1) Evidências pré-ambulatórias do laudo médico do IML
Não logramos tocá-la inicialmente, pois seu corpo desvanecido nos fazia retroceder em laudos imediatos. Todavia, galgamos bem próximo da paciente e injetamos-lhe uma dose de vigabatrina, medicamento especial para estes casos epilépticos. Ao tentarmos suprimir os efeitos da neurose com o medicamento eficaz, observamos que seu estado momentaneamente apaziguara, e suas feições contorcidas desapareceram progressivamente das maçãs de seu rosto. Aproveitamos o ensejo para cobri-la com o manto de manutenção térmica, para seu corpo não retroagir aos estados que antes apresentava.
Adiciono a este documento a falta preparação do SAMU, o qual apresentