quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um Corpo Ainda Resta

Na prodigiosa noite em que me deito
Em meu leito jaz uma alma morta.
À porta do cubículo se abre um capuz
Preto - é o sinal da dor em meu peito.

Antes fosse a morte em primazia
Mostrar-me a fantasia dos sonhos nostálgicos...
Ao passado me concedo uma lembrança:
Desde criança sofrer este presságio...

Assim vejo o pretérito se antepondo
Àquilo que chamam de medo febril...
O cálice da soberba fecundando em mim
A angústia fria de noites hostis.

Aguardando a vinda do sonho me deleito
Pois sei que em meu leito um corpo ainda resta
Numa aresta da cama um corpo ainda resta
Ainda que à porta se abra um capuz enegrecido.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sentido Contrário

Como de costume, os dois amigos se viam ao entardecer, na Rua do Largo, para compartilhar histórias e relatos verídicos deste mundo. Anubis era o que mais as contava, devido sua maior idade em relação a Marcelo, que mal contava os seus dezessete anos. Quanto mais intrigantes e interrogativas eram os relatos, mais os empolgavam.
Era uma tarde sombria, chovia um pouco, fato que não atrapalhava o encontro assíduo dos amigos.
- A história de hoje é sombria, dizia Marcelo.
- Hum; espero que seja também interessante, tanto quanto sombria.
Marcelo sabia que aquela era uma oportunidade para elevar a sua reputação como contador de histórias, pois contava poucas delas. Desta vez trazia uma, escrita por ele mesmo, baseada numa história real. E não se demorou a lê-la:
- A luz solar ia se esvaindo com o rubor das nuvens pretas que assomavam no céu de Goiás. A viagem estava perto do fim e uma pequena família, três membros, almejava chegar à terra natal depois das longas férias no Rio de Janeiro.
Luiz, esposo de Sônia e pai de Felipe, contava trinta anos, no auge de sua forma física, adorava viajar e praticar esportes radicais, como maneira de desfrutar de seu ótimo rigor físico.
Os últimos raios de sol tentavam penetrar por entre as mínimas frestas que ainda restavam nas nebulosidades, as quais severamente açoitavam a estrada. O temporal não demorou a chegar e a desgastar o asfalto vagabundo de uma rodovia brasileira; a névoa embaçava a torto e a direito os vidros do carro e Luiz apenas via os tímidos faróis de caminhão se aproximando do para-choque do automóvel. Finalmente as poças d'água eram mais frequentes, ao passo que Luiz, cada vez mais tentado em chegar mais cedo à sua cidade, apressava o veículo. De modo súbito, a aquaplanagem toma conta do carro de Luiz, enquanto Sônia, desesperada, toma o filho de seis anos nos braços, a fim de protegê-lo. O volante começa a puxar de um lado para o outro, eliminando as chances de Luiz controlá-lo, ao mesmo tempo em que o carro derrapa várias vezes no meio da pista escorregadia. Não demora muito para a buzina surda de uma carreta se aproximar do carro de uma família indefesa. Estava consumado: a enorme carreta destruía o pequemo veículo, ao mesmo tempo em que arruinava toda uma história de família. Os três mortos numa estrada genuinamente brasileira compunham o desterro dos parentes desolados.
Anubis apenas curvou sua boca para baixo:
- Uma história comum, cara. Isso acontece todos os dias.
- Acalma-te aí, Anubis, a história mesmo começa agora. Por acaso achas que um acidente ocorre sem um motivo contido? Vou contar o dia que antecedeu o acidente. Escuta.
Marcelo logo se apressou a pegar o velho papel de caderno, no qual escrevera aquela história.
- Um dia antes de a tragédia acontecer, Luiz preparava seu equipamento de Montain Bike para se aventurar nas trilhas perigosas de uma serra do Rio de Janeiro. Tudo ocorria bem, até que percebera que se distanciara muito do caminho de volta, não mais conhecia os caminhos por onde andava. Estava praticamente andando em círculo, perdido, no meio de uma floresta severa. O desespero tomava conta de Luiz; pensava que iria morrer, perder a sua mulher e o seu querido filho. Passou boa parte de uma tarde à procura do caminho de volta, até que avistou um cachorro. Achou deveras estranho um cachorro no meio de uma selva, sem nenhuma vivalma, à léguas de distância. Finalmente viu, ali, naquele cachorro, uma esperança. Começou a seguir o cão para onde este se dirigia, passou a confiar cegamente nele, sem saber de onde ele viera e como havia parado ali. Depois de certo tempo guiado pelo cachorro, Luiz percerbeu que começava a reconhecer o caminho onde trilhava com sua bicicleta. Foi então que ficou muito perto de onde começou sua aventura. Seus olhos brilhavam, enquanto descartava a possibilidade de morrer naquela floresta. Olhava para o pequeno animal que o salvara: resolveu tirar uma foto daquele ser que acabava de salvar a sua vida, a fim de guardá-la como recordação de suas férias. Enfim, salvo, Luiz volta à pousada onde estava hospedado com sua mulher e seu filho, os quais o aguardavam ansiosamente, a mulher já chorando, e o filho sorrindo quando viu o pai chegar. Luiz não perdeu tempo em contar a sua aventura, o seu sofrimento e a sua milagrosa salvação. Não deixou de ressaltar o ser que o salvou e de pegar a sua máquina e mostrar a foto que havia tirado do cão. Foi quando Luiz se apossou da máquina e procurou a fotografia do cachorro: ela não estava mais lá. Totalmente impressionado com o desaparecimento da fotografia, Luiz relata à família que tinha tirado a foto e ela simplesmente desaparecera. Na manhã seguinte uma família partia para a viagem derradeira, a viagem da morte de três pessoas...
Após acabar o relato, Marcelo olha para Anubis a fim de ver a sua expressão. Não se decepciona: Anubis estava totalmente absorto e pensativo.
Os dois se cumprimentam, se despedem e pegam novamente o caminho escuro da Rua do Largo, em sentido contrário.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A Tela do Arcabuz

Uma tela na janela aberta
Me cerca e prende em meio ao fim
Do túneo aberto que leva à janela
Em que a tela descansa um pintor.

