quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Bumerangue


Minha rua era uma ladeira e minha casa ficava no topo dela. Os morros eram muito comuns nesta cidade e eu sempre via o que estava sob meus pés, onde rolava de tudo, desde bolas de futebol, até mendigos e condomínios de luxo. Sobre a ladeira, os carros subiam e desciam com dificuldade, de tão íngreme que era esta subida, ao passo que os comentários maldosos, às vezes, eram mais rápidos que os sons emitidos pelas bocas das velhas fofoqueiras. Havia ganhado uma Honda 125 cilindradas do meu avô, que morrera recentemente e me deixara também de presente esta casa velha e mal reformada, a qual vacilava com o vento que recebia às cinco da tarde. Era gostoso a sensação que eu tinha quando a casa balançava enquanto eu olhava da janela do meu quarto, parecendo até que eu estava voando, vendo, lá em baixo, a cidade pequena se mexer e ficar sob os meus pés. Mas era paradoxal quando eu pensava que a velha casa poderia desabar a qualquer momento, até via a rachadura da coluna aumentar a cada semana que passava. Se ela desabasse, certamente, seus escombros iriam rolar ladeira a baixo e matariam outras pessoas e destruiriam outras casas.
Recentemente arranjei um emprego de entregador de pizza. Utilizei da minha humilde moto para que me contratassem como motoqueiro e fui bem sucedido. A pizzaria que me contratou é uma das melhores da cidade e sou obrigado a fazer meu trabalho muito bem feito, até porque eles pagam muito bem a seus moto-boys. Andava literalmente pra cima e pra baixo com minha moto, subindo e descendo os morros e entregando as pizzas nas casas de ricos.
Era no condomínio de luxo, logo no sopé da ladeira, que morava Lisa. Ela morava com o pai, a mãe e o irmão mais novo. Lisa tinha 17 anos e seu irmão, 15. Me apaixonei logo que vim morar aqui, quando a vi mexer em seus cabelos enquanto que o vento os açoitava. Foi uma cena inesquecível, pelo menos para mim, mas para seu namorado, isso não passou de uma jogadinha de charme para apimentar a relação. Lisa estudava num colégio pequeno que ficava do outro lado da ladeira e, todos os dias, Alberto, seu namorado, ia buscá-la com sua Honda 650 cilindradas e a deixava na porta de casa. Alberto cantava o pneu da sua moto - isso era o sinal para que eu soubesse que ele ia pegá-la na escola - então, eu chegava até a porta da velha casa e observava aquela lindeza de moto subir a ladeira com um ronco estridente de motor. A moto passava ao meu lado e eu quase quebrava o pescoço para poder acompanhá-la, até sumir completamente ladeira a baixo. Era então que passavam cinco minutos e eu me dirigia até a janela do meu quarto, para observar, do alto, aquela cena que eu via todos os dias. Eu não via Lisa subindo na moto, mas é óbvio que antes disso ela dava uns beijinhos em Alberto e o deixava envergonhado. Depois, eu os via passar em frente à minha janela, os cabelos de Lisa, esvoaçantes, eram desprotegidos do capacete e eu novamente observava as duas, Lisa e a moto, descendo ladeira a baixo até chegarem na porta de casa. Eu achava muito sexy a forma com que Lisa se posicionava em cima da moto, ficava olhando seu traseiro - o da Lisa, é claro! - balançar sobre o assento. Ela dava outro beijinho em Alberto e ele ia pra casa, cantando novamente o pneu da sua Honda 650.
Para mim, ver aquela mesma cena diariamente era instigante. Aquilo movia meus neurônios e me fazia pensar em elaborar alguma coisa para que algo de ruim acontecesse com o namorado de Lisa. Mas eu só pensava e não fazia nada; talvez nem mesmo estivesse amando Lisa, não valeria a pena sujar minhas mãos com um playboyzinho qualquer. O fato é que meus pensamentos nada valiam diante de outra cena cena que eu via: por entre a frestas da janela do quarto de Lisa, eu a via trocar de roupa depois do banho. Era lindo e ao mesmo tempo excitante. Era capaz de ver abrir a porta do banheiro de sua suíte e de fitar a toalha de Lisa escorregando sobre o seu corpo curvilíneo até tocar o chão. Seus cabelos, vez em quando, cobriam seus seios esguios e eu ficava louco para que eles pudessem aparecer entre os finos fios. Minhas pernas tremiam e meu coração descompassava, tinha que ter muito cuidado para que ninguém me visse espiando uma garota.
Outro dia eu peguei minha Honda 125 e sai à procura de um bom binóculo. Tinha juntado uma grana que consegui com a venda de meu tênis Nike e mais uns colares de prata. Com o total, apurei 450 paus e comprei o bendito binóculo, que me ajudaria a saber um pouco mais sobre a vida de Lisa. Lembro agora quando escutei pela primeira vez o nome de Lisa alisar os meus ouvidos. Estava entregando pizza, na casa vizinha à dela. Seu pai balbuciou seu nome enquanto ela corria para abraçá-lo. Aquelas quatro letras alisaram meus ouvidos a ponto de me fazerem cócegas, e eu ri, ri abertamente enquanto seu pai lhe perguntava sobre os assuntos do colégio.
Eis que com a posse do binóculo passei a descobrir com mais detalhes os confins do corpo de Lisa. Com a precisão do binóculo fui capaz de perceber os pontinhos das sardas que ela tinha no rosto e sua tatuagem sexy nas costas, que se tratava de duas borboletas acasalando; tive a sorte de tê-la visto melhor enquanto ia à praia com seu namorado. Quando dava umas oito horas da noite, todos os dias, ela fazia a mesma coisa e eu me escaldava com o calor que ela emitia de seu corpo.
Quando Lisa ia para o colégio e seus pais para o trabalho, seu irmão ficava sozinho em casa. Fiquei surpreso na primeira vez que vi aquela fumaça saindo da janela do quarto dele. Ele era um garoto solitário, naqueles momentos a sua única companhia era a maconha, fumava quase todo dia e nem seus pais nem Lisa desconfiavam de algo diferente. Eu também observava aquela erva sofrendo combustão e o seu produto indo se instalar nos pulmões daquele garoto sombrio. Quando ele tragava, a erva ficava incandescente e depois tornava a ser meras cinzas que completavam os espaços de sua mente.
Às vezes eu via que a vida era meio injusta comigo e sempre acontecia algo para ela mesma se complicar. Mas talvez seria eu mesmo que não soubesse como vivê-la intensamente, de maneira a desfrutar dos sabores e cheiros que eu sentia do alto da minha casa. Eu não sabia me livrar dos pequenos obstáculos que me apareciam do nada, não era experiente para conquistar uma mulher de verdade e sempre esperava que as coisas acontecessem, nunca interferia nelas para que não fizesse algo de errado comigo mesmo. Não encarava a vida de frente, talvez eu precisasse descer do morro e colocar meus pés no chão, onde está tudo o que me cerca e me faz pensar. Precisava realmente descer do morro e encarar a vida, ou melhor, a Lisa.
E foi isso que eu fiz.
Estava no fim do expediente e minhas entregas estavam também chegando ao fim, junto com a minha paciência. Carregava nas costas uma mochila pesada - o dia todo - que continha pizzas e refrigerantes dos mais variados. Havia algo em mim que me parecia raiva ou ódio, não sabia ao certo, mas sabia que iria ocorrer alguma coisa naquele fim de expediente. Era cinco da tarde e o vento assobiava na cidade conturbada. Talvez minha velha casa estivesse balançando neste momento, e por um instante pensei nela desabando. Mas nada aconteceu com ela, o problema estava na minha moto. Tinha uma entrega marcada para essas mesmas cinco horas e o trânsito não me ajudava a chegar no horário, além do mais, para agravar a situação, minha pobre Honda 125 morre no meio da avenida. Estávamos chegando no horário de pico do engarrafamento e os carros não se moviam um milímetro se quer, o que me fez descer da moto e empurrá-la até o endereço que correspondia a 2Km de distância de onde estava. Cheguei lá às seis e cinco, a pizza já havia esfriado, levei um grande esporro do cliente e uma fechada de porta na cara. Mas não ganhei isso apenas, parece que já adivinhava o que aconteceria depois, e fui logo me conformando. Voltei à pizzaria e meu chefe apareceu com cara de maus amigos:
- Você já deve saber o que vai acontecer, meu caro. Pegue logo essa sua moto inútil e se manda daqui. Tome aqui suas contas, rapaz, você está despedido!
- Muito obrigado.
Voltei para casa cansado, depois de empurrar a lata velha ao longo de 3Km. Percebi que era esta a hora. Então, peguei minha moto, nem precisei ligá-la - até porque isso não ocorreria - e fui descendo a ladeira em cima dela até chegar ao sopé da casa da Lisa. Nas minhas costas, carregava a mochila de entregar pizza... eu bancaria o entregador de pizza. Esse era o plano.
Toquei a campainha. Ela aparece de camisola na minha frente. De início, faz uma cara meio que confusa. Eu a encaro realmente de frente. Olho no olho.
- Vocês pediram pizza? - eu pergunto com a voz falha e trêmula.
- Não, deve ter sido um engano, qual o endereço que tem aí? - era primeira vez que ouvia o som limpo e sereno de sua voz.
- Rua Labuta, n° 311. - disse eu lendo um suposto papel que carregava no bolso da blusa.
- Sinto muito, senhor, eu não pedi pizza nenhuma, além do mais, estou sozinha em casa.
Um momento de fraqueza me fez imaginar cenas de orgias praticadas com ela e minha cara-de-pau veio à tona quando disse:
- Nossa, uma moça tão jovem e bonita que nem você não tem medo de ficar sozinha em casa?
Ela sorriu um sorriso tímido e deve ter pensado: quem esse canalha pensa que é?
- Não, acho que já tenho idade o bastante para não ficar pensando nessas besteiras. Agora dá licença, por favor? - disse ela meio impaciente.
Eu coloquei a mão na porta para que ela não se fechasse na minha cara.
- Eu sei que você deve tá me achando um canalha, talvez eu seja um realmente. Acho que você já me viu alguma vez, eu sou o cara que mora naquela casa no alto do morro. - ela coloca a cabeça pra fora da porta e olha lá pra cima.
- Ah, é? Acho que já te vi sim, desculpa a inconveniência, meu nome é Lisa!
- Eu sei! - já não podia me conter.
- Como assim sabe? - ela estava totalmente confusa e desconfiada.
- Eu te vejo todo dia indo pro colégio, já vi teu pai falando contigo, vejo teu namorado te buscar na escola com aquela motona...
Seus olhos verdes agora me olhavam com atenção.
- Pô, cara, não sabia que você me conhecia tanto assim. - ela foi bem gentil comigo - não quer entrar e tomar uma água?
- Aceito. Eu vim aqui pra te conhecer melhor, é porque, te vendo todo dia, minha curiosidade aumenta e receio isso ser importante para mim. - nunca fui tão sincero, ela percebeu isto.
- Entra aí, tira essa mochila das costas, você deve estar cansado do expediente, não?
- Como não? Mas hoje eu fui despedido. - abaixei minha cabeça e entrei na casa dela.
Sentei no sofá e tomei rapidamente a água que ela me trouxe. Minha sede por ela era grande, mas me controlava firmemente.
- Eu sinto muito. - eu não acreditava fielmente nestas palavras.
Paramos por um tempo. Nossas vozes cessaram durante dois minutos e não sabia se falava algo ou se esperava que ela falasse alguma coisa. Nós, incrivelmente, resolvemos falar ao mesmo, e ficamos totalmente sem graça.
- Pode falar, o que é? - disse eu, curioso.
- Não, eu prefiro que você fale primeiro - isso me fez achar que ela esperava alguma coisa que eu dissesse naquele exato momento. Acatei ao seu pedido. Esperei dez segundos até que as palavras saíram da minha boca com dificuldade:
- O que significa para você essas duas borboletas acasalando, aí nas suas costas?
Ela sorriu um sorriso mais provocador e respondeu:
- Significa a liberdade de espírito, que vem numa noite inesperada voar sobre o meu corpo e me fazer sentir com asas!
Confesso que foi a transa mais louca que tive na minha vida!



terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Raio de Sensações

Um raio esplendoroso caiu sobre meu peito...
Não vi a luz crepuscular invadir minha alma,
Iluminando o meu pensamento liqüefeito
E apagando as atrocidades de minha calma.

Pensei que fosse morrer por um instante,
E me dispus a escrever sem comedimentos...
Tudo à minha volta pareceu-me angustiante
Mas voltei a me lembrar de meus pensamentos.

Assim, roguei ao meu peito que parasse a dor,
Tirei dos confins do meu corpo a minha carne...
Um turbilhão de ruídos volveu-me em esplendor.

Sempre procurando o sentido que a vida falta
Não encontro nada senão medo e pavor
E nunca vejo, então, a liberdade que me salta.

domingo, 16 de dezembro de 2007

No mundo quem impera são os irracionais

As pessoas nunca olham para dentro de si mesmas. Não percebem o prazer que é se encontrar sozinho no interior de uma jaula enclausurada, a espera que alguém lhe abra a jaula e mostre um mundo medonho e ressequido de entulhos podres. Talvez a prisão consternadora de seus mundos medíocres seja tão desoladora quanto uma manhã azul de sol, entrando, sem querer, por uma janela entreaberta.
Uma noite enluarada na vida de um mesquinho nada mais vale do que uma noite enluarada. Mas, por que sempre tem que haver alguém para atabalhoar todas nossas idéias e nos deixar loucos? Talvez nada mesmo aconteça por acaso, tudo tem algum sentido, por mais difícil que seja de encontrá-lo nas entranhas desta vida. Pode ser que existam pessoas com ações nada comuns, com a intenção de fazer algo que tenha sentido, algo que nos faça dizer, "Porra, isso não aconteceu ao acaso". Todos vão se questionar sobre isso, outros vão apenas ignorar essas palavras impensadas de seus cérebros, e outros poucos, ainda, tentarão entender o motivo de algo não acontecer por acaso.
O que me faz sentir a vida é poder saber de algo que faz parte dela. Aristóteles disse que nada sabia, porquanto sempre procurou entender o que se passava a seu redor. Talvez ele nada sabia a seu respeito, bem como nada sabia de como pensar sobre ela.
Mas, para que pensamos e pensamos e nada sabemos a respeito do que se passa ao nosso redor? Acho que é porque nossa visão de mundo sempre está um pouco tapada, pelos meios de comunicação, principalmente. Eles fazem isso, tapam sua visão de mundo que você tanto almeja desvencilhar, e você nada percebe. Nem percebe, ao menos, que quem realmente te tapa é a Rede Globo, Record, SBT e similares. As "pobrezinhas" nem sequer se dão conta de que estão fazendo isso e apenas mergulham ainda mais em seu estados latentes de espíritos mal-ditos. Mas a televisão te distrai e te faz esquecer dos problemas que ela mesmo ajudou a criar. Talvez se a televisão nunca tivesse existido, não precisaríamos nos preocupar com os problemas diários e esquecê-los por um momento e lembrá-los em outro. Eu neste momento sou a favor do que os caras do filme "Duro de Matar 4" fizeram com os sistemas. Tomaram posse e destruíram todos os meios, apenas para ajudar a minimizar o tempo de destruição total.
Mas a humanidade "evolui" e se auto-destrói. A gente não vive sem a humanidade. Eu preciso comer o feijão que o agricultor planta e colhe, eu preciso da genialidade (se é que isso vem ao caso) de um físico para fazer funcionar a lâmpada da minha casa. Mas se tudo isso não tivesse existido, eu não precisaria da humanidade. Os primeiros Homo sapiens não desfrutavam deste tipo de "prazer" que nós usufruímos e desperdiçamos hoje. Mas ele sempre evolui, é natural na maioria das espécies, e sempre se auto-destrói.
Eu me sinto excluído deste mundo, justamente porque sou diferente da maioria das espécies. Nós temos algo inerente a nós mesmos e os demais animais a eles. Por isso, eles são maioria no mundo. É, no mundo quem impera são os irracionais. Por que você acha que milhões de bactérias se multiplicam rapidamente e existem numa razão absurdamente grande a cada milímetro quadrado de seu corpo? Bactéria nem ao menos é animal. É um Monera, como diria o Amabis. Pois são estes seres, que tanto nos auxiliam como também nos destroem, que imperam. Talvez estas bactérias façam parte de nós mesmos e nos ajudam a nos destruir por completo, apenas para adiantar a morte em si.
Eu prefiro aderir à Lei do Silêncio e não mais falar de nada que eu sei. Aristóteles talvez estivesse tão errado quanto eu estou agora. Psiu!

sábado, 8 de dezembro de 2007

Causa Mortis


1) Evidências pré-ambulatórias do laudo médico do IML

Ao encontrar Judith Barbosa Pessoa decaída sobre o jardim, deparamo-nos com a mesma ainda viva, embora agonizante, sua cabeça pendia sobre o ombro já com a clavícula esquerda expostamente fraturada, enquanto seu corpo, ainda trêmulo, apresentava sinais de epilepsia crônica. Seu globo ocular neste instante revirava-se continuamente e sua face retorcia-se toda em meio à paralisias musculares indistintas. Porquanto chegamos ao local, à guisa de muito suor, consegui fazer com que meus ajudantes se aproximassem junto comigo, face ao pleno estado de horror que aquela infernália proporcionava às nossas vistas.
Não logramos tocá-la inicialmente, pois seu corpo desvanecido nos fazia retroceder em laudos imediatos. Todavia, galgamos bem próximo da paciente e injetamos-lhe uma dose de vigabatrina, medicamento especial para estes casos epilépticos. Ao tentarmos suprimir os efeitos da neurose com o medicamento eficaz, observamos que seu estado momentaneamente apaziguara, e suas feições contorcidas desapareceram progressivamente das maçãs de seu rosto. Aproveitamos o ensejo para cobri-la com o manto de manutenção térmica, para seu corpo não retroagir aos estados que antes apresentava.
Adiciono a este documento a falta preparação do SAMU, o qual apresentou longas demoras para chegar com as macas ao local. Esperávamos principalmente pelos para-médicos, que portavam os desfibriladores necessários à revitalização da paciente.
Quando os para-médicos chegaram, frívolos, receberam minhas instruções e iniciaram a preparação para reanimar Judith. Porém, todo o esforço esboçado pelos meus ajudantes não foi capaz de reanimá-la, o que confirmou o meu presságio.
Constato, com imensa frustração, a morte trágica dessa mulher que, sem sombra de dúvidas, teve o seu sortilégio muito bem arquitetado, com o intuito de não deixar a mínima possibilidade de sobrevivência. Neste momento, dou-me a gentileza de levá-la ao carro do IML, para que a perícia corpórea seja feita e possa ajudar a Polícia a desvendar as causas deste óbito.

Dr. Gervázio Costa,

médico legista do IML.

