quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Não vivo neste mundo contemporâneo


Não vivo neste mundo contemporâneo.
Não sofro igualmente para quem mente
Existo, pois sou funcional momentâneo
Mas afasto-me dos comuns proeminentes.

Decadentes, medíocres, só bajulam a arte
Com valores imbecis de humanos, somente...
E se fazem igualar aos imaturos, à parte,
E se auto-destroem contente, não consciente.

Cadeia ou casulo? Não sei o que me prende...
Sei que me afirmo com profunda certeza
E me convenço de que sou o inconsciente.

Para quê me impõem as leis inexistentes
Se tive o desprazer de nascer nesta natureza
E se não pertenço a essa sociedade subseqüente?


segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Afrodite nunca existiu


Percebo que o céu já não está mais totalmente negro. Parece que lhe surgiu um azul bem escuro, quase um anil, o qual me acalma de todas as minhas divagações sombrias que me visitam o pensamento. Abro a janela do quarto e ainda consigo ver a Dalva solitária estrela, que brilha, ainda com um brilho tímido, parecendo-me observar por um instante, curiosa, com ar de espiã pra cima da minha janela. Vejo um vulto preto sobrevoando a varanda da casa, algo pequeno, emitindo uns sons agudos. Você já deve ter sacado o que é. Morcegos. Tenho a impressão de que eles querem dizer algo a mim, talvez queiram fazer amizade comigo. Pouco tempo depois que isso se passa, uma coruja branca emite seu 'chiado' pedante no jardim.
Neste exato momento, olho novamente pro céu. A estrela não brilha mais, acho mesmo que até já desapareceu por completo. Deve ser esta a minha hora de escrever.
O céu está cada vez mais claro e o azul já perdeu todo o seu tom de cordialidade, mostrando-me algo sem vida e sem expressão. O branco das nuvens recobertas se escancara para a janela aberta.
Surpreendo-me ao perceber 'os primeiros cantos', não do Gonçalves Dias e nem dos sabiás, mas dos pardais suburbanos que cantam a mediocridade passageira da vida.
Recuso-me a descrever o som da batida da porta do vizinho, que acaba de chegar sei lá de que prostíbulo, arruinando o som agudo dos passarinhos, banalizados pelo ordinário aspecto de não possuir beleza infinita.
Parece que a noite já se foi e não me sinto mais à vontade agora, vejo que a sacada do meu quarto está repleta de olhos gordos me secando e querendo roubar o que de mim é valioso. Mas que olhos gordos são esses? - Sei lá, talvez seja o próprio dia que se aproxima com os raios mal-educados, que não fazem distinção e não medem a intensidade com que ferem os olhos mesquinhos daqueles solitários amantes da escuridão.
Minha noite passou depressa e não tive, ao menos, tempo de me despedir de forma solene, pois o dia vem me despindo e deixando à mostra minhas vergonhas.
Não quero mais ser a cobaia dum sistema repugnante, quero deixar algo de útil, algo que algum dia estará sobre as calçadas do centro da cidade, sendo pisado e às vezes chutado, algo que preencherá o vazio dum menino, ou a puberdade duma menina, algo que despertará a sede de conhecimento adormecida num adulto, que tem sua atenção vinculada para a capa vermelha dum livro convidativo, que ocupa mais um espaço na calçada, talvez. Este livro, porém, valerá cinco reais, como muitos, e será de minha autoria.
Quero produzir algo supremo em concisão, algo conciso em supremacia, algo maravilhoso em produção e algo produtivo em maravilha. Dizem coisas absurdas sobre escritores renomados.(?) Quero então saudar os roubadores de livros, os roubadores de conhecimento e aqueles que, para adquirir boa viagem, fazem traseira no ônibus da arte, mas sem ofender o entendimento, digo, os que fazem traseira no sentido de burlar os valores comuns, para viajarem de graça num mundo de descobertas gentis.
Faz duas horas que acordei, às 3:35, e estou no ápice da atividade pensativa. Sinto-me cansado, por um momento, sinto que tudo o que fiz não valeu à pena. Abro as páginas de Markus Zusak e percebo a magia de ser algo produtivo para a humanidade, ou para mim mesmo e para as não muitas pessoas que amo.
Algo estranho ao meu corpo me vem à mente. Nunca conheci esse algo misterioso, que me visita todas as noites, mas que, sem ao menos ver a sua cara, satisfaço-me em sentir apenas a presença do seu cheiro. Recordo-me agora de algo que escrevi:

Algo Estranho Envolveu-me

Algo estranho envolveu-me

Como um manto a acariciar-me

A pele confusa eriçou-se em riste

E o medo vazou em meu pensamento triste.

