAR E MATAR A PRÓPRIA FILHA, ADVOGADA, DE 36 ANOS.




segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Pelas ruas vadias, jogando-se em destinos incertos

Fabio Szafranski sempre foi o algo incomum dentre os 'fogosos amigos' que rodeavam sua convivência não muito agradável. Ele nunca tivera o desprazer de tê-los como tal. Sua sina jocosa e enfadonha era pisar em cima de um shape de skate e se deixar levar pelas ruas mal estruturadas e entupidas de carros de uma fortaleza bela, sem rumo, com um destino incerto, como se entregasse nas águas dum oceano e sofresse o balanço das ondas, que lhe levavam para nenhum lugar conhecido.
Não foram poucas as vezes que o taxaram de louco, incomum e isolado. Talvez isso para ele fosse até um elogio, antes visto a profunda morbidez de seu aspecto nenhum pouco normal. Mas ele não era louco. Fazia-se, às vezes. Mas sempre tivera como adjetivo essas palavras que muitas vezes lhe serviriam para entrar num grupo estúpido de jovens banais. Jovens banais. Era assim que se apresentava a maioria de jovens que compunha essa sociedade a qual Fabio estava inserido. Não era para menos que ele, no começo, tentou juntar-se àquela maioria idiota, que apenas possuía alguns ideais ilusórios e sentimentos irrelevantes.
No início dos tempos que o grupo banal começou a existir, ele era pouco conhecido, mas para esses poucos que o conheciam, era vítima de sátiras e apelidos que rasgavam com pudor sua estima. Sempre fora resignado por conta disso e já se cansava, desde criança, com as baboseiras bem elaboradas que lhe eram ditas.
Fabio então começa a andar de skate e muda um pouco sua atitude até então resignada, mas não menos desprezível. Já vão cinco anos desde começou a se jogar pelas ruas em cima de seu pedaço de madeira com quatro rodas desgastadas pelas pedras do asfalto e, desde então, não faz outra coisa mais rotineira. Todos do bando banal andavam junto com ele, fazendo street e se aventurando em lugares que nunca chegariam, em lugares longínquos, que apenas eram contemplados pelos olhares vazios daqueles meninos, num horizonte nunca alcançado. Mas Fabio nunca fora o mais jogado no seu esporte, muitas vezes tinha medo, mas quase nunca desistia fácil. Prova disso foi que, com o passar do tempo, os outros do bando foram parando de andar e aventurar-se e Fabio foi ficando e continuando a se deixar levar pelas ruas vadias da cidade.
A sina adquirida por ele, de andar sobre o skate pelas ruas vadias, foi ficando cada vez mais restrita a ele. Não se ouviam mais os gritos de empolgação por parte dos banais do bando, apenas se ouvia o penoso pesar das rodas do skate batendo no asfalto negro e quente que tomava de conta da cidade disforme. Mesmo assim, a solidão de sua rotina não fazia com que parasse e ele, inexplicavelmente, continuava jocosamente aquele penoso fardo, como que ansiando algo a ser alcançado, o que porém ele nunca conseguiria. Fabio não estudou muito e foi obrigado a fazer uma espécie de supletivo para compensar o que não aprendeu no colégio. Ao que indica, teve um período de trabalho numa lan house, onde nada fazia além de ver sites que a sociedade moderna chama de promíscuos. Era, às vezes, até paradoxal o que pensava ele da sua rotina sacal: ninguém sabia ao certo o que ele buscava, ou se ao menos buscava algo realmente, ou se estava apenas deixando seu corpo ser levado para bem longe, ou se estava querendo que o tempo passasse e nunca mais voltasse, nem por lembranças, podia ser também que teria o vislumbramento de ser um grande skatista, ou seria apenas uma forma de demonstrar para aquela sociedade bajuladora que estava puto com vida e se encontrava rebelde...Ninguém sabia de nada. Talvez nem ele sabia.
O que se sabe é que ainda hoje ele cumpre talvez sua forma de distanciar-se do mundo sombrio que nos rodeia. Inclusive do bando banal, que tanto lhe expugnou todas as formas de se expressar indistintamente. O fato é que ao mesmo tempo que tudo isso ocorria em sua vida -talvez até mesmo ele se sentia feliz por estar isolado- algo descomunal aconteceu, sem muitas evidências, presenciado pelo bando banal das ruas ganhadas por Fabio.