***


2) Nota Policial sobre o óbito de Judith Barbosa Pessoa

Nenhum vestígio, seja de pólvora ou de perfurações de arma branca, foi encontrado no corpo de Judith, o que nos fez pasmar diante da sua aparência física iníqua e esquálida. Nosso objetivo, no entanto, foi de logo nos ocuparmos com a investigação local de toda a casa, desde o jardim, que serviu de espaço para a consumação da morte, até os mais inóspitos aposentos do imóvel. Constantemente recebendo informações de populares, constatamos que o cadáver não apresentava, em vida, qualquer ente habitando consigo, o que nos faz ter a certeza da remota chance de alguém ter pedido ajuda médica imediata.
Segundo o Dr. Gervázio Costa, pioneiro no local de morte, os populares ligaram para o IML para saber se havia morrido a referida mulher, pois há mais de duas semanas a mesma não era vista andando pelas ruas do bairro e quando tentavam a campainha não logravam resposta alguma. Este fato fez com que o Dr. nos comunicasse para logo podermos invadir a casa e averiguar o que teria ocorrido. Não recebemos nenhuma ligação de familiares, que até o presente momento não deram luz alguma à nossa investigação policial.
Constatamos a identidade do cadáver pela conta de energia elétrica que se encontrava sobre a mesa da sala. Algo nos intriga: examinando a folha do pagamento, notamos que sua conta era quase isenta de valor, o que nos permite afirmar que a defunta não utilizava quase luz nenhuma em seus aposentos. A sala estava em perfeita arrumação, ao passo que a cozinha nos apresentou uma forte evidência: encontramos pílulas, dos mais variados tamanhos e cores, espalhadas pela prateleira e pelo chão.
Voltamos ao local da morte e ajudamos os peritos a demarcar o contorno do corpo na área em que o mesmo jazia. Lá, encontramos outro precioso meio para nos ajudar nas procedências do óbito: seu celular estava meio escondido entre as folhas secas do jardim, bem próximo da demarcação do corpo. Tratamos de enviá-lo à Policia Civil para obtermos a autorização necessária ao grampeamento do telefone.
Investigamos o nome da defunta e ficamos sabendo do Ministério do Trabalho que a mesma tratava-se de uma advogada civil, que trabalhava em um escritório na avenida Rebouças. Fomos até lá e obtivemos os nomes dos pais de Judith. O pai já também encontrava-se morto, mas a mãe, de 86 anos, ainda viva, residia em outro bairro, oposto ao que a filha morava.
Ao depararmos com o endereço que nos foi fornecido, pasmamos com o local absolutamente inóspito e sombrio que nos rodeava. A casa jazia sem número algum e era vigiada por cachorros fétidos e valentes, os quais nos obrigaram a manter uma distância mínima de vinte metros do local. Então, sem mais opção a escolher, dei um tiro voltado para o alto com a minha pistola, mas não logramos êxito em expulsar os animais, que permaneciam ferozmente no recinto da casa velha e sombria. Talvez incomodada com o barulho tenebroso que os animais faziam, a velha senhora abriu, ou melhor, tirou a porta do lugar e nos apareceu com uma cara estranhamente severa. Bateu fortemente com sua bengala no crânio de cada um dos animais que nos perturbava, afastando todos, que gritaram agudamente após a pancada. Percebeu então que se tratava de polícia e nos foi logo tratando com poucas palavras, o que nos fez desconfiar da forma como se portou a nós.
Depois das poucas e grossas palavras que a velha senhora nos dirigiu, mandei uma intimação para a mesma depor e ela reagiu de forma muito suspeita.

Ubaldo Ribeiro,
Inspetor-chefe de Polícia do Estado.


***


3) Gravação telefônica-celular fornecida pela Polícia Civil

- Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, boa noite, em que posso ajudar?
- Hum... é... por favor moça... me ajude, por favor...estou morrendo... me envenenaram! Chame logo uma ambulância...
- Mas não sabemos onde mora, moça, o que fizeram com você? Não está em condições de falar?
- Hur...aah, foi a velha maldita, moça, ela me envenenou...aah.
- O que? Moça, responda! Diga-me onde mora! Moça? Alô? Alô? Alô?
- [...]


***


4) Manchete puplicada na primeira página do Jornal Policial

IDOSA DE 86 ANOS É PRESA, APÓS JULGAMENTO, POR ENVENENAR E MATAR A PRÓPRIA FILHA, ADVOGADA, DE 36 ANOS.




segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Pelas ruas vadias, jogando-se em destinos incertos

Fabio Szafranski sempre foi o algo incomum dentre os 'fogosos amigos' que rodeavam sua convivência não muito agradável. Ele nunca tivera o desprazer de tê-los como tal. Sua sina jocosa e enfadonha era pisar em cima de um shape de skate e se deixar levar pelas ruas mal estruturadas e entupidas de carros de uma fortaleza bela, sem rumo, com um destino incerto, como se entregasse nas águas dum oceano e sofresse o balanço das ondas, que lhe levavam para nenhum lugar conhecido.
Não foram poucas as vezes que o taxaram de louco, incomum e isolado. Talvez isso para ele fosse até um elogio, antes visto a profunda morbidez de seu aspecto nenhum pouco normal. Mas ele não era louco. Fazia-se, às vezes. Mas sempre tivera como adjetivo essas palavras que muitas vezes lhe serviriam para entrar num grupo estúpido de jovens banais. Jovens banais. Era assim que se apresentava a maioria de jovens que compunha essa sociedade a qual Fabio estava inserido. Não era para menos que ele, no começo, tentou juntar-se àquela maioria idiota, que apenas possuía alguns ideais ilusórios e sentimentos irrelevantes.
No início dos tempos que o grupo banal começou a existir, ele era pouco conhecido, mas para esses poucos que o conheciam, era vítima de sátiras e apelidos que rasgavam com pudor sua estima. Sempre fora resignado por conta disso e já se cansava, desde criança, com as baboseiras bem elaboradas que lhe eram ditas.
Fabio então começa a andar de skate e muda um pouco sua atitude até então resignada, mas não menos desprezível. Já vão cinco anos desde começou a se jogar pelas ruas em cima de seu pedaço de madeira com quatro rodas desgastadas pelas pedras do asfalto e, desde então, não faz outra coisa mais rotineira. Todos do bando banal andavam junto com ele, fazendo street e se aventurando em lugares que nunca chegariam, em lugares longínquos, que apenas eram contemplados pelos olhares vazios daqueles meninos, num horizonte nunca alcançado. Mas Fabio nunca fora o mais jogado no seu esporte, muitas vezes tinha medo, mas quase nunca desistia fácil. Prova disso foi que, com o passar do tempo, os outros do bando foram parando de andar e aventurar-se e Fabio foi ficando e continuando a se deixar levar pelas ruas vadias da cidade.
A sina adquirida por ele, de andar sobre o skate pelas ruas vadias, foi ficando cada vez mais restrita a ele. Não se ouviam mais os gritos de empolgação por parte dos banais do bando, apenas se ouvia o penoso pesar das rodas do skate batendo no asfalto negro e quente que tomava de conta da cidade disforme. Mesmo assim, a solidão de sua rotina não fazia com que parasse e ele, inexplicavelmente, continuava jocosamente aquele penoso fardo, como que ansiando algo a ser alcançado, o que porém ele nunca conseguiria. Fabio não estudou muito e foi obrigado a fazer uma espécie de supletivo para compensar o que não aprendeu no colégio. Ao que indica, teve um período de trabalho numa lan house, onde nada fazia além de ver sites que a sociedade moderna chama de promíscuos. Era, às vezes, até paradoxal o que pensava ele da sua rotina sacal: ninguém sabia ao certo o que ele buscava, ou se ao menos buscava algo realmente, ou se estava apenas deixando seu corpo ser levado para bem longe, ou se estava querendo que o tempo passasse e nunca mais voltasse, nem por lembranças, podia ser também que teria o vislumbramento de ser um grande skatista, ou seria apenas uma forma de demonstrar para aquela sociedade bajuladora que estava puto com vida e se encontrava rebelde...Ninguém sabia de nada. Talvez nem ele sabia.
O que se sabe é que ainda hoje ele cumpre talvez sua forma de distanciar-se do mundo sombrio que nos rodeia. Inclusive do bando banal, que tanto lhe expugnou todas as formas de se expressar indistintamente. O fato é que ao mesmo tempo que tudo isso ocorria em sua vida -talvez até mesmo ele se sentia feliz por estar isolado- algo descomunal aconteceu, sem muitas evidências, presenciado pelo bando banal das ruas ganhadas por Fabio.
Numa de suas saídas noturnas pelas nada seguras ruas do centro da cidade, ele foi vítima de uma briga por um grupo mais banal ainda que o seu. Pontapés e socos voavam pelo ar e iam instalar-se nos rostos dos membros do grupo banal. Garrafas de vidro apontavam sobre o céu e se definhavam sobre o chão, emitindo os estalidos de caco de vidro pelo solo. Uma daquelas laboriosas o atingiu em cheio a face e o olho.
Ficou deprimente o seu estado na hora do infortúnio ocorrido e por mais de quatro meses transcorridos. Internaram-lhe por dois dias. Definhou numa crise mais profunda que os cortes em seu rosto, ficou com a ameaça de perder um olho para sempre, viveu na certeza da mediocridade de sua vida então patética. Depois de certo tempo em repouso, os seus 'fogosos amigos' lhe ofereceram visitas não muito confiáveis e laços de afetividade não menos desconfiáveis. Esteve, durante este repouso de vários meses, recuperando-se psicologicamente da porrada. Porrada essa que lhe mudou um pouco a forma de pensar, talvez, mas fez-lhe com que parasse para refletir, mesmo sem querer, sobre sua vida. Não se sabe se realmente ele pensou sobre o próprio, nem se ele pensava em se matar, tudo indica que sim. O fato é que isso tudo acarretou transformações não consideráveis, mas talvez desonestas em sua sina então perdida por um longo tempo.
Um pouco antes de receber a autorização de voltar à sua rotina tão esperada, ele já a fazia clandestinamente. Voltava a andar com mais vontade e determinação, sendo um dos poucos a fazer bem o que gostava, que era andar de skate. Talvez fazia isso não por simplesmente gostar, mas por avançar num mundo só dele, pelas ruas vadias, jogando-se em destinos cada vez mais incertos e consoladores.
Passou-se até relativo tempo depois da porrada significativa e ele escutava, agora, músicas de bom agrado e que lhe acalmavam o pensamento, ainda atribulado. Não se sabe ao certo que namorada possuía naquele momento, ou se tinha uma digna namorada. Sabia ele que as mulheres - pelo menos as que passavam perto dele, roçando seus traseiros mais rodados do que bolsa de travesti - não eram, nenhuma, dignas de bom agrado seu. Todas elas mereciam mesmo é serem jogadas dentro do lago, depois de uma boa noite de transa. Tudo indica que era assim que ele pensava das mulheres as quais via rebolando suas bundas para a sua cara rechonchuda.
Deixava seu cabelo crescer pela encosta dos ombros esguios e não preocupava-se em arrumá-los quando saía. Mostrava-se, pelo menos para os membros do grupo banal, que porventura ainda existe, que a sua fisionomia antes bajulada havia mudado, talvez não para melhor, mas algo havia amadurecido em sua mente, é o que tudo indica, mais uma vez.
E mais uma vez seu destino incerto, até para Deus, era vislumbrado por ele mesmo em sua sina que ainda persistia em sua rotina enfadonha. A incerteza era o que lhe fazia sair de casa e isolar-se em seu pedaço de madeira andante, que era o único meio o qual levava-lhe para bem longe da bajulação do bando banal, da vida banal, da banalidade de convivência com familiares e talvez até da vida aqui na Terra. O seu pedaço de madeira andante sobrepunha todos os seus ideais não traçados, suas metas não planejadas e sua coragem nunca antes nem depois despertada.
O seu destino incerto era certo para ele, que sabia de algo com certeza: sua vida resumia-se à incerteza do destino, em ser levado para bem longe, para algum lugar que nunca alcançará, mas que pelo menos o levará à uma viagem sem volta, como uma terapia que lhe livra de entraves e o faz adentrar num mundo um pouco melhor de se habitar sozinho.
Por esses tempos, soube-se que Fabio agora dera para tocar gaitas desafinadas e cantar inglês de improviso nos bancos de praça. Disseram que lembrava agora um rebelde sem causa, sem um motivo específico para tal desolação.
Mas disseram ainda que era capaz de vê-lo vagando pelas ruas vadias, deslizando em ladeiras das ruas não tão disformes, que mostravam para ele a inconstância de seu futuro nunca desvendado por nenhuma cartomante, por nenhum Deus, que até agora, perguntava-se sobre o destino desse humano solene que definhava sobre um pedaço de madeira vagabunda. Ouviu-se falar que mudou um pouco sua rotina sem sentido, tendo como passatempo, em todos os finais de semana, fumar duas carteiras de seu Los Angeles que danificava seus pulmões sequiosos de novos ares e mais destinos incertos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Não vivo neste mundo contemporâneo