Algo estranho envolveu-me

Como um abraço solene em meio à dor...

Abraço que afaga e afoga-me o medo

Que, aprisionado, não mais me vazou.

Algo estranho envolveu-me

Como um beijo nobre e acolhedor

Que me faz soluçar e tremer

Tamanha a frieza dos lábios intumescidos.

Algo estranho envolveu-me

Como uma prisão a me sufocar,

Como um abrigo aos refugiados,

Como um peixe às águas do mar...

Algo estranho envolveu-me

E não mais pude me conter

Acabei me desvencilhando do manto,

Do abraço, da prisão e do beijo...

E o algo estranho que me envolveu

Saltou fora do meu corpo desprotegido.

O frio, a dor, houveram-me afligido

Ante a desolação de um ser corrompido.


Tudo que me vem agora é, talvez, banal e sem sentido. Sinto vontade até de rir. Mas também me sinto triste, pois não fui presenteado com o nascer do sol, que o faz jocosamente atrás de minha casa.
Abro a última folha do meu livro prático de francês e me deparo com um título interessante e ao mesmo tempo estranho: A dane de Eufodithe. Essas palavras soam rasantes pelo meu quarto, muito embora este não tenha escutado a mínima entonação de minha voz. Nunca soube quem escrevera isto e quem se atrelou a esse mistério abrasivo.
Não sou nenhum tipo de lingüista, mas arrisco-me em tentar estudar o significado seco destas palavras insones. Dane deve ter alguma correlação com um nome feminino, talvez de uma musa que habitava uma região longínqua. Eufodithe me soa como Afrodite, a deusa grega da beleza. É interessante notar a ligação entre essas duas palavras desconhecidas: Dane lembra o nome de uma musa antiga e Eufodithe, que me traz à Afrodite, tem um prefixo Eu, que significa verdadeiro. Talvez Dane seja realmente a verdadeira musa e deusa da mitologia grega, humanizada em Eufodithe, e Afrodite, sendo um mito mal-contado, nunca existiu.
Ou talvez esse título pedante não tenha sentido nenhum, sendo apenas algo escrito por um doido varrido da sociedade, em mais uma de suas noites mal-dormidas. Resta-me saber: quem é este louco?
Aproveito o livro prático de francês e tento fazer algumas aulas, mas o máximo que consigo é me deparar com a beleza destas palavras, destas letras, e do desenho das frases, como este:
La meilleure façon de visiter Paris c'est à pied, mais si vous voulez aller d'un endroit à un autre rapidement, faites comme les Parisiens: prenez le métro.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Queda Livre


