Uma tela na janela aberta
Me cerca e prende em meio ao fim
Do túneo aberto que leva à janela
Em que a tela descansa um pintor.
O amor do cantor é maior
Do que a vida da música
Da maior melodia que existe
O feitio do pintor que pinta a tela
É mais bonito do que o feitio
Do cantor que canta a melodia
Do dia em que a tela o enfeitiçou.
Do túneo em que leva a tela
O cantor olha a luz
A qual ofusca o pintor
Que pinta a tela do arcabuz
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O Mistério do Penhasco da Praia
A maresia corroía os prédios e os carros perto da orla. Carlos ainda não percebia que, caminhar na praia, às cinco da tarde, durante a folga do escritório, não lhe dava mais as respostas que desejava saber. Sua sina diária continuava sendo cumprida, conforme estabelecera, após a morte de sua mulher. Depois do dia em que o carro desgovernado, certamente com os freios sabotados, segundo Carlos, caiu do penhasco que dava para a praia, ele não deixou de passar pelo local do acidente, sempre àquela hora, ainda de terno e gravata, mas com os sapatos pendurados nas mãos, todos os dias. Carlos não trocava aqueles trinta minutos diários nem por duas noites seguidas com Amelinha.
Amelinha sempre deu em cima de Carlos, desde que chegara no escritório, como gerente. Na primeira noite, ambos confessaram suas vidas, cada um com um motivo que proibisse o caso amoroso que mantinham. O de Carlos era a morte da esposa e o de Amelinha era a própria existência do seu esposo. Mas era aí que fazia sentido o modo de vida que levavam, nada sendo muito regular, com a proibição em mente; faziam aquilo que seus corpos queriam.
Carlos sempre procurou um sentido para aquilo que vivia, e o sentido que encontrou na morte de sua mulher - pois ele a viveu - foi a estada no penhasco. Do escritório para a praia, eram dez minutos de caminhada, aos passos rápidos de Carlos, sendo mais cinco minutos de areia a leste para chegar ao lugar onde a sua vida fazia sentido.
O caso amoroso entre os dois já durava um ano; todos os gerentes da repartição a desejavam e não deixavam de surgir desavenças entre Carlos e os demais da firma. Amelinha não era qualquer uma, era inteligente, realmente bonita, mas um pouco tendenciosa e prepotente.
Eis que, durante o cumprimento de sua sina, Carlos se depara com Amelinha, que certamente o esperava, na base do penhasco.Era evidente, na mente de Carlos, que aquele momento de caminhada pertencia apenas a ele e a sua falecida esposa; e que a quebra da linearidade de sua rotina, às cinco da tarde de todos os dias, o afetou profundamente. Foi como se estivesse saído de uma epifania, ou se como tivesse acordado de um sonambulismo...
- O que fazes aqui, Amelinha?
Amelinha estava sentada na pedra em que Carlos costumava sentar.
- Vim te ver, meu amor.
- Amelinha, levanta daí e vai embora, agora, por favor!
Carlos ainda conseguia ser educado.
- O que é isso, Carlos? Me tratas assim, mesmo depois da noite de ontem, seu grosso?
Carlos tinha certeza que Amelinha estava alí para 'jogar' com ele. "Quer fazer estratégias emocionais", pensou ele.
- Ou você, ou eu. Um dos dois vai embora. Você vai querer sair agora?
- Meu amor, mas eu...
Carlos virou as costas e saiu caminhando na direção do escritório.
Estava tudo acabado entre ele e Amelinha.
Não mais conseguia se concentrar nos negócios da repartição; mesmo Amelinha não mais prendia sua atenção. Queria viver ao lado de sua esposa, a mulher a qual escolhera para viver, aquela que o destino 'caprichosamente' separou do homem que seria pai de alguns filhos.
Carlos pensava agora nos freios sabotados. Por que a sabotagem aconteceu, ela não tinha inimigos, era uma mulher tão boa para o marido...? Por um momento pensou em Amelinha, mas logo achou a suposição um absurdo, afinal, 'segundo a concepção dele', Amelinha só o conheceu depois que entrou na firma.
Enquanto a vida de Carlos perdia o sentido, Amelinha ganhava proximidade dele. Em vão, certamente.
Estava consumada a sua decisão...seria às cinco da tarde. Enquanto Carlos preparava o carro, Amelinha preparava uma festa surpresa, afinal, o dia seguinte era o dia em que Carlos comemorava o dia de seus anos.