Não vivo neste mundo contemporâneo.
Não sofro igualmente para quem mente
Existo, pois sou funcional momentâneo
Mas afasto-me dos comuns proeminentes.

Decadentes, medíocres, só bajulam a arte
Com valores imbecis de humanos, somente...
E se fazem igualar aos imaturos, à parte,
E se auto-destroem contente, não consciente.

Cadeia ou casulo? Não sei o que me prende...
Sei que me afirmo com profunda certeza
E me convenço de que sou o inconsciente.

Para quê me impõem as leis inexistentes
Se tive o desprazer de nascer nesta natureza
E se não pertenço a essa sociedade subseqüente?


segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Afrodite nunca existiu


Percebo que o céu já não está mais totalmente negro. Parece que lhe surgiu um azul bem escuro, quase um anil, o qual me acalma de todas as minhas divagações sombrias que me visitam o pensamento. Abro a janela do quarto e ainda consigo ver a Dalva solitária estrela, que brilha, ainda com um brilho tímido, parecendo-me observar por um instante, curiosa, com ar de espiã pra cima da minha janela. Vejo um vulto preto sobrevoando a varanda da casa, algo pequeno, emitindo uns sons agudos. Você já deve ter sacado o que é. Morcegos. Tenho a impressão de que eles querem dizer algo a mim, talvez queiram fazer amizade comigo. Pouco tempo depois que isso se passa, uma coruja branca emite seu 'chiado' pedante no jardim.
Neste exato momento, olho novamente pro céu. A estrela não brilha mais, acho mesmo que até já desapareceu por completo. Deve ser esta a minha hora de escrever.
O céu está cada vez mais claro e o azul já perdeu todo o seu tom de cordialidade, mostrando-me algo sem vida e sem expressão. O branco das nuvens recobertas se escancara para a janela aberta.
Surpreendo-me ao perceber 'os primeiros cantos', não do Gonçalves Dias e nem dos sabiás, mas dos pardais suburbanos que cantam a mediocridade passageira da vida.
Recuso-me a descrever o som da batida da porta do vizinho, que acaba de chegar sei lá de que prostíbulo, arruinando o som agudo dos passarinhos, banalizados pelo ordinário aspecto de não possuir beleza infinita.
Parece que a noite já se foi e não me sinto mais à vontade agora, vejo que a sacada do meu quarto está repleta de olhos gordos me secando e querendo roubar o que de mim é valioso. Mas que olhos gordos são esses? - Sei lá, talvez seja o próprio dia que se aproxima com os raios mal-educados, que não fazem distinção e não medem a intensidade com que ferem os olhos mesquinhos daqueles solitários amantes da escuridão.
Minha noite passou depressa e não tive, ao menos, tempo de me despedir de forma solene, pois o dia vem me despindo e deixando à mostra minhas vergonhas.
Não quero mais ser a cobaia dum sistema repugnante, quero deixar algo de útil, algo que algum dia estará sobre as calçadas do centro da cidade, sendo pisado e às vezes chutado, algo que preencherá o vazio dum menino, ou a puberdade duma menina, algo que despertará a sede de conhecimento adormecida num adulto, que tem sua atenção vinculada para a capa vermelha dum livro convidativo, que ocupa mais um espaço na calçada, talvez. Este livro, porém, valerá cinco reais, como muitos, e será de minha autoria.
Quero produzir algo supremo em concisão, algo conciso em supremacia, algo maravilhoso em produção e algo produtivo em maravilha. Dizem coisas absurdas sobre escritores renomados.(?) Quero então saudar os roubadores de livros, os roubadores de conhecimento e aqueles que, para adquirir boa viagem, fazem traseira no ônibus da arte, mas sem ofender o entendimento, digo, os que fazem traseira no sentido de burlar os valores comuns, para viajarem de graça num mundo de descobertas gentis.
Faz duas horas que acordei, às 3:35, e estou no ápice da atividade pensativa. Sinto-me cansado, por um momento, sinto que tudo o que fiz não valeu à pena. Abro as páginas de Markus Zusak e percebo a magia de ser algo produtivo para a humanidade, ou para mim mesmo e para as não muitas pessoas que amo.
Algo estranho ao meu corpo me vem à mente. Nunca conheci esse algo misterioso, que me visita todas as noites, mas que, sem ao menos ver a sua cara, satisfaço-me em sentir apenas a presença do seu cheiro. Recordo-me agora de algo que escrevi:

Algo Estranho Envolveu-me

Algo estranho envolveu-me

Como um manto a acariciar-me

A pele confusa eriçou-se em riste

E o medo vazou em meu pensamento triste.

Algo estranho envolveu-me

Como um abraço solene em meio à dor...

Abraço que afaga e afoga-me o medo

Que, aprisionado, não mais me vazou.

Algo estranho envolveu-me

Como um beijo nobre e acolhedor

Que me faz soluçar e tremer

Tamanha a frieza dos lábios intumescidos.

Algo estranho envolveu-me

Como uma prisão a me sufocar,

Como um abrigo aos refugiados,

Como um peixe às águas do mar...

Algo estranho envolveu-me

E não mais pude me conter

Acabei me desvencilhando do manto,

Do abraço, da prisão e do beijo...

E o algo estranho que me envolveu

Saltou fora do meu corpo desprotegido.

O frio, a dor, houveram-me afligido

Ante a desolação de um ser corrompido.


Tudo que me vem agora é, talvez, banal e sem sentido. Sinto vontade até de rir. Mas também me sinto triste, pois não fui presenteado com o nascer do sol, que o faz jocosamente atrás de minha casa.
Abro a última folha do meu livro prático de francês e me deparo com um título interessante e ao mesmo tempo estranho: A dane de Eufodithe. Essas palavras soam rasantes pelo meu quarto, muito embora este não tenha escutado a mínima entonação de minha voz. Nunca soube quem escrevera isto e quem se atrelou a esse mistério abrasivo.
Não sou nenhum tipo de lingüista, mas arrisco-me em tentar estudar o significado seco destas palavras insones. Dane deve ter alguma correlação com um nome feminino, talvez de uma musa que habitava uma região longínqua. Eufodithe me soa como Afrodite, a deusa grega da beleza. É interessante notar a ligação entre essas duas palavras desconhecidas: Dane lembra o nome de uma musa antiga e Eufodithe, que me traz à Afrodite, tem um prefixo Eu, que significa verdadeiro. Talvez Dane seja realmente a verdadeira musa e deusa da mitologia grega, humanizada em Eufodithe, e Afrodite, sendo um mito mal-contado, nunca existiu.
Ou talvez esse título pedante não tenha sentido nenhum, sendo apenas algo escrito por um doido varrido da sociedade, em mais uma de suas noites mal-dormidas. Resta-me saber: quem é este louco?
Aproveito o livro prático de francês e tento fazer algumas aulas, mas o máximo que consigo é me deparar com a beleza destas palavras, destas letras, e do desenho das frases, como este:
La meilleure façon de visiter Paris c'est à pied, mais si vous voulez aller d'un endroit à un autre rapidement, faites comme les Parisiens: prenez le métro.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Queda Livre