Imagine-se no alto de um prédio.
Um prédio bem alto, por sinal. Vinte e três andares e mais a displicência desoladora de uma cobertura, que emerge desde o térreo, lá embaixo, até onde a ponta de um tijolo fura o céu, rasgando-lhe o azul.
Você está lá, agora, beirando um dos parapeitos que, paradoxalmente, está à altura de sua cintura. Nada o faz pensar como conseguiu elevar-se até lá. Você não se lembra como subiu aquelas exaustivas escadas, nem como conseguiu burlar os seguranças do prédio para invadi-lo. É, certamente o prédio ainda está em construção, e pelas normas da construção civil, é expressamente proibida a invasão de imóveis em obras inacabadas.
É capaz de se ver o vão quase sem fim que cede espaço ao elevador, o qual nem sequer implantou-se ainda na obra. Vê-se uma infinidade de materiais de construção, ao lado de abismos que te sugam para o medo inevitável.
Fazem-se ouvir os uivos dos ventos que timidamente visitam o local do 23° terceiro andar, você sente os calafrios, oriundos dos ventos, adentrarem no âmbito da sua alma, impelindo-te a dar mais um passo na direção do abismo.
Você olha. Vê o chão longínquo puxar sua vista cansada, o que faz você se curvar no parapeito. Por um momento você se imagina escorregando e virando de cabeça para baixo, ficando livre de qualquer superfície sólida. Mas felizmente você não é capaz de pensar no que virá a acontecer depois do deslize fatal. As náuseas agora te tomam por inteiro e você sente o bolo que comeu na casa sua avó revirar-se no seu estômago.
Você não é capaz de se imaginar amolecido, curvando os joelhos diante do precipício e deixando o seu corpo cair levemente ao encontro da morte.
Você não é capaz de sentir o vento mexendo suas roupas frouxas e nem de pensar como seria a sensação de está em queda livre.
Queda livre.
Nada te prende agora, queda livre, livre de entraves e prelúdios, livre de pensamentos e de ações. Livre.
Livre-se da dor que te solta ao abismo desenfreado, livre-se do medo que te consome ao perceber o chão cada vez mais perto e palpável.
Mas você não é capaz de se ver inerte ao estado supremo, aquele estado que só as aves têm o luxo de desfrutar. Mas você não voa. Nem plana.
Você cai abruptamente. E não é nem capaz de imaginar isso. Você nem ao menos quer imaginar, tem medo, receio.
Não é capaz de imaginar a sensação da queda sufocando sua traquéia, aquele friozinho na barriga que mais parece um inverno rigoroso te congelando o corpo. Você nem ao menos pensa que ficou congelado pelo frio na barriga, você nem ao menos é capaz de gritar de entusiasmo ao sentir o prazer que as aves sentem todos os dias.
Você não sabe onde está agora. Nem eu mesmo sei. Talvez você não se lembre quando brigou com seu pai e esmurrou a parede de seu quarto. É bem capaz que você não recorde da sua fuga de casa, com a mesma mochila que se encontra agora em suas costas. Mas você não sabe onde, ao menos, está agora.
Talvez você não se lembre que passou por debaixo das grades que circundam o prédio medonho para finalmente subir. Você não é capaz de voltar alguns instantes no tempo e perceber que você subia as escadas avidamente, à procura de sei lá o quê. Não é capaz de trazer à memória a escuridão e o mistério angustiante a cada andar que subia, e os números consecutivos que não tardariam a chegar ao 23°.
Mas, você não se lembra que chegou bem perto do abismo e que encostou as pontas dos dedos na quina. Você tivera aberto os braços e sentira a maior liberdade que lhe veio na vida.
Curvou-se. Amoleceu-se. Fechou os olhos.
Caiu.
Mas você não se lembra de nada disso. E é por isso que agora você é capaz de saber onde está.
Você retorna para si. Assusta-se com o infortúnio e, finalmente, vê que a vastidão do chão compacto te suga mais rapidamente. Que liberdade você sente agora, não?
Um ímpeto de felicidade te toma de conta e você não é capaz de evitar o impossível. Talvez seu corpo esteja a cento e vinte por hora e você consegue então extravasar.
Um grito ensurdecedor sai da tua garganta, bate no chão e retorna para ti.
Pouco tempo depois: eu te perdi de vista.
E você não sabe onde está.
Seus motivos perderam o sentido, suas sensações, seu medo, sua loucura, sua predisposição ao suicídio, tudo, perdeu o sentido.
O vento resseca teus olhos e você não vê mais nada, além de preto; finalmente.
Não sentiu dor, apenas prazer e medo, angústia e consolo.
Nesta hora você estava se despedindo da vida, alegremente, sentindo o que não havia nenhum sentido.
Você foi embora.
E não caiu mais.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Marcha Fúnebre