A hora chegava. Carlos teve a sensatez de deixar um recado na caixa postal de Amelinha, partindo para o seu intento. Eram cinco da tarde, lá estava Amelinha esperando Carlos, na base do penhasco. Eram cinco da tarde, Amelinha avista um carro desgovernado rolando pelo penhasco. Olhou, perplexa, para o interior do carro e viu a mais horrível cena de sua vida.
Carlos morto.
No enterro, Amelinha comentava, amargurada e se sentindo culpada, para si mesmo, afirmando que tudo aquilo tinha ocorrido nada mais do que por sua causa.
Amelinha sempre deu em cima de Carlos, desde que chegara no escritório, como gerente. Na primeira noite, ambos confessaram suas vidas, cada um com um motivo que proibisse o caso amoroso que mantinham. O de Carlos era a morte da esposa e o de Amelinha era a própria existência do seu esposo. Mas era aí que fazia sentido o modo de vida que levavam, nada sendo muito regular, com a proibição em mente; faziam aquilo que seus corpos queriam.
Carlos sempre procurou um sentido para aquilo que vivia, e o sentido que encontrou na morte de sua mulher - pois ele a viveu - foi a estada no penhasco. Do escritório para a praia, eram dez minutos de caminhada, aos passos rápidos de Carlos, sendo mais cinco minutos de areia a leste para chegar ao lugar onde a sua vida fazia sentido.
O caso amoroso entre os dois já durava um ano; todos os gerentes da repartição a desejavam e não deixavam de surgir desavenças entre Carlos e os demais da firma. Amelinha não era qualquer uma, era inteligente, realmente bonita, mas um pouco tendenciosa e prepotente.
Eis que, durante o cumprimento de sua sina, Carlos se depara com Amelinha, que certamente o esperava, na base do penhasco.Era evidente, na mente de Carlos, que aquele momento de caminhada pertencia apenas a ele e a sua falecida esposa; e que a quebra da linearidade de sua rotina, às cinco da tarde de todos os dias, o afetou profundamente. Foi como se estivesse saído de uma epifania, ou se como tivesse acordado de um sonambulismo...
- O que fazes aqui, Amelinha?
Amelinha estava sentada na pedra em que Carlos costumava sentar.
- Vim te ver, meu amor.
- Amelinha, levanta daí e vai embora, agora, por favor!
Carlos ainda conseguia ser educado.
- O que é isso, Carlos? Me tratas assim, mesmo depois da noite de ontem, seu grosso?
Carlos tinha certeza que Amelinha estava alí para 'jogar' com ele. "Quer fazer estratégias emocionais", pensou ele.
- Ou você, ou eu. Um dos dois vai embora. Você vai querer sair agora?
- Meu amor, mas eu...
Carlos virou as costas e saiu caminhando na direção do escritório.
Estava tudo acabado entre ele e Amelinha.
Não mais conseguia se concentrar nos negócios da repartição; mesmo Amelinha não mais prendia sua atenção. Queria viver ao lado de sua esposa, a mulher a qual escolhera para viver, aquela que o destino 'caprichosamente' separou do homem que seria pai de alguns filhos.
Carlos pensava agora nos freios sabotados. Por que a sabotagem aconteceu, ela não tinha inimigos, era uma mulher tão boa para o marido...? Por um momento pensou em Amelinha, mas logo achou a suposição um absurdo, afinal, 'segundo a concepção dele', Amelinha só o conheceu depois que entrou na firma.
Enquanto a vida de Carlos perdia o sentido, Amelinha ganhava proximidade dele. Em vão, certamente.
Estava consumada a sua decisão...seria às cinco da tarde. Enquanto Carlos preparava o carro, Amelinha preparava uma festa surpresa, afinal, o dia seguinte era o dia em que Carlos comemorava o dia de seus anos.
A hora chegava. Carlos teve a sensatez de deixar um recado na caixa postal de Amelinha, partindo para o seu intento. Eram cinco da tarde, lá estava Amelinha esperando Carlos, na base do penhasco. Eram cinco da tarde, Amelinha avista um carro desgovernado rolando pelo penhasco. Olhou, perplexa, para o interior do carro e viu a mais horrível cena de sua vida.
Carlos morto.
No enterro, Amelinha comentava, amargurada e se sentindo culpada, para si mesmo, afirmando que tudo aquilo tinha ocorrido nada mais do que por sua causa.
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