
Recentemente arranjei um emprego de entregador de pizza. Utilizei da minha humilde moto para que me contratassem como motoqueiro e fui bem sucedido. A pizzaria que me contratou é uma das melhores da cidade e sou obrigado a fazer meu trabalho muito bem feito, até porque eles pagam muito bem a seus moto-boys. Andava literalmente pra cima e pra baixo com minha moto, subindo e descendo os morros e entregando as pizzas nas casas de ricos.
Era no condomínio de luxo, logo no sopé da ladeira, que morava Lisa. Ela morava com o pai, a mãe e o irmão mais novo. Lisa tinha 17 anos e seu irmão, 15. Me apaixonei logo que vim morar aqui, quando a vi mexer em seus cabelos enquanto que o vento os açoitava. Foi uma cena inesquecível, pelo menos para mim, mas para seu namorado, isso não passou de uma jogadinha de charme para apimentar a relação. Lisa estudava num colégio pequeno que ficava do outro lado da ladeira e, todos os dias, Alberto, seu namorado, ia buscá-la com sua Honda 650 cilindradas e a deixava na porta de casa. Alberto cantava o pneu da sua moto - isso era o sinal para que eu soubesse que ele ia pegá-la na escola - então, eu chegava até a porta da velha casa e observava aquela lindeza de moto subir a ladeira com um ronco estridente de motor. A moto passava ao meu lado e eu quase quebrava o pescoço para poder acompanhá-la, até sumir completamente ladeira a baixo. Era então que passavam cinco minutos e eu me dirigia até a janela do meu quarto, para observar, do alto, aquela cena que eu via todos os dias. Eu não via Lisa subindo na moto, mas é óbvio que antes disso ela dava uns beijinhos em Alberto e o deixava envergonhado. Depois, eu os via passar em frente à minha janela, os cabelos de Lisa, esvoaçantes, eram desprotegidos do capacete e eu novamente observava as duas, Lisa e a moto, descendo ladeira a baixo até chegarem na porta de casa. Eu achava muito sexy a forma com que Lisa se posicionava em cima da moto, ficava olhando seu traseiro - o da Lisa, é claro! - balançar sobre o assento. Ela dava outro beijinho em Alberto e ele ia pra casa, cantando novamente o pneu da sua Honda 650.
Para mim, ver aquela mesma cena diariamente era instigante. Aquilo movia meus neurônios e me fazia pensar em elaborar alguma coisa para que algo de ruim acontecesse com o namorado de Lisa. Mas eu só pensava e não fazia nada; talvez nem mesmo estivesse amando Lisa, não valeria a pena sujar minhas mãos com um playboyzinho qualquer. O fato é que meus pensamentos nada valiam diante de outra cena cena que eu via: por entre a frestas da janela do quarto de Lisa, eu a via trocar de roupa depois do banho. Era lindo e ao mesmo tempo excitante. Era capaz de ver abrir a porta do banheiro de sua suíte e de fitar a toalha de Lisa escorregando sobre o seu corpo curvilíneo até tocar o chão. Seus cabelos, vez em quando, cobriam seus seios esguios e eu ficava louco para que eles pudessem aparecer entre os finos fios. Minhas pernas tremiam e meu coração descompassava, tinha que ter muito cuidado para que ninguém me visse espiando uma garota.
Outro dia eu peguei minha Honda 125 e sai à procura de um bom binóculo. Tinha juntado uma grana que consegui com a venda de meu tênis Nike e mais uns colares de prata. Com o total, apurei 450 paus e comprei o bendito binóculo, que me ajudaria a saber um pouco mais sobre a vida de Lisa. Lembro agora quando escutei pela primeira vez o nome de Lisa alisar os meus ouvidos. Estava entregando pizza, na casa vizinha à dela. Seu pai balbuciou seu nome enquanto ela corria para abraçá-lo. Aquelas quatro letras alisaram meus ouvidos a ponto de me fazerem cócegas, e eu ri, ri abertamente enquanto seu pai lhe perguntava sobre os assuntos do colégio.
Eis que com a posse do binóculo passei a descobrir com mais detalhes os confins do corpo de Lisa. Com a precisão do binóculo fui capaz de perceber os pontinhos das sardas que ela tinha no rosto e sua tatuagem sexy nas costas, que se tratava de duas borboletas acasalando; tive a sorte de tê-la visto melhor enquanto ia à praia com seu namorado. Quando dava umas oito horas da noite, todos os dias, ela fazia a mesma coisa e eu me escaldava com o calor que ela emitia de seu corpo.
Quando Lisa ia para o colégio e seus pais para o trabalho, seu irmão ficava sozinho em casa. Fiquei surpreso na primeira vez que vi aquela fumaça saindo da janela do quarto dele. Ele era um garoto solitário, naqueles momentos a sua única companhia era a maconha, fumava quase todo dia e nem seus pais nem Lisa desconfiavam de algo diferente. Eu também observava aquela erva sofrendo combustão e o seu produto indo se instalar nos pulmões daquele garoto sombrio. Quando ele tragava, a erva ficava incandescente e depois tornava a ser meras cinzas que completavam os espaços de sua mente.
Às vezes eu via que a vida era meio injusta comigo e sempre acontecia algo para ela mesma se complicar. Mas talvez seria eu mesmo que não soubesse como vivê-la intensamente, de maneira a desfrutar dos sabores e cheiros que eu sentia do alto da minha casa. Eu não sabia me livrar dos pequenos obstáculos que me apareciam do nada, não era experiente para conquistar uma mulher de verdade e sempre esperava que as coisas acontecessem, nunca interferia nelas para que não fizesse algo de errado comigo mesmo. Não encarava a vida de frente, talvez eu precisasse descer do morro e colocar meus pés no chão, onde está tudo o que me cerca e me faz pensar. Precisava realmente descer do morro e encarar a vida, ou melhor, a Lisa.