Uma marcha fúnebre tocou sobre o ambiente pesado que se fazia presente no casarão. A frieza tomou o lugar do desespero, antes velado sob a angústia das dores de outrora, que ainda permaneciam, mas agora de forma mais tênue. As pessoas quase mortas, que passavam pelo lugar, deixavam ali suas mágoas e seus pesares, contribuindo para que o ar do ambiente se tornasse mais sólido e compacto.
Os corvos, amantes da dor e do luto, pousavam numa lápide já desgastada, e bicavam sobre um nome importante que não levaria anos para que desaparecesse por completo. Deixavam lá seus dejetos e iam à procura de outra sepultura para nutrirem-se do sofrimento alheio.
Mas ali, ainda no casarão, os vestidos pretos cobriam as primas inocentes e os véus escondiam as amargas lágrimas das tias, que iam e vinham na ânsia de poderem permanecer de pé. Não aguentavam tamanho peso nas costas e ajoelhavam-se sobre aquele pequeno indivíduo, que nem sequer pôde desfrutar da virtude se despedir, de dizer suas últimas palavras insólitas, até porque não tivera tempo para aprender tal intento. Não parecia que algo tão frágil, tão diminuto, pudesse despertar o sofrimento derradeiro de uma multidão que apelava contra a ira do divino.
Eis então que o caixãozinho ergue-se imponente sobre a varanda, debaixo de um tripé de ferro antigo e enferrujado que não precisava de esforço algum para sustentar o peso ínfimo daquele pobre habitante de viagem marcada. As pessoas o olhavam de cima a baixo, sentindo-se inferiores e arrebatadas pelo sentimento de culpa, talvez. Todos queriam compartilhar daquele infortúnio, deixando seus pêsames junto com as rosas que entupiam o pequeno esquife.
A mãe, então conformada, apenas ouvia atenta o réquiem, lembrando-se dos poucos bons momentos que tivera ao lado do filho. Resolve enfim destrancar a porta de seu quarto abafado e ir ao encontro do pequeno pálido menino. Ao passar pelo corredor ela encontra vários braços de pessoas tentando abraçá-la para o consolo, mas ela se livra de todos eles, não queria que nada atrapalhasse o seu desterro contemplado. Finalmente, depois de várias rejeições de afago, ela consegue chegar sem hesitação à frente do ataúde que abrigava o menino, junto de mais centenas de cartas e bilhetes que completavam o espaço deixado entre as flores que cobriam o caixão. Com toda a sua força e com o coração transbordando, sem no entanto demonstrar desespero algum, ela ergue o véu do rosto e deixa a amostra seus olhos vermelhos e inchados. Seu nariz delgado ainda deixava escorregar uma solitária lágrima, talvez a última, que pingara sobre a tez branca do filho morto. Ela beija a testa molhada do defunto e sente como se seus lábios fossem congelar. Pega nas mãozinhas frias do menino e as aperta delicadamente, como num gesto de comprimento cortês, para se despedir de forma solene do filho prodígio.
O pai, que dera ao filho o mesmo nome que lhe era designado, parece que não tivera tempo para ver a tampa do féretro se fechar sobre a alma frágil de seu filho. O vazio da sua mente consolava qualquer tipo de angústia que lhe atracasse o pensamento, sem que se deixasse entregar pelos sentimentos sufocantes. O alarde da tarde o fez enfeitiçar diante do burburinho da noite que se aproximava, mas ainda foi capaz de ver os velhos assistentes batendo o martelo nos pregos que lacravam o caixão. Não pôde ver o rosto sombrio do menino, nem chorar a seus pés. Um dos irmãos viajantes carregava a urna funerária em direção ao carro do cemitério, ao mesmo tempo que uma leva de curiosos o acompanhava. Mesmo depois de ter ganhado o carro, o bebê morto ainda era escoltado por multidões, que corriam desesperadas tentando acompanhar o carro funerário.
Ao chegar ao campo-santo, já se podia ver os coveiros suados cavando os últimos dos sete palmos sob a terra. Um deles escorou-se à sua pá e tirou o suor da testa, observando os olhares atentos das pessoas que fitavam o pequeno infortunado. Era comovente para um simples coveiro ter que abrir uma vala para enterrar um corpo ainda de meses, sabendo que aquela terra, sob os seus pés, iria praticar a necrofagia naquele indefeso defunto.
O padre rezou a última missa e a marcha fúnebre tocou novamente, para o desterro de lágrimas das pessoas presentes no enterro, que sentiam o coração inchar como um balão, de forma a sufocar-lhes a garganta e lhes fazer soluçar. O desmaio da avó foi inevitável, tendo o tio que se esforçar para segurar-lhe antes que batesse a cabeça na lápide do neto. A maioria, horrorizada, apenas via o caixão apear sustentado pelas cordas desgastadas.
As pás moviam-se novamente, agora para jogar a terra sobre a madeira maciça da tampa que cobria o ataúde. A mãe imaginava-se dentro do caixão, agarrada ao filho, escutando o barulho que a terra fazia ao cair sobre a tampa e observando que as luzes se apagavam à medida que a areia os cobria. Enfim, completou-se toda uma tradição funerária e todos seguiram seus rumos inesperados, enquanto que a mãe permanecia solitária ao pé da sepultura acariciando a grama, como se fosse os cabelos de seu filho.