Imagine-se no alto de um prédio.
Um prédio bem alto, por sinal. Vinte e três andares e mais a displicência desoladora de uma cobertura, que emerge desde o térreo, lá embaixo, até onde a ponta de um tijolo fura o céu, rasgando-lhe o azul.
Você está lá, agora, beirando um dos parapeitos que, paradoxalmente, está à altura de sua cintura. Nada o faz pensar como conseguiu elevar-se até lá. Você não se lembra como subiu aquelas exaustivas escadas, nem como conseguiu burlar os seguranças do prédio para invadi-lo. É, certamente o prédio ainda está em construção, e pelas normas da construção civil, é expressamente proibida a invasão de imóveis em obras inacabadas.
É capaz de se ver o vão quase sem fim que cede espaço ao elevador, o qual nem sequer implantou-se ainda na obra. Vê-se uma infinidade de materiais de construção, ao lado de abismos que te sugam para o medo inevitável.
Fazem-se ouvir os uivos dos ventos que timidamente visitam o local do 23° terceiro andar, você sente os calafrios, oriundos dos ventos, adentrarem no âmbito da sua alma, impelindo-te a dar mais um passo na direção do abismo.
Você olha. Vê o chão longínquo puxar sua vista cansada, o que faz você se curvar no parapeito. Por um momento você se imagina escorregando e virando de cabeça para baixo, ficando livre de qualquer superfície sólida. Mas felizmente você não é capaz de pensar no que virá a acontecer depois do deslize fatal. As náuseas agora te tomam por inteiro e você sente o bolo que comeu na casa sua avó revirar-se no seu estômago.
Você não é capaz de se imaginar amolecido, curvando os joelhos diante do precipício e deixando o seu corpo cair levemente ao encontro da morte.
Você não é capaz de sentir o vento mexendo suas roupas frouxas e nem de pensar como seria a sensação de está em queda livre.
Queda livre.
Nada te prende agora, queda livre, livre de entraves e prelúdios, livre de pensamentos e de ações. Livre.
Livre-se da dor que te solta ao abismo desenfreado, livre-se do medo que te consome ao perceber o chão cada vez mais perto e palpável.
Mas você não é capaz de se ver inerte ao estado supremo, aquele estado que só as aves têm o luxo de desfrutar. Mas você não voa. Nem plana.
Você cai abruptamente. E não é nem capaz de imaginar isso. Você nem ao menos quer imaginar, tem medo, receio.
Não é capaz de imaginar a sensação da queda sufocando sua traquéia, aquele friozinho na barriga que mais parece um inverno rigoroso te congelando o corpo. Você nem ao menos pensa que ficou congelado pelo frio na barriga, você nem ao menos é capaz de gritar de entusiasmo ao sentir o prazer que as aves sentem todos os dias.
Você não sabe onde está agora. Nem eu mesmo sei. Talvez você não se lembre quando brigou com seu pai e esmurrou a parede de seu quarto. É bem capaz que você não recorde da sua fuga de casa, com a mesma mochila que se encontra agora em suas costas. Mas você não sabe onde, ao menos, está agora.
Talvez você não se lembre que passou por debaixo das grades que circundam o prédio medonho para finalmente subir. Você não é capaz de voltar alguns instantes no tempo e perceber que você subia as escadas avidamente, à procura de sei lá o quê. Não é capaz de trazer à memória a escuridão e o mistério angustiante a cada andar que subia, e os números consecutivos que não tardariam a chegar ao 23°.
Mas, você não se lembra que chegou bem perto do abismo e que encostou as pontas dos dedos na quina. Você tivera aberto os braços e sentira a maior liberdade que lhe veio na vida.
Curvou-se. Amoleceu-se. Fechou os olhos.
Caiu.
Mas você não se lembra de nada disso. E é por isso que agora você é capaz de saber onde está.
Você retorna para si. Assusta-se com o infortúnio e, finalmente, vê que a vastidão do chão compacto te suga mais rapidamente. Que liberdade você sente agora, não?
Um ímpeto de felicidade te toma de conta e você não é capaz de evitar o impossível. Talvez seu corpo esteja a cento e vinte por hora e você consegue então extravasar.
Um grito ensurdecedor sai da tua garganta, bate no chão e retorna para ti.
Pouco tempo depois: eu te perdi de vista.
E você não sabe onde está.
Seus motivos perderam o sentido, suas sensações, seu medo, sua loucura, sua predisposição ao suicídio, tudo, perdeu o sentido.
O vento resseca teus olhos e você não vê mais nada, além de preto; finalmente.
Não sentiu dor, apenas prazer e medo, angústia e consolo.
Nesta hora você estava se despedindo da vida, alegremente, sentindo o que não havia nenhum sentido.
Você foi embora.
E não caiu mais.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Marcha Fúnebre


Uma marcha fúnebre tocou sobre o ambiente pesado que se fazia presente no casarão. A frieza tomou o lugar do desespero, antes velado sob a angústia das dores de outrora, que ainda permaneciam, mas agora de forma mais tênue. As pessoas quase mortas, que passavam pelo lugar, deixavam ali suas mágoas e seus pesares, contribuindo para que o ar do ambiente se tornasse mais sólido e compacto.
Os corvos, amantes da dor e do luto, pousavam numa lápide já desgastada, e bicavam sobre um nome importante que não levaria anos para que desaparecesse por completo. Deixavam lá seus dejetos e iam à procura de outra sepultura para nutrirem-se do sofrimento alheio.
Mas ali, ainda no casarão, os vestidos pretos cobriam as primas inocentes e os véus escondiam as amargas lágrimas das tias, que iam e vinham na ânsia de poderem permanecer de pé. Não aguentavam tamanho peso nas costas e ajoelhavam-se sobre aquele pequeno indivíduo, que nem sequer pôde desfrutar da virtude se despedir, de dizer suas últimas palavras insólitas, até porque não tivera tempo para aprender tal intento. Não parecia que algo tão frágil, tão diminuto, pudesse despertar o sofrimento derradeiro de uma multidão que apelava contra a ira do divino.
Eis então que o caixãozinho ergue-se imponente sobre a varanda, debaixo de um tripé de ferro antigo e enferrujado que não precisava de esforço algum para sustentar o peso ínfimo daquele pobre habitante de viagem marcada. As pessoas o olhavam de cima a baixo, sentindo-se inferiores e arrebatadas pelo sentimento de culpa, talvez. Todos queriam compartilhar daquele infortúnio, deixando seus pêsames junto com as rosas que entupiam o pequeno esquife.
A mãe, então conformada, apenas ouvia atenta o réquiem, lembrando-se dos poucos bons momentos que tivera ao lado do filho. Resolve enfim destrancar a porta de seu quarto abafado e ir ao encontro do pequeno pálido menino. Ao passar pelo corredor ela encontra vários braços de pessoas tentando abraçá-la para o consolo, mas ela se livra de todos eles, não queria que nada atrapalhasse o seu desterro contemplado. Finalmente, depois de várias rejeições de afago, ela consegue chegar sem hesitação à frente do ataúde que abrigava o menino, junto de mais centenas de cartas e bilhetes que completavam o espaço deixado entre as flores que cobriam o caixão. Com toda a sua força e com o coração transbordando, sem no entanto demonstrar desespero algum, ela ergue o véu do rosto e deixa a amostra seus olhos vermelhos e inchados. Seu nariz delgado ainda deixava escorregar uma solitária lágrima, talvez a última, que pingara sobre a tez branca do filho morto. Ela beija a testa molhada do defunto e sente como se seus lábios fossem congelar. Pega nas mãozinhas frias do menino e as aperta delicadamente, como num gesto de comprimento cortês, para se despedir de forma solene do filho prodígio.
O pai, que dera ao filho o mesmo nome que lhe era designado, parece que não tivera tempo para ver a tampa do féretro se fechar sobre a alma frágil de seu filho. O vazio da sua mente consolava qualquer tipo de angústia que lhe atracasse o pensamento, sem que se deixasse entregar pelos sentimentos sufocantes. O alarde da tarde o fez enfeitiçar diante do burburinho da noite que se aproximava, mas ainda foi capaz de ver os velhos assistentes batendo o martelo nos pregos que lacravam o caixão. Não pôde ver o rosto sombrio do menino, nem chorar a seus pés. Um dos irmãos viajantes carregava a urna funerária em direção ao carro do cemitério, ao mesmo tempo que uma leva de curiosos o acompanhava. Mesmo depois de ter ganhado o carro, o bebê morto ainda era escoltado por multidões, que corriam desesperadas tentando acompanhar o carro funerário.
Ao chegar ao campo-santo, já se podia ver os coveiros suados cavando os últimos dos sete palmos sob a terra. Um deles escorou-se à sua pá e tirou o suor da testa, observando os olhares atentos das pessoas que fitavam o pequeno infortunado. Era comovente para um simples coveiro ter que abrir uma vala para enterrar um corpo ainda de meses, sabendo que aquela terra, sob os seus pés, iria praticar a necrofagia naquele indefeso defunto.
O padre rezou a última missa e a marcha fúnebre tocou novamente, para o desterro de lágrimas das pessoas presentes no enterro, que sentiam o coração inchar como um balão, de forma a sufocar-lhes a garganta e lhes fazer soluçar. O desmaio da avó foi inevitável, tendo o tio que se esforçar para segurar-lhe antes que batesse a cabeça na lápide do neto. A maioria, horrorizada, apenas via o caixão apear sustentado pelas cordas desgastadas.
As pás moviam-se novamente, agora para jogar a terra sobre a madeira maciça da tampa que cobria o ataúde. A mãe imaginava-se dentro do caixão, agarrada ao filho, escutando o barulho que a terra fazia ao cair sobre a tampa e observando que as luzes se apagavam à medida que a areia os cobria. Enfim, completou-se toda uma tradição funerária e todos seguiram seus rumos inesperados, enquanto que a mãe permanecia solitária ao pé da sepultura acariciando a grama, como se fosse os cabelos de seu filho.