O amor do cantor é maior
Do que a vida da música
Da maior melodia que existe

O feitio do pintor que pinta a tela
É mais bonito do que o feitio
Do cantor que canta a melodia
Do dia em que a tela o enfeitiçou.

Do túneo em que leva a tela
O cantor olha a luz
A qual ofusca o pintor
Que pinta a tela do arcabuz

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Mistério do Penhasco da Praia

A maresia corroía os prédios e os carros perto da orla. Carlos ainda não percebia que, caminhar na praia, às cinco da tarde, durante a folga do escritório, não lhe dava mais as respostas que desejava saber. Sua sina diária continuava sendo cumprida, conforme estabelecera, após a morte de sua mulher. Depois do dia em que o carro desgovernado, certamente com os freios sabotados, segundo Carlos, caiu do penhasco que dava para a praia, ele não deixou de passar pelo local do acidente, sempre àquela hora, ainda de terno e gravata, mas com os sapatos pendurados nas mãos, todos os dias. Carlos não trocava aqueles trinta minutos diários nem por duas noites seguidas com Amelinha.
Amelinha sempre deu em cima de Carlos, desde que chegara no escritório, como gerente. Na primeira noite, ambos confessaram suas vidas, cada um com um motivo que proibisse o caso amoroso que mantinham. O de Carlos era a morte da esposa e o de Amelinha era a própria existência do seu esposo. Mas era aí que fazia sentido o modo de vida que levavam, nada sendo muito regular, com a proibição em mente; faziam aquilo que seus corpos queriam.
Carlos sempre procurou um sentido para aquilo que vivia, e o sentido que encontrou na morte de sua mulher - pois ele a viveu - foi a estada no penhasco. Do escritório para a praia, eram dez minutos de caminhada, aos passos rápidos de Carlos, sendo mais cinco minutos de areia a leste para chegar ao lugar onde a sua vida fazia sentido.
O caso amoroso entre os dois já durava um ano; todos os gerentes da repartição a desejavam e não deixavam de surgir desavenças entre Carlos e os demais da firma. Amelinha não era qualquer uma, era inteligente, realmente bonita, mas um pouco tendenciosa e prepotente.
Eis que, durante o cumprimento de sua sina, Carlos se depara com Amelinha, que certamente o esperava, na base do penhasco.Era evidente, na mente de Carlos, que aquele momento de caminhada pertencia apenas a ele e a sua falecida esposa; e que a quebra da linearidade de sua rotina, às cinco da tarde de todos os dias, o afetou profundamente. Foi como se estivesse saído de uma epifania, ou se como tivesse acordado de um sonambulismo...
- O que fazes aqui, Amelinha?
Amelinha estava sentada na pedra em que Carlos costumava sentar.
- Vim te ver, meu amor.
- Amelinha, levanta daí e vai embora, agora, por favor!
Carlos ainda conseguia ser educado.
- O que é isso, Carlos? Me tratas assim, mesmo depois da noite de ontem, seu grosso?
Carlos tinha certeza que Amelinha estava alí para 'jogar' com ele. "Quer fazer estratégias emocionais", pensou ele.
- Ou você, ou eu. Um dos dois vai embora. Você vai querer sair agora?
- Meu amor, mas eu...
Carlos virou as costas e saiu caminhando na direção do escritório.
Estava tudo acabado entre ele e Amelinha.
Não mais conseguia se concentrar nos negócios da repartição; mesmo Amelinha não mais prendia sua atenção. Queria viver ao lado de sua esposa, a mulher a qual escolhera para viver, aquela que o destino 'caprichosamente' separou do homem que seria pai de alguns filhos.
Carlos pensava agora nos freios sabotados. Por que a sabotagem aconteceu, ela não tinha inimigos, era uma mulher tão boa para o marido...? Por um momento pensou em Amelinha, mas logo achou a suposição um absurdo, afinal, 'segundo a concepção dele', Amelinha só o conheceu depois que entrou na firma.
Enquanto a vida de Carlos perdia o sentido, Amelinha ganhava proximidade dele. Em vão, certamente.
Estava consumada a sua decisão...seria às cinco da tarde. Enquanto Carlos preparava o carro, Amelinha preparava uma festa surpresa, afinal, o dia seguinte era o dia em que Carlos comemorava o dia de seus anos.
A hora chegava. Carlos teve a sensatez de deixar um recado na caixa postal de Amelinha, partindo para o seu intento. Eram cinco da tarde, lá estava Amelinha esperando Carlos, na base do penhasco. Eram cinco da tarde, Amelinha avista um carro desgovernado rolando pelo penhasco. Olhou, perplexa, para o interior do carro e viu a mais horrível cena de sua vida.
Carlos morto.
No enterro, Amelinha comentava, amargurada e se sentindo culpada, para si mesmo, afirmando que tudo aquilo tinha ocorrido nada mais do que por sua causa.