domingo, 4 de novembro de 2007

Processo Criminal


Mark era daqueles que passavam horas a fio bebendo, sempre na presença de seu bom uísque escocês e de seu charuto cubano. Não bebia acompanhado de amigos, até porque ele nunca designou o conceito de amigo para nenhum indigente que passou por sua vida. Bebia e fumava só, no vigésimo terceiro andar, que dava para a cobertura do prédio das Astúrias, ao ar livre, onde morava com seu cachorro. Seu nome era Brown, ele não sabia ao certo de que raça era o Brown, mas parece-lhe que lembrava um pastor ou um weimaranner. Mark era um cara durão, mas de boa pinta, era um promotor de justiça, corrupto, batia em mulheres e tinhas vários filhos perdidos no mundo. Acabara de divorciar-se da sua terceira mulher, ou melhor, ela que quis a separação, foi assim com a primeira e com a segunda também. Estava puto com todo mundo, menos com seu cachorro. Tinha agora que responder processo criminal por ter sapecado uma garrafa do seu preferido uísque na cara esdrúxula de sua mulher. Foi obrigado a fazer isso, depois que ela enfiou a dianteira de seu Porsche Carreira GT debaixo da traseira de um caminhão. Mark lamentou muito pelo seu automóvel e mais ainda pela sua garrafa de uísque escocês esfacelada no chão, toda estilhaçada. Quanto à cara nojenta de sua mulher, ele não lamentou, pelo contrário, depois que ele próprio a levou para o hospital e soube que a cara dela receberia uma bela costura de dezessete pontos e que seu olho esquerdo estava perdido, ele deu uma risada seca e sarcástica, pensando nas plásticas que ela faria para tentar endireitar sua face toda rachada. Certamente seria inútil. Quando Mark viu a sua preciosa garrafa sapecando com força e os estilhaços penetrando no rosto da mulher, ele teve a certeza de que ficaria seqüelas para sempre na cara da coitada. Ele ficava só imaginando o rosto da ex-mulher, com dezessete pontos atravessando-lhe uma face à outra e com um tampão de pirata escondendo seu olho esquerdo. Era muito engraçado para ele imaginar o desespero dela em esconder seu rosto, ainda com um tampão de pirata no olho! Ela, supostamente, não sairia de casa por um bom tempo e não arranjaria mais homem algum.
Mark sabia que venceria mais uma vez na justiça, ele próprio se defendia e não precisava de nenhum advogado imbecil. E se o improvável acontecesse, ou seja, se ele fosse condenado, não tardaria a sair da sua prisão domiciliar com todas as regalias de que ele dispunha. Não estava nenhum pouco preocupado com o andamento do processo nem do que iria suceder, foi assim também com a primeira e com a segunda mulher, ganhou nos dois casos. Mas nestes casos não ocorreu algo trágico para nenhuma delas, que apenas exigiam pensão alimentícia para os filhos bastardos que lhe enchiam o saco. A não ser uma vez que, ainda namorando com sua primeira mulher, ele pressionou a ponta de seu charuto nos mamilos dela. Mark fez isso porque gostava mais de mamilos negros e os dela eram de uma cor morta, quase parda.
Ele não tinha muito jeito com as mulheres, a não ser para conquistá-las. Era meio bruto quando estava com a posse delas, não sabia fazer carícias ou algo que agradasse. Mas ele sempre foi boa pinta, não demoraria muito pra aparecer com outra mulher dentro de casa, o que deixava Brown enciumado.
Mark encomendava cinco garrafas de uísque por semana, ou então desfrutava-se de seu alambique que tinha dentro de casa. Fumava uns dois charutos por dia, tendo que pedir duas caixas com sete charutos cada, semanalmente, para um contrabandista cubano. Ele recebia o charuto por um preço piegas, mas ainda era de boa qualidade. Sua voz emitia um som extremamente grave, resultado da impregnação do carbono no seu pulmão, oriundo da fumaça que ele respirou durante trinta anos. Já sobreviveu duas vezes ao estado de coma alcoólico, sendo internado numa clínica de recuperação pela sua mulher, aquela mesmo que teve o bico do peito queimado. Por incrível que pareça, todas as mulheres que passaram por sua vida o amaram, talvez ainda ainda o amam, mas não conseguem viver ao lado de um cara totalmente anti-social.
