quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Bêbados Famigerados


Todos dias da semana lá estavam eles, patéticos e insondáveis, com suas loucuras fascinantes, de enrubecer as donzelas mesquinhas que passavam por lá. O lugar era uma taverna, um pouco rústica e antiga, de há meio século atrás, que ainda mantinha o cheiro característico de álcool, misturado com o fedor exaurido das axilas dos outros bêbados.
E eles eram um médico, um advogado e um engenheiro. Todos bem vividos, casados, tinham mulheres dondocas, filhos arrogantes, que foram moldados numa rebeldia sem causa, num ideal ilusório, que nem eles mesmos conheciam de verdade. Mas isso não era o que fazia os bêbados famigerados beberem todos os dias. Nada, aliás, os fazia buscar um motivo para beber, pois beber era justamente o motivo.
Como todo estabelecimento popular e tradicional, a taverna localizava-se numa esquina bem movimentada, entre as pricipais ruas da cidade. Ao longe, já se podia ver as luzes, de todos os tipos, que davam ao lugar uma atmosfera convidativa. Na entrada, ostentava-se um manequim feminino, sorridente e todo iluminado, que apontava para o interior da taverna. Tinha-se que chegar muito perto para provar que o manequim não era uma mulher de verdade, tamanha era a aparência real que a figura proporcionava aos olhos dos bêbados.
Eles bebiam vinho, de preferência um Marcus James bem servido. Era essencial, para estes pobres dependentes do cotidiano alcoólico, um dia cansativo em seus trabalhos jocosos, pois eles queriam bebericar à vontade e só voltar para casa à meia noite. Ainda assim, conseguiam estar no trabalho na hora de sempre e quase nunca se atrasavam.
Numa noite daquelas, havia sido marcada uma partida poker entre os amigos. Sentavam-se à uma mesa bem próxima ao balcão, de onde viriam as musas que fariam os marmanjos bêbados delirarem de excitação. A bebida era servida por umas garçonetes bem safadas, que vestiam roupas justas e minúsculas. Marcus Antonio, o médico, levantou-se e ofereceu um brinde a todos, que, ao mesmo tempo, erguiram-se cordialmente e brindaram, frenéticos. As taças batiam uma nas outras, o vinho era derramado em algumas gotas e eles tomavam enormes goles, que desciam queimando. Ao perceber esta cena, Dante, o advogado lembrou-se da lenda de como surgiu a tradição de brindar. Fantasioso, como sempre fora, tomou a palavra na mesa, indagando aos companheiros de bar:
- Amigos, antes de começarmos o jogo, gostaria de lhes contar uma lenda muito interessante. Alguém aqui conhece a lenda do brinde?
Os amigos ficaram todos olhando atentamente para ele e ninguém respondeu antes de Joshua, o engenheiro:
- Não, eu, pelo menos, não conheço, mas já estou ficando curioso...
- Conta a lenda - prosseguiu Dante - que há muito tempo, na Alta Idade Média, os cavaleiros do Rei Artur reuniam-se num bar e serviam-se de vinho, postado sobre uma távola redonda. Versões contam que os cavaleiros variavam em número de 12 a 150, mas ninguém sabia ao certo. Tomavam bastante vinho em ocasiões especiais, como festas e comemorações tradicionais. Numa destas confraternizações, ocorreu que, por puro azar, um dos cavaleiros havia tido um ataque e morrera, decaído sobre a távola redonda. O fato inicialmente foi abafado, pois ninguém queria acusar cavaleiro nenhum de ter cometido alguma traição. Até que um dia, ainda encucado com a morte do amigo, um outro cavaleiro, mais astuto, desconfiou da morte por envenenamento. Outra festa veio e ele receou que o mesmo problema aconteceria novamente naquela ocasião. Antes que todos colocassem a taça na boca e ingerissem o vinho, o cavaleiro astuto propôs algo nunca antes visto por eles. Sugeriu que todos levantassem suas taças e as tocassem umas com as outras, para simbolizar a união dos amigos. Todos o fizeram e os vinhos derramaram das taças, misturando o conteúdo de umas nas outras. Desta feita, ele convidou a todos para tomarem o vinho, que agora era um único, igualmente para todos. Mas percebeu que havia um cavaleiro que não havia bebido o vinho, justamente aquele que ele já havia conjecturado. O cavaleiro astuto o acusou e todos os outros provaram a traição que aquele cavaleiro infame havia cometido, matando-o com a própria dose do vinho, o qual ele mesmo envenenara. Assim, desde então, todos que queriam provar a honestidade dos amigos acabavam tendo que brindar, para então ter a certeza da confiança de estarem bebendo algo sem veneno. A tradição foi passada de geração a geração, até chegar onde estamos agora.