domingo, 4 de novembro de 2007

Processo Criminal


Mark era daqueles que passavam horas a fio bebendo, sempre na presença de seu bom uísque escocês e de seu charuto cubano. Não bebia acompanhado de amigos, até porque ele nunca designou o conceito de amigo para nenhum indigente que passou por sua vida. Bebia e fumava só, no vigésimo terceiro andar, que dava para a cobertura do prédio das Astúrias, ao ar livre, onde morava com seu cachorro. Seu nome era Brown, ele não sabia ao certo de que raça era o Brown, mas parece-lhe que lembrava um pastor ou um weimaranner. Mark era um cara durão, mas de boa pinta, era um promotor de justiça, corrupto, batia em mulheres e tinhas vários filhos perdidos no mundo. Acabara de divorciar-se da sua terceira mulher, ou melhor, ela que quis a separação, foi assim com a primeira e com a segunda também. Estava puto com todo mundo, menos com seu cachorro. Tinha agora que responder processo criminal por ter sapecado uma garrafa do seu preferido uísque na cara esdrúxula de sua mulher. Foi obrigado a fazer isso, depois que ela enfiou a dianteira de seu Porsche Carreira GT debaixo da traseira de um caminhão. Mark lamentou muito pelo seu automóvel e mais ainda pela sua garrafa de uísque escocês esfacelada no chão, toda estilhaçada. Quanto à cara nojenta de sua mulher, ele não lamentou, pelo contrário, depois que ele próprio a levou para o hospital e soube que a cara dela receberia uma bela costura de dezessete pontos e que seu olho esquerdo estava perdido, ele deu uma risada seca e sarcástica, pensando nas plásticas que ela faria para tentar endireitar sua face toda rachada. Certamente seria inútil. Quando Mark viu a sua preciosa garrafa sapecando com força e os estilhaços penetrando no rosto da mulher, ele teve a certeza de que ficaria seqüelas para sempre na cara da coitada. Ele ficava só imaginando o rosto da ex-mulher, com dezessete pontos atravessando-lhe uma face à outra e com um tampão de pirata escondendo seu olho esquerdo. Era muito engraçado para ele imaginar o desespero dela em esconder seu rosto, ainda com um tampão de pirata no olho! Ela, supostamente, não sairia de casa por um bom tempo e não arranjaria mais homem algum.
Mark sabia que venceria mais uma vez na justiça, ele próprio se defendia e não precisava de nenhum advogado imbecil. E se o improvável acontecesse, ou seja, se ele fosse condenado, não tardaria a sair da sua prisão domiciliar com todas as regalias de que ele dispunha. Não estava nenhum pouco preocupado com o andamento do processo nem do que iria suceder, foi assim também com a primeira e com a segunda mulher, ganhou nos dois casos. Mas nestes casos não ocorreu algo trágico para nenhuma delas, que apenas exigiam pensão alimentícia para os filhos bastardos que lhe enchiam o saco. A não ser uma vez que, ainda namorando com sua primeira mulher, ele pressionou a ponta de seu charuto nos mamilos dela. Mark fez isso porque gostava mais de mamilos negros e os dela eram de uma cor morta, quase parda.
Ele não tinha muito jeito com as mulheres, a não ser para conquistá-las. Era meio bruto quando estava com a posse delas, não sabia fazer carícias ou algo que agradasse. Mas ele sempre foi boa pinta, não demoraria muito pra aparecer com outra mulher dentro de casa, o que deixava Brown enciumado.
Mark encomendava cinco garrafas de uísque por semana, ou então desfrutava-se de seu alambique que tinha dentro de casa. Fumava uns dois charutos por dia, tendo que pedir duas caixas com sete charutos cada, semanalmente, para um contrabandista cubano. Ele recebia o charuto por um preço piegas, mas ainda era de boa qualidade. Sua voz emitia um som extremamente grave, resultado da impregnação do carbono no seu pulmão, oriundo da fumaça que ele respirou durante trinta anos. Já sobreviveu duas vezes ao estado de coma alcoólico, sendo internado numa clínica de recuperação pela sua mulher, aquela mesmo que teve o bico do peito queimado. Por incrível que pareça, todas as mulheres que passaram por sua vida o amaram, talvez ainda ainda o amam, mas não conseguem viver ao lado de um cara totalmente anti-social.
Mark passava a noite bebendo e fumando ao lado de seu fiel cachorro. Voltava sempre puto de seu escritório e abria, ainda no carro, sua primeira garrafa de uísque. Ele bebia no trânsito, o que o fazia chegar cada vez mais rápido em casa para receber os pulos de alegria de Brown. Ao passar pela porta do elevador, que abria-se diretamente para seu apartamento, jogava o paletó amassado em cima do sofá, desvencilhava-se de seus sapatos gastos e abria logo sua camisa social para receber o vento gélido, que subia até a cobertura do prédio e lhe fazia resfriar um pouco a cabeça, consternada pelo seu laborioso trabalho. Sentava-se à sua poltrona ao ar livre, apossava-se de seu isqueiro que conseguira em Paris e acendia seu segundo charuto do dia, tendo fumado o seu primeiro ainda no escritório, o qual se impestava do cheiro fedorento da fumaça. Passava as longas horas da madrugada definhando com sua bebida favorita e só despertava às onze, quando tinha que tratar dos processos criminais. Lamentava não ter um chefe que lhe mandasse fazer a barba ou engomar o paletó, pois queria muito esmurrar algum desses imbecis mandões que lhe despertavam uma ira enorme. Seu olhar torpe para os funcionários da repartição fazia estremecer as pernas daqueles subordinados que babavam-lhe o saco constantemente. Tinha repugnância aos 'companheiros' de escritório que se achavam fodões.
Vez por outra, recebia reclamações do servente, que o dizia ser muito rabugento sujando o chão com cinzas de charuto e algumas gotas pegajosas de uísque. Quem entrasse na repartição de Mark certamente se depararia com um caos exorbitante. As pilhas de papéis se aglomeravam sob a mesa de tal maneira que formava um imenso bloco, o qual Mark facilmente se escondia atrás. As folhas de processos criminais também de apoderavam do chão e os livros grossos decaiam da estante em plena desordem. O trabalho mais pesado sempre ficava mesmo com o resignado servente.
- Toc toc toc!
O som da porta da repartição soava como um tambor oco que emitia barulhos secos. Depois de divagar por uns dez segundos, Mark dá uma tragada no seu charuto, sem responder ao chamado da porta. Começam a bater nela novamente, e antes que se completem as três batidas tradicionais da porta, ele grita friamente: 'Se é dinheiro, estou duro!'
- Por favor, chefe, tem um garoto querendo falar com o senhor - responde do outro lado o servente.
- Pelo que me consta, não tem ninguém marcado pra abrir um processo hoje.
- Ele diz que é importante - insiste o servente.
- Mande-o aguardar um momento.
Mark pega sua garrafa de uísque escondida dentro da gaveta da mesa e dá uns cinco goles seguidos, enquanto o garoto espera impaciente do outro lado. Dá aquela baforada refrescante do álcool e o manda entrar. Ao abrir a porta, cautelosamente, o garoto se assusta com o caos que está a sala e com o cheiro desagradável habitando o ambiente. O que ele vê é uma mesa com uma imensa pilha de papéis ocultando quem está atrás. Percebe a fumaça que se esvai atrás da pilha indo refogar o lugar desordenado, tropeça em alguns papéis amassados e se senta na cadeira desconfortável que lhe aguarda.
- E então...vai ficar aí mesmo parado sem falar nada?
O garoto se sente tomado pela voz grave que sai da boca de Mark e logo fica curioso para ver a cara do homem que é dono daquela voz triunfante.
- É...porque eu queria saber do andamento do processo da minha mãe, ela foi agredida por um imbecil que arremessou uma garrafa no rosto dela, ela ficou muito mal, com seqüelas na face e corre o risco de perder seu olho esquerdo. Eu mandei a queixa para um delegado incompetente, mas ele mandou eu vir aqui no seu escritório para fazer o andamento do processo.
Mark por um momento achou que fosse coincidência, afinal, com certeza ele não seria o único alcoólatra da cidade que batia em mulheres.
- Hum, deixe-me ver, realmente o caso é deprimente, ela não teria feito algo para deixá-lo irado a ponto de agredi-la com uma garrafa?
- Não, promotor, sinceramente minha mãe é uma santa, não faria algo para merecer o que o imbecil fez com ela.
- Lamento, mas o senhor não tem como provar isso, afinal você não foi testemunha.
- Mas, promotor!-disse o garoto já todo nervosinho- não tenho que provar nada, basta olhar o rosto dela para perceber tamanha brutalidade!
- Lamento novamente, meu rapaz, sem testemunha ou provas concretas não posso fazer nada! Por favor, mexa logo esse seu traseiro e vá procurar outro cara para avaliar o caso da sua mãe.
O sangue do rapaz sobe-lhe à cabeça e é possível ver os vasos do olho se dilatando. Num gesto de impulso, ele dá um soco na pilha de papéis e a desfaz por completo, na esperança de ver a cara do homem que ele julgava imbecil. Mas mesmo assim, ele não vê Mark, que está com a cadeira voltada de costas, de modo que cobre-lhe todo o corpo.
- Vocês são uns vagabundos, todos, todos iguais! Essa justiça de merda só defende os ricos, enquanto a impunidade impera neste mundo!
Mark, ainda de costas, aplaude ironicamente as palavras do garoto e vira-se com a cadeira, agora encarando de frente o rapazinho puto.
- A lei é assim, meu camarada, faço o serviço sujo a quem me paga bem!
O garoto se depara com a cara fria de Mark e pára, por um momento. Observa bem o rosto dele, que parece-lhe não ser estranho. Ofegante, o garoto enfim reconhece a cara desbravada daquele que tanto ele xingava, daquele homem que ele desejava a morte, que velava os dias para esbofetear-lhe a face até matá-lo espancado. O rapaz cai na real e tenta fazer o que pensava que tinha que fazer. Ergue-se da cadeira, que vai ao chão, e pula em cima da mesa da mesa de Mark, como uma cobra que dá um bote em sua presa.
- Foi você, seu desgraçado, foi você quem atirou a garrafa na minha mãe!-diz o garoto ao esmurrar a face de Mark uma vez - filha da puta! você vai morrer agora!
E dá-lhe um murro outra vez. E outra, e outra, várias vezes. Mark apenas fica parado enquanto a fraca mão do garoto tenta quebrar-lhe a cara. O próprio Mark sabia que merecia uns socos na cara e deixou o rapaz lhe bater até se satisfazer. Percebendo um pouco da dor que estava sentindo ele segura a mão do garoto e o empurra para fora da mesa, fazendo-o ir ao chão. Era evidente a diferença do tamanho do corpo dos dois e o franzino garoto de dezoito anos não poderia fazer mais nada para tentar matar aquele que agredira sua mãe. Mark ajeita a gola de seu paletó, passa a mão na boca suja de sangue e cospe na cara do garoto. Ele o algema, prende-o junto à sua mesa, de modo que fique sentado. Pega seu charuto e fuma perto dele, soltando-lhe a fumaça diretamente no nariz. Espera o garoto acabar de tossir e o avisa:
- Infelizmente a vadia da sua mãe não vai conseguir me processar. Mas, por favor, mande esse dinheiro para ela poder ajeitar a cara nojenta e sumir da minha vida. Ah, aproveite e pegue uma parte para pagar uma musculação, pois precisa ficar mais forte se quiser me matar outro dia. Agora vaza daqui como se nada tivesse acontecido e faça o que eu disse com o dinheiro.
Ele solta o rapaz, que chora humilhado, tira algo em torno de dez mil dólares da gaveta e entrega ao garoto. Abre a porta do escritório, expulsa-o, e vira de uma vez o resto de uísque que continha na garrafa, deixando algumas gotas escorrerem no seu paletó amassado, que pinga o uísque em cima da folha que se traduzia o processo criminal da sua ex-mulher.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Presente pra quem me deu esperança.