Mark passava a noite bebendo e fumando ao lado de seu fiel cachorro. Voltava sempre puto de seu escritório e abria, ainda no carro, sua primeira garrafa de uísque. Ele bebia no trânsito, o que o fazia chegar cada vez mais rápido em casa para receber os pulos de alegria de Brown. Ao passar pela porta do elevador, que abria-se diretamente para seu apartamento, jogava o paletó amassado em cima do sofá, desvencilhava-se de seus sapatos gastos e abria logo sua camisa social para receber o vento gélido, que subia até a cobertura do prédio e lhe fazia resfriar um pouco a cabeça, consternada pelo seu laborioso trabalho. Sentava-se à sua poltrona ao ar livre, apossava-se de seu isqueiro que conseguira em Paris e acendia seu segundo charuto do dia, tendo fumado o seu primeiro ainda no escritório, o qual se impestava do cheiro fedorento da fumaça. Passava as longas horas da madrugada definhando com sua bebida favorita e só despertava às onze, quando tinha que tratar dos processos criminais. Lamentava não ter um chefe que lhe mandasse fazer a barba ou engomar o paletó, pois queria muito esmurrar algum desses imbecis mandões que lhe despertavam uma ira enorme. Seu olhar torpe para os funcionários da repartição fazia estremecer as pernas daqueles subordinados que babavam-lhe o saco constantemente. Tinha repugnância aos 'companheiros' de escritório que se achavam fodões.
Vez por outra, recebia reclamações do servente, que o dizia ser muito rabugento sujando o chão com cinzas de charuto e algumas gotas pegajosas de uísque. Quem entrasse na repartição de Mark certamente se depararia com um caos exorbitante. As pilhas de papéis se aglomeravam sob a mesa de tal maneira que formava um imenso bloco, o qual Mark facilmente se escondia atrás. As folhas de processos criminais também de apoderavam do chão e os livros grossos decaiam da estante em plena desordem. O trabalho mais pesado sempre ficava mesmo com o resignado servente.
- Toc toc toc!
O som da porta da repartição soava como um tambor oco que emitia barulhos secos. Depois de divagar por uns dez segundos, Mark dá uma tragada no seu charuto, sem responder ao chamado da porta. Começam a bater nela novamente, e antes que se completem as três batidas tradicionais da porta, ele grita friamente: 'Se é dinheiro, estou duro!'
- Por favor, chefe, tem um garoto querendo falar com o senhor - responde do outro lado o servente.
- Pelo que me consta, não tem ninguém marcado pra abrir um processo hoje.
- Ele diz que é importante - insiste o servente.
- Mande-o aguardar um momento.
Mark pega sua garrafa de uísque escondida dentro da gaveta da mesa e dá uns cinco goles seguidos, enquanto o garoto espera impaciente do outro lado. Dá aquela baforada refrescante do álcool e o manda entrar. Ao abrir a porta, cautelosamente, o garoto se assusta com o caos que está a sala e com o cheiro desagradável habitando o ambiente. O que ele vê é uma mesa com uma imensa pilha de papéis ocultando quem está atrás. Percebe a fumaça que se esvai atrás da pilha indo refogar o lugar desordenado, tropeça em alguns papéis amassados e se senta na cadeira desconfortável que lhe aguarda.
- E então...vai ficar aí mesmo parado sem falar nada?
O garoto se sente tomado pela voz grave que sai da boca de Mark e logo fica curioso para ver a cara do homem que é dono daquela voz triunfante.
- É...porque eu queria saber do andamento do processo da minha mãe, ela foi agredida por um imbecil que arremessou uma garrafa no rosto dela, ela ficou muito mal, com seqüelas na face e corre o risco de perder seu olho esquerdo. Eu mandei a queixa para um delegado incompetente, mas ele mandou eu vir aqui no seu escritório para fazer o andamento do processo.