Os companheiros já estavam impacientes e ansiosos para começaram logo com o jogo.
- Ah, Dante! Para de falar bobagens e vamos logo com esse jogo! - disse um homem, desconhecido.
- Por acaso, você, amigo, não nos envenenou com este vinho que está servido aqui, não? - retrucou Dante, um pouco tomado pela história que acabara de contar.
Todos da mesa riram.
O homem desconhecido sabia o nome de Dante, mas este não o conhecia, nem ao menos sabia o seu nome. Desconfiado, Dante sugeriu outro brinde para tirar as suas conclusões. Todos o fizeram novamente e ele observou atentamente a atitude do desconhecido. Viu-o tomar o vinho em longos goles, de tomar gosto, que ele mesmo havia se impressionado. Ficou sem reação ao perceber que sua desconfiança inútil só fazia com que os amigos o taxassem de louco e depravado. Sentiu-se um fútil.
Logo depois, o jogo iniciou-se.
Dante não jogou por estar se sentido mal, psicologicamente. O jogo começou bastante disputado entre os jogadores bêbados, que já haviam conquistado a fama. O melhor, quem mais blefava, era o engenheiro Joshua, que estava ganhando o jogo naquela ocasião. O jogo tornava-se um tanto quanto ridículo quando todos já estavam bêbados, incluindo Joshua, que atacava com uns blefes que todos os bêbados, inocentemente, acreditavam. Era sempre quem ganhava, não tinha pra ninguém.
Enquanto o jogo rolava, Dante apenas mordiscava um pouco do seu vinho e via os outros se embebedarem e falarem bobagens no jogo de poker. Vez em quando saia uns tapas, nada que evoluisse pra pancadaria extrema, pois ninguém se metia, os dois que brigassem que se entendessem. Essa era uma das regras do jogo.
O jogo já estava se encaminhando para o final e Joshua estava com a bola toda, havia ganhado muito dinheiro com as fichas e ninguém conseguia detê-lo. As mulheres começaram a subir no balcão, rebolando seus traseiros para os bêbados. Uma música dance tocava, as moças tivaram a roupa e todos iam à loucura. O som das batidas soava pesado dentro do ambiente e todos se empolgavam ainda mais. Calcinhas e sutiãs voavam como ouro no meio dos rapazes...
O jogo esquentava continuamente, os homens babavam e berravam àquelas animadoras da noite. Então, foi que Dante percebeu algo estranho na fisionomia de Joshua, que começou a sentir dores abdominais. O jogo continuava e ninguém se importava com as dores do companheiro...
Minutos mais tarde, Joshua, o melhor jogador da noite, estava ao chão, contorcendo-se de dor. Os últimos gritos apavorantes sairam de sua garganta e todos, agora, poderam ver a morte lenta e gradual do amigo.
Dante deu uma olhada ao redor da taverna.
O desconhecido havia sumido.
Joshua perdera a vida, o jogo e o dinheiro. Ganhou apenas a alcunha de mais um "bêbado famigerado", e todas as vezes era relembrado pela ocasião da lenda contada por Dante, que consumou-se coincidentemente na morte trágica de seu amigo, a quem sempre oferecera a companhia desoladora numa taverna promíscua.