E foi isso que eu fiz.
Estava no fim do expediente e minhas entregas estavam também chegando ao fim, junto com a minha paciência. Carregava nas costas uma mochila pesada - o dia todo - que continha pizzas e refrigerantes dos mais variados. Havia algo em mim que me parecia raiva ou ódio, não sabia ao certo, mas sabia que iria ocorrer alguma coisa naquele fim de expediente. Era cinco da tarde e o vento assobiava na cidade conturbada. Talvez minha velha casa estivesse balançando neste momento, e por um instante pensei nela desabando. Mas nada aconteceu com ela, o problema estava na minha moto. Tinha uma entrega marcada para essas mesmas cinco horas e o trânsito não me ajudava a chegar no horário, além do mais, para agravar a situação, minha pobre Honda 125 morre no meio da avenida. Estávamos chegando no horário de pico do engarrafamento e os carros não se moviam um milímetro se quer, o que me fez descer da moto e empurrá-la até o endereço que correspondia a 2Km de distância de onde estava. Cheguei lá às seis e cinco, a pizza já havia esfriado, levei um grande esporro do cliente e uma fechada de porta na cara. Mas não ganhei isso apenas, parece que já adivinhava o que aconteceria depois, e fui logo me conformando. Voltei à pizzaria e meu chefe apareceu com cara de maus amigos:
- Você já deve saber o que vai acontecer, meu caro. Pegue logo essa sua moto inútil e se manda daqui. Tome aqui suas contas, rapaz, você está despedido!
- Muito obrigado.
Voltei para casa cansado, depois de empurrar a lata velha ao longo de 3Km. Percebi que era esta a hora. Então, peguei minha moto, nem precisei ligá-la - até porque isso não ocorreria - e fui descendo a ladeira em cima dela até chegar ao sopé da casa da Lisa. Nas minhas costas, carregava a mochila de entregar pizza... eu bancaria o entregador de pizza. Esse era o plano.
Toquei a campainha. Ela aparece de camisola na minha frente. De início, faz uma cara meio que confusa. Eu a encaro realmente de frente. Olho no olho.
- Vocês pediram pizza? - eu pergunto com a voz falha e trêmula.
- Não, deve ter sido um engano, qual o endereço que tem aí? - era primeira vez que ouvia o som limpo e sereno de sua voz.
- Rua Labuta, n° 311. - disse eu lendo um suposto papel que carregava no bolso da blusa.
- Sinto muito, senhor, eu não pedi pizza nenhuma, além do mais, estou sozinha em casa.
Um momento de fraqueza me fez imaginar cenas de orgias praticadas com ela e minha cara-de-pau veio à tona quando disse:
- Nossa, uma moça tão jovem e bonita que nem você não tem medo de ficar sozinha em casa?
Ela sorriu um sorriso tímido e deve ter pensado: quem esse canalha pensa que é?
- Não, acho que já tenho idade o bastante para não ficar pensando nessas besteiras. Agora dá licença, por favor? - disse ela meio impaciente.
Eu coloquei a mão na porta para que ela não se fechasse na minha cara.
- Eu sei que você deve tá me achando um canalha, talvez eu seja um realmente. Acho que você já me viu alguma vez, eu sou o cara que mora naquela casa no alto do morro. - ela coloca a cabeça pra fora da porta e olha lá pra cima.
- Ah, é? Acho que já te vi sim, desculpa a inconveniência, meu nome é Lisa!
- Eu sei! - já não podia me conter.
- Como assim sabe? - ela estava totalmente confusa e desconfiada.
- Eu te vejo todo dia indo pro colégio, já vi teu pai falando contigo, vejo teu namorado te buscar na escola com aquela motona...
Seus olhos verdes agora me olhavam com atenção.
- Pô, cara, não sabia que você me conhecia tanto assim. - ela foi bem gentil comigo - não quer entrar e tomar uma água?
- Aceito. Eu vim aqui pra te conhecer melhor, é porque, te vendo todo dia, minha curiosidade aumenta e receio isso ser importante para mim. - nunca fui tão sincero, ela percebeu isto.
- Entra aí, tira essa mochila das costas, você deve estar cansado do expediente, não?
- Como não? Mas hoje eu fui despedido. - abaixei minha cabeça e entrei na casa dela.
Sentei no sofá e tomei rapidamente a água que ela me trouxe. Minha sede por ela era grande, mas me controlava firmemente.
- Eu sinto muito. - eu não acreditava fielmente nestas palavras.
Paramos por um tempo. Nossas vozes cessaram durante dois minutos e não sabia se falava algo ou se esperava que ela falasse alguma coisa. Nós, incrivelmente, resolvemos falar ao mesmo, e ficamos totalmente sem graça.
- Pode falar, o que é? - disse eu, curioso.
- Não, eu prefiro que você fale primeiro - isso me fez achar que ela esperava alguma coisa que eu dissesse naquele exato momento. Acatei ao seu pedido. Esperei dez segundos até que as palavras saíram da minha boca com dificuldade:
- O que significa para você essas duas borboletas acasalando, aí nas suas costas?
Ela sorriu um sorriso mais provocador e respondeu:
- Significa a liberdade de espírito, que vem numa noite inesperada voar sobre o meu corpo e me fazer sentir com asas!
Confesso que foi a transa mais louca que tive na minha vida!