Surjo do nada para me expor
aos prazeres da vida que me corrompe...
Deixo-me levar pelo puro ar que vagueia,
gira e faz redemoinhos no meu pensamento.

Meu pensamento me deixa bêbado,
inebriado pelas voltas e voltas dadas...
Vejo o surreal surgindo do nada
para me expor aos prazeres da vida.

Descubro que o nada e o surreal
surgem assim como minha vida,
sem explicação ou algo que envolva
uma concisão que me leve à ferida.

Ferida inflamada faz-me contorcer
na minha derradeira dor que me arrebata...
Mata meu interior e faz-me arrefecer
Diante da inconstância do meu universo tênue.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Pesadelo do Homem


Encosta-me na parede e me bate!
faz-me esquecer de quem nunca serei...
espreme os meus cravos e me traz erva-mate,
tira esses óculos e me mostra o que não sei.

Abre o meu crânio e estuda o tecido,
torna-me ébrio de nojo ao ver
meu cérebro, na tua mão, arrefecido
e entope os meus vasos ao desfalecer.

Fura meu peito esquerdo com canivete!
introduz tua mão e aperta meu coração...
aperta com força pra não escapar, aperte!
e o parta ao meio pra não amarmos em vão.

Depois disso eu te agradeço...
porque não mais vou pensar com órgãos
e não mais vou te desejar, eu mereço
é vegetar pra sempre em tuas mãos.

Prodígios terei fugindo da vida,
mas não vou morrer, não quero morrer...
quero só viver sem cérebro e coração, a ferida
da vida cicatrizará quando tu padecer...

Não...não!
- 'Acorda, rapaz, vai estudar, vagabundo!'
Vou, em vão!
Foi só um sonho, devaneio do mundo.

sábado, 27 de outubro de 2007

Noite Alucinógena


Encontrava-me num lugar escuro, com apenas uma fraca iluminação artificial azul, que cobria-me o corpo reluzente e, de certa maneira, extasiava-me como uma droga. Uma fumaça também azul me estonteava e algum som estranho zumbia no meu ouvido como um zangão que quisesse aporrinhar a minha paciência. Não estava bêbado, encontrava-me sob o efeito entorpecente da luz e da fumaça, juntamente com o efeito que o zumbido angustiante fazia invadindo meus tímpanos. As sensações do meu corpo estavam aguçadas, sentia cheiros nauseabundos, como se estivesse cheirando formol, percebendo o ar estranho percorrendo minhas narinas até chegar aos meus pulmões, retornando de maneira repulsiva.
Estava com forte respiração, sentia o sangue quente percorrendo e rasgando as válvulas das minhas veias, e o coração descompassado batia-me feito uma bomba, como que quisesse explodir dentro do meu corpo e espalhar meu sangue ao longo do ambiente. Avistei uma cama em meio a outro espectro de luz, agora mais roxo e sombrio. Imediatamente joguei-me impulsivamente sobre o aconchegante colchão d'água que balançava-me divertidamente. Comecei a me imaginar dentro dum navio, em alto mar, e o navio remexia-se muito, sentia-me solitário em meio àquele oceano de águas revoltas.
Olhei ao redor, querendo fugir da minha alucinação, mas onde minha vista alcançava só existia mar. Comecei a escutar umas vozes femininas, dando uns risos tímidos e uns gemidos propositais. Procurava de onde vinham as vozes, na esperança de encontrar uma musa, que me afogasse junto com ela naquele mar de tribulações. As vozes se aproximavam, até que consegui distinguir que eram de duas mulheres. Tentei permanecer calmo, mesmo sabendo que estava sob forte alucinação. Depois de algum tempo parado, senti as águas revoltas se acalmarem. Foi então que percebi alguém apalpar-me delicadamente, parecendo a sensação de uma pluma acariciando-me o ombro. Acalmei-me. Subitamente voltei da alucinação, vi novamente a luz roxa.
As carícias continuaram e minha pele sensível eriçou-se toda. Meus pêlos de todo o corpo se arrepiaram. Dei por mim e retomei a visão turva do ambiente. Olhei para os meus ombros, já sentindo-me excitado. Enxerguei, então, uma delgada mão suave a apalpar-me sensivelmente. Vi que a mão tinhas umas unhas vermelhas e grandes, parecendo garras de felinos.
-Até que fim, gostosão, pensei que nuca mais fosse acordar...
Aquelas palavras soaram pelo vazio do ar até chegar aos meus ouvidos, onde lá permaneceram e me fizeram feliz. Senti essas garras percorrerem todo o meu ombro, até estender-se para a minha nuca. Não exitava em me mexer, estava totalmente estagnado e enfeitiçado por aquela mão. Não balbuciei palavra alguma. Contorcia-me de prazer e de desejo sexual, e senti-me totalmente excitado, deixando-me ser tomado pela volúpia carnal que me vinha na mente. Permaneci de olhos fechados e escutando as doces vozes açucarar meus ouvidos. Em meio ao maior prazer que eu sentira antes, outra mão agarra-me, agora nas coxas, e ameaçava tocar o meu pênis. A mão subia até recostar-se na virilha. Tudo parecia um jogo de tentações, que me tomavam por completo e me fazia inebriar junto aos meus prazeres.
Não queria abrir meus olhos e enxergar quem me acariciava, não queria me livrar daquele mar de sensações. Neste momento, não importava para mim a beleza formosa de uma musa romântica, o que me importava era o ser voluptuoso pela carne, que rasgava-me a pele e me fazia delirar em meio àquele ambiente mórbido e resoluto. As mãos agora apalpavam as minhas partes íntimas com pudor. Os três orgasmos foram inevitáveis, apesar de eu ter relutado contra este fato.
O prazer sufocava-me por inteiro e vi que chegava a hora de voltar a estar comigo mesmo, a par de minhas emoções. Não aguentava mais, o sufoco provocava-me asfixia e estava começando a sentir os pesados passos da Morte. Estava fatigado, exausto, então, com uma ação impulsiva, segurei com força uma das mãos que me apalpava.
- O que você está fazendo, por acaso não está gostando, hein...hein??-disse uma delas, puta da vida.
Ela parecia desconfiar muito de mim, parecia estar com bastante raiva...
- É que...não posso...estou sufocado, eu vou...-eu disse com dificuldade estas últimas palavras.
- Seu cretino, safado, vou te matar seu veadinho de merda!
A outra mão agarrou-me o pescoço tentando me enforcar. Além da falta de oxigênio que eu sentia, suas unhas afiadas faziam sangrar meu pescoço, agravando minha dor. Depois deste inesperado momento, em que a Morte parecia mais perto, não lembrei de mais nada.
A última sensação que tive foi da angustiante dor que fraquejava meu corpo e me impelia para a Morte. Passei a ver tudo branco, minha visão tremulava e minhas pálpebras pendiam de cima a baixo querendo cerrar. Foi então que apaguei por completo.
Realmente não lembro o que sucedeu depois do meu desmaio, mas consegui milagrosamente livrar-me das garras felinas que me sufocavam, bem como da tentadora Morte. O estranho é que me lembro apenas do ocorrido naquela noite, das sensações, e de tê-la visto de perto. Não precisa nem dizer que me refiro à Morte, a qual esteve me aguardando pelos vários anos que passei para me recuperar das hemorragias e da falta de oxigênio.
Nunca tive notícias daquelas diabólicas ninfetas que me tentaram, que tentaram um homicídio doloso a mim, só espero as encontrar no purgatório, ajoelhadas a meus pés, pedindo-me perdão para não serem condenadas.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Tudo é vivo, nós é que somos mortos.