Numa de suas saídas noturnas pelas nada seguras ruas do centro da cidade, ele foi vítima de uma briga por um grupo mais banal ainda que o seu. Pontapés e socos voavam pelo ar e iam instalar-se nos rostos dos membros do grupo banal. Garrafas de vidro apontavam sobre o céu e se definhavam sobre o chão, emitindo os estalidos de caco de vidro pelo solo. Uma daquelas laboriosas o atingiu em cheio a face e o olho.
Ficou deprimente o seu estado na hora do infortúnio ocorrido e por mais de quatro meses transcorridos. Internaram-lhe por dois dias. Definhou numa crise mais profunda que os cortes em seu rosto, ficou com a ameaça de perder um olho para sempre, viveu na certeza da mediocridade de sua vida então patética. Depois de certo tempo em repouso, os seus 'fogosos amigos' lhe ofereceram visitas não muito confiáveis e laços de afetividade não menos desconfiáveis. Esteve, durante este repouso de vários meses, recuperando-se psicologicamente da porrada. Porrada essa que lhe mudou um pouco a forma de pensar, talvez, mas fez-lhe com que parasse para refletir, mesmo sem querer, sobre sua vida. Não se sabe se realmente ele pensou sobre o próprio, nem se ele pensava em se matar, tudo indica que sim. O fato é que isso tudo acarretou transformações não consideráveis, mas talvez desonestas em sua sina então perdida por um longo tempo.
Um pouco antes de receber a autorização de voltar à sua rotina tão esperada, ele já a fazia clandestinamente. Voltava a andar com mais vontade e determinação, sendo um dos poucos a fazer bem o que gostava, que era andar de skate. Talvez fazia isso não por simplesmente gostar, mas por avançar num mundo só dele, pelas ruas vadias, jogando-se em destinos cada vez mais incertos e consoladores.
Passou-se até relativo tempo depois da porrada significativa e ele escutava, agora, músicas de bom agrado e que lhe acalmavam o pensamento, ainda atribulado. Não se sabe ao certo que namorada possuía naquele momento, ou se tinha uma digna namorada. Sabia ele que as mulheres - pelo menos as que passavam perto dele, roçando seus traseiros mais rodados do que bolsa de travesti - não eram, nenhuma, dignas de bom agrado seu. Todas elas mereciam mesmo é serem jogadas dentro do lago, depois de uma boa noite de transa. Tudo indica que era assim que ele pensava das mulheres as quais via rebolando suas bundas para a sua cara rechonchuda.
Deixava seu cabelo crescer pela encosta dos ombros esguios e não preocupava-se em arrumá-los quando saía. Mostrava-se, pelo menos para os membros do grupo banal, que porventura ainda existe, que a sua fisionomia antes bajulada havia mudado, talvez não para melhor, mas algo havia amadurecido em sua mente, é o que tudo indica, mais uma vez.
E mais uma vez seu destino incerto, até para Deus, era vislumbrado por ele mesmo em sua sina que ainda persistia em sua rotina enfadonha. A incerteza era o que lhe fazia sair de casa e isolar-se em seu pedaço de madeira andante, que era o único meio o qual levava-lhe para bem longe da bajulação do bando banal, da vida banal, da banalidade de convivência com familiares e talvez até da vida aqui na Terra. O seu pedaço de madeira andante sobrepunha todos os seus ideais não traçados, suas metas não planejadas e sua coragem nunca antes nem depois despertada.
O seu destino incerto era certo para ele, que sabia de algo com certeza: sua vida resumia-se à incerteza do destino, em ser levado para bem longe, para algum lugar que nunca alcançará, mas que pelo menos o levará à uma viagem sem volta, como uma terapia que lhe livra de entraves e o faz adentrar num mundo um pouco melhor de se habitar sozinho.
Por esses tempos, soube-se que Fabio agora dera para tocar gaitas desafinadas e cantar inglês de improviso nos bancos de praça. Disseram que lembrava agora um rebelde sem causa, sem um motivo específico para tal desolação.
Mas disseram ainda que era capaz de vê-lo vagando pelas ruas vadias, deslizando em ladeiras das ruas não tão disformes, que mostravam para ele a inconstância de seu futuro nunca desvendado por nenhuma cartomante, por nenhum Deus, que até agora, perguntava-se sobre o destino desse humano solene que definhava sobre um pedaço de madeira vagabunda. Ouviu-se falar que mudou um pouco sua rotina sem sentido, tendo como passatempo, em todos os finais de semana, fumar duas carteiras de seu Los Angeles que danificava seus pulmões sequiosos de novos ares e mais destinos incertos.