sexta-feira, 20 de março de 2009

Sentido Contrário

Como de costume, os dois amigos se viam ao entardecer, na Rua do Largo, para compartilhar histórias e relatos verídicos deste mundo. Anubis era o que mais as contava, devido sua maior idade em relação a Marcelo, que mal contava os seus dezessete anos. Quanto mais intrigantes e interrogativas eram os relatos, mais os empolgavam.
Era uma tarde sombria, chovia um pouco, fato que não atrapalhava o encontro assíduo dos amigos.
- A história de hoje é sombria, dizia Marcelo.
- Hum; espero que seja também interessante, tanto quanto sombria.
Marcelo sabia que aquela era uma oportunidade para elevar a sua reputação como contador de histórias, pois contava poucas delas. Desta vez trazia uma, escrita por ele mesmo, baseada numa história real. E não se demorou a lê-la:
- A luz solar ia se esvaindo com o rubor das nuvens pretas que assomavam no céu de Goiás. A viagem estava perto do fim e uma pequena família, três membros, almejava chegar à terra natal depois das longas férias no Rio de Janeiro.
Luiz, esposo de Sônia e pai de Felipe, contava trinta anos, no auge de sua forma física, adorava viajar e praticar esportes radicais, como maneira de desfrutar de seu ótimo rigor físico.
Os últimos raios de sol tentavam penetrar por entre as mínimas frestas que ainda restavam nas nebulosidades, as quais severamente açoitavam a estrada. O temporal não demorou a chegar e a desgastar o asfalto vagabundo de uma rodovia brasileira; a névoa embaçava a torto e a direito os vidros do carro e Luiz apenas via os tímidos faróis de caminhão se aproximando do para-choque do automóvel. Finalmente as poças d'água eram mais frequentes, ao passo que Luiz, cada vez mais tentado em chegar mais cedo à sua cidade, apressava o veículo. De modo súbito, a aquaplanagem toma conta do carro de Luiz, enquanto Sônia, desesperada, toma o filho de seis anos nos braços, a fim de protegê-lo. O volante começa a puxar de um lado para o outro, eliminando as chances de Luiz controlá-lo, ao mesmo tempo em que o carro derrapa várias vezes no meio da pista escorregadia. Não demora muito para a buzina surda de uma carreta se aproximar do carro de uma família indefesa. Estava consumado: a enorme carreta destruía o pequemo veículo, ao mesmo tempo em que arruinava toda uma história de família. Os três mortos numa estrada genuinamente brasileira compunham o desterro dos parentes desolados.
Anubis apenas curvou sua boca para baixo:
- Uma história comum, cara. Isso acontece todos os dias.
- Acalma-te aí, Anubis, a história mesmo começa agora. Por acaso achas que um acidente ocorre sem um motivo contido? Vou contar o dia que antecedeu o acidente. Escuta.
Marcelo logo se apressou a pegar o velho papel de caderno, no qual escrevera aquela história.
- Um dia antes de a tragédia acontecer, Luiz preparava seu equipamento de Montain Bike para se aventurar nas trilhas perigosas de uma serra do Rio de Janeiro. Tudo ocorria bem, até que percebera que se distanciara muito do caminho de volta, não mais conhecia os caminhos por onde andava. Estava praticamente andando em círculo, perdido, no meio de uma floresta severa. O desespero tomava conta de Luiz; pensava que iria morrer, perder a sua mulher e o seu querido filho. Passou boa parte de uma tarde à procura do caminho de volta, até que avistou um cachorro. Achou deveras estranho um cachorro no meio de uma selva, sem nenhuma vivalma, à léguas de distância. Finalmente viu, ali, naquele cachorro, uma esperança. Começou a seguir o cão para onde este se dirigia, passou a confiar cegamente nele, sem saber de onde ele viera e como havia parado ali. Depois de certo tempo guiado pelo cachorro, Luiz percerbeu que começava a reconhecer o caminho onde trilhava com sua bicicleta. Foi então que ficou muito perto de onde começou sua aventura. Seus olhos brilhavam, enquanto descartava a possibilidade de morrer naquela floresta. Olhava para o pequeno animal que o salvara: resolveu tirar uma foto daquele ser que acabava de salvar a sua vida, a fim de guardá-la como recordação de suas férias. Enfim, salvo, Luiz volta à pousada onde estava hospedado com sua mulher e seu filho, os quais o aguardavam ansiosamente, a mulher já chorando, e o filho sorrindo quando viu o pai chegar. Luiz não perdeu tempo em contar a sua aventura, o seu sofrimento e a sua milagrosa salvação. Não deixou de ressaltar o ser que o salvou e de pegar a sua máquina e mostrar a foto que havia tirado do cão. Foi quando Luiz se apossou da máquina e procurou a fotografia do cachorro: ela não estava mais lá. Totalmente impressionado com o desaparecimento da fotografia, Luiz relata à família que tinha tirado a foto e ela simplesmente desaparecera. Na manhã seguinte uma família partia para a viagem derradeira, a viagem da morte de três pessoas...
Após acabar o relato, Marcelo olha para Anubis a fim de ver a sua expressão. Não se decepciona: Anubis estava totalmente absorto e pensativo.
Os dois se cumprimentam, se despedem e pegam novamente o caminho escuro da Rua do Largo, em sentido contrário.