Não há ninguém aqui. Os fluidos da minha mente começam a se movimentar e dinamizar meus pensamentos. Volto a ser eu mesmo. Tiro a máscara que cobre minha face envergonhada e a deixo de lado, mas guardo-a com cuidado, pois a qualquer momento posso precisar dela novamente. A casa está vazia de gente, vazia de corpos rabugentos, vazia de mentes que falam baboseiras, e sinto-me bem por isso. Estou num processo de transposição, tudo que acontece dentro deste ambiente tem uma explicação plausível, nada ocorre por acaso. Resolvo observar os mínimos detalhes que passam despercebidos quando estou com a máscara, pois ela também tapa um pouco minha visão, a abertura dos olhos da máscara não é suficiente para que eu veja os detalhes.
O que primeiro me toma atenção é o ventilador. Parece que ele quer soprar algo de bom pra mim, ou talvez ele queira jogar nas minhas costas todo o peso que há nele, pra poder se livrar de seu fardo. Ele me manda um ar impregnado de poeira e eu o sinto adentrar no meu nariz. Espirro três vezes. Acho que fez isso de propósito, pra se vingar de algo que eu tenha feito com ele. Mas não me lembro de ter feito nada, nem dava conta da sua existência ali. Dou-lhe uma porrada no botão e ele me responde com frieza, mexendo a cabeça de um lado para o outro, desprezando minha atitude, como se me dissesse: 'não, seu otário, eu não sou fraco o bastante pra sentir dor'. Sinto-me um demente diante daquele ventilador imponente, que me esnoba e zomba de mim como se eu fosse um fracassado isnobe, sem existir por completo. Eu estou agora do tamanho de uma formiga, olho pra cima e o vejo balançar a cabeça insistentemente, como se tivesse com pena de mim.
Acho bom mesmo estar do tamanho duma formiga, pois assim os outros objetos não perceberão minha ínfima presença e não tirarão sarro da minha cara. Resolvo ir à cozinha e me deparo com um imenso paredão. É a geladeira. É assustadoramente grande e me faz medo só de pensar em insultá-la, mas consigo ir até ela. Tento abri-la logo de cara, mas não consigo, parece a que a borracha que a veda está colada ao ferro, ela se recusa a escancarar sua porta pra mim. Fico muito puto por isso, mas não me arrisco a bater em algo do tamanho de uma geladeira, posso levar uma surra e sair dali esculachado.
Percebo, logo em seguida, a prepotência do liquidificador. Olho com receio aquela hélice afiada querendo girar e amputar um dedo meu. Ele começa a girar, girar, mais e mais rápido, e tudo me leva a crer que o mundo gira em torno dele. Tenta sugar-me pra dentro dele, mas ainda encontro forças pra relutar e vencer aquela tentação infernal que anseia me eliminar. Fico hipnotizado quando reparo no movimento circulatório da hélice e permaneço tonto por um bom tempo, o que me faz ir ao chão.
Estou deitado ainda, pregado no chão asqueroso que humanos pisam e deixam seus dejetos, onde cospem chiclets e escarram seus catarros imundos. O chão também é vivo, fico até imaginando o quanto ele deve sofrer pra aguentar o peso esmagador dos gordões que passam por aqui. Ainda consigo ver a luz da cozinha girando com o teto da casa, deve ser o efeito do liquidificador que persiste na minha mente.
O meu lapso de inconsciência mais tarde me revela a explicação para o que ocorre com o "não-vivo". Não-vivo é o que aparenta ser inexistente para nós, que não vivemos para este mundo. O não-vivo dos objetos traz a resposta para mim: simplesmente não vivo. E deixo morto tudo que existe dentro da minha cabeça minúscula.
Acho melhor pôr logo a máscara, vem vindo alguém aí.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Tarde Abominável


Mergulhado numa profunda melancolia
Esta tarde abominável me consome...
E me vem mais angústia e nostalgia,
O invólucro mortal que me envolve some.

Estou exposto à turbulência do mundo
E este clima sombrio decai sobre mim...
Sinto o peso esmagador do choro profundo,
Não sei se reluto ou se espero meu fim.

O céu passou de azul a laranja,
As nuvens brancas agora são cinzentas
E minha mente, que de tristeza esbanja,
Sofre a dor maior de viver isenta.

Entrego-me à morbidez da tarde iminente,
Que logo irá findar junto da tristeza...
O brilho intacto da noite carente
Já vem chegando e trazendo a frieza.



F. Viana.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Não estou sozinho: estou comigo mesmo.


Não percebo a noite passar bem debaixo do meu nariz. Estou monologando comigo há uns quinze minutos, desde que cheguei exausto em casa, depois de um dia inteiro na porra do colégio e de lá ainda indo pro grupo de jovens. É sempre bom ir pra lá, mesmo cansado e tendo que manter a máscara de estar estudando pra passar no vestibular. O fato é que cheguei em casa morto e peguei um livro que estava recostado sobre a mesa da sala. 'Eu sou o mensageiro' de Markus Zusak. Leio as primeiras sete páginas com tamanho entusiasmo e admirando a escrita moderna dum escritor puramente jovem. Uma história do cotidiano, com palavrões usados por nós mesmos, no dia-a-dia. E num vá me dizer que você é santinho, que não fala palavrões com seu irmão, com seus pais, ou consigo mesmo. Não vá achar o cara que escreve uma linguagem escatalógica num livro um imbecil frustrado, de mal com a vida.
Li as primeiras sete páginas e adentrei no monólogo do autor. Mas logo que consegui perceber o valor da história por si, reclinei-me na cama, com a calça surrada do colégio e dormi. Dormi, e nesse pouco tempo de sono comecei a monologar espontaneamente, falando tudo que me vinha à cabeça, como se minha vida naquele momento fosse um capítulo do livro de Markus Zusak-sempre me confundo se é com "S" ou com "Z"- e começo a descrever meu estado, os meus pensamentos e o dos outros, como se tivesse escrevendo uma página de um livro que todos irão ler. Talvez este livro um dia fará sucesso, como o livro de Markus.
Mas o que achei estranho foi estar conversando comigo mesmo, sozinho, desde que li as sete páginas de 'eu sou o mensageiro'. Já se passou meia hora desde que comecei a monologar. E sinto que é bom fazer isso. Nunca fiz isso com tanto prazer, talvez nunca tenha parado pra perceber o barato de monologar. Realmente nunca fiz isso de vera mesmo, só agora. E é bom porque penso melhor, raciocino sobre a vida. São meia noite e dez no meu celular, mas meia noite e vinte no relógio da cozinha. Em alguns momentos tenho que disfarçar que estou escrevendo, pois não quero que ninguém veja. De repente, viro a página desta folha e começo a fingir que estou lendo minha redação. Estou escrevendo numa folha em branco, no verso da minha prova de redação. Tirei oitenta, nota máxima. Na redação eu falo mal de Hugo Chávez e exponho bem as minha idéias.
Meus pais chegam neste momento em casa, tenho que parar de escrever, por um momento. Estou na sala e tenho que ir pro meu quarto, aprontar-me pra dormir. Puta merda! meu irmão ainda tá no meu quarto e é lá que fica o computador. Quando ele vai pro computador conversar putaria com os amigos não sai tão cedo. Tenho de expulsá-lo de lá. Mas hoje não precisou, acho que ele compreendeu minha cara abatida e sentiu pena de mim, saiu logo. Deito na minha cama e continuo a monologar. A luz do meu quarto queimou e tenho que escrever sob a luz amarela do abaju. Ouço os passos do meu pai aproximando-se do meu quarto. 'Quer um pedaço de chocolate meio-amargo?' Viro a folha pra ele não saber que estou escrevendo. Aceito por educação o pedaço. Como é que alguém pode gostar de chocolate meio-amargo?[...]
A folha do verso da redação acabou. Pego outra folha de redação, outro oitenta. Continuo escrevendo no verso, sempre monologando e pensando. São meia noite e meia. Tenho que acordar ainda hoje às 5:55. De novo pra ir pra porra do colégio.
Quando eu fui pro colégio hoje à tarde, fiz prova, então, depois fui pra biblioteca dormir. Cochilei uns dez minutos. Depois tive uma crise existencial profunda pra caralho e escrevi uma poesia mórbida e sombria. De imediato, eu fiquei feliz por ter feito uma boa poesia, mas mergulhei ainda mais na monotonia. À esta hora em que escrevo estou mais feliz porque estou monologando. Não sabia que o monólogo interior fazia as pessoas mais felizes, pelo menos comigo é assim.
Minha irmã agora abre a porta de seu quarto, parece-me que também perdeu seu sono. Vai sentar-se ao pé da porta da varanda, pegar um ventinho gostoso de meia noite e trinta e sete.
Ela deve estar monologando também, será? Tomara que esteja realmente, ela esteve mal nos tempos de véspera de vestibular nos últimos três anos. É a terceira vez que ela vai fazer vestibular e eu a primeira e estou aqui monologando. MO-NO-LO-GAN-DO. É um vocábulo bonito, presunçoso. Faltam quantos dias pro vestibular mesmo? Acho que uns vinte e poucos e eu aqui monologando.
O fato é que estou mais feliz agora, sozinho e monologando. Já fazem mais de quarenta e cinco minutos desde que eu li as primeiras sete páginas de 'eu sou o mensageiro'. Aprendi a monologar com esse livro e percebi essa arte. Acho que sou um 'homem' grande agora. Estou doido pra passar esse meu texto pro meu blog, amanhã. Farei isso.
Meu professor de literatura disse que todo escritor tem insônia. Eu nunca tive. Durmo na hora que quero e não demoro. Mas isso não quer dizer que não sou um escritor de verdade. São meia noite e quarenta e sete e já vou indo dormir. Quantos, no mundo, estão monologando agora? Será que muitos? não sei. O fato é que estou sozinho agora, nenhum barulho na casa, a não ser meu cachorro bebendo água. Mas não estou realmente sozinho, percebo isto, simplesmente. Não estou sozinho: estou comigo mesmo. E monologando.
É uma hora da manhã: 01:00.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Seus olhos amotinaram meu desterro de lágrimas


Seus olhos amotinaram meu desterro de lágrimas...
Triste, ao amanhecer, quedei num choro inconstante.
Fiquei sozinho, à noite, vendo o açoitar dos marginais
Na escura têmpora divina, ao som de arrepios pedantes.

Sua cor dourada mestiça absorveu a luz crepuscular
E sua tez miúda envolveu-se num mundo distante...
À ver navios me deixou e foi pro Além-mar
Derramando-se nas ondas que batiam-lhe obstante.

Foi à Beira-mar esturricar-se de água salgada
E lamber os beiços com sal impregnando-lhe,
Caminhou n'areia volátil de Iracema, à madrugada
E viu o Sol nascer tímido, espiando suas curvas.

Qual virgem dos lábios de mel em seu ledo engano:
Ao invés de doce, seus lábios estavam salgados
De tanto arrefecer seu corpo n'águas, insano
Como a sereia de ouro jogada ao léo cigano.


Khalil Fernandes.