Mark por um momento achou que fosse coincidência, afinal, com certeza ele não seria o único alcoólatra da cidade que batia em mulheres.
- Hum, deixe-me ver, realmente o caso é deprimente, ela não teria feito algo para deixá-lo irado a ponto de agredi-la com uma garrafa?
- Não, promotor, sinceramente minha mãe é uma santa, não faria algo para merecer o que o imbecil fez com ela.
- Lamento, mas o senhor não tem como provar isso, afinal você não foi testemunha.
- Mas, promotor!-disse o garoto já todo nervosinho- não tenho que provar nada, basta olhar o rosto dela para perceber tamanha brutalidade!
- Lamento novamente, meu rapaz, sem testemunha ou provas concretas não posso fazer nada! Por favor, mexa logo esse seu traseiro e vá procurar outro cara para avaliar o caso da sua mãe.
O sangue do rapaz sobe-lhe à cabeça e é possível ver os vasos do olho se dilatando. Num gesto de impulso, ele dá um soco na pilha de papéis e a desfaz por completo, na esperança de ver a cara do homem que ele julgava imbecil. Mas mesmo assim, ele não vê Mark, que está com a cadeira voltada de costas, de modo que cobre-lhe todo o corpo.
- Vocês são uns vagabundos, todos, todos iguais! Essa justiça de merda só defende os ricos, enquanto a impunidade impera neste mundo!
Mark, ainda de costas, aplaude ironicamente as palavras do garoto e vira-se com a cadeira, agora encarando de frente o rapazinho puto.
- A lei é assim, meu camarada, faço o serviço sujo a quem me paga bem!
O garoto se depara com a cara fria de Mark e pára, por um momento. Observa bem o rosto dele, que parece-lhe não ser estranho. Ofegante, o garoto enfim reconhece a cara desbravada daquele que tanto ele xingava, daquele homem que ele desejava a morte, que velava os dias para esbofetear-lhe a face até matá-lo espancado. O rapaz cai na real e tenta fazer o que pensava que tinha que fazer. Ergue-se da cadeira, que vai ao chão, e pula em cima da mesa da mesa de Mark, como uma cobra que dá um bote em sua presa.
- Foi você, seu desgraçado, foi você quem atirou a garrafa na minha mãe!-diz o garoto ao esmurrar a face de Mark uma vez - filha da puta! você vai morrer agora!
E dá-lhe um murro outra vez. E outra, e outra, várias vezes. Mark apenas fica parado enquanto a fraca mão do garoto tenta quebrar-lhe a cara. O próprio Mark sabia que merecia uns socos na cara e deixou o rapaz lhe bater até se satisfazer. Percebendo um pouco da dor que estava sentindo ele segura a mão do garoto e o empurra para fora da mesa, fazendo-o ir ao chão. Era evidente a diferença do tamanho do corpo dos dois e o franzino garoto de dezoito anos não poderia fazer mais nada para tentar matar aquele que agredira sua mãe. Mark ajeita a gola de seu paletó, passa a mão na boca suja de sangue e cospe na cara do garoto. Ele o algema, prende-o junto à sua mesa, de modo que fique sentado. Pega seu charuto e fuma perto dele, soltando-lhe a fumaça diretamente no nariz. Espera o garoto acabar de tossir e o avisa:
- Infelizmente a vadia da sua mãe não vai conseguir me processar. Mas, por favor, mande esse dinheiro para ela poder ajeitar a cara nojenta e sumir da minha vida. Ah, aproveite e pegue uma parte para pagar uma musculação, pois precisa ficar mais forte se quiser me matar outro dia. Agora vaza daqui como se nada tivesse acontecido e faça o que eu disse com o dinheiro.
Ele solta o rapaz, que chora humilhado, tira algo em torno de dez mil dólares da gaveta e entrega ao garoto. Abre a porta do escritório, expulsa-o, e vira de uma vez o resto de uísque que continha na garrafa, deixando algumas gotas escorrerem no seu paletó amassado, que pinga o uísque em cima da folha que se traduzia o processo criminal da sua ex-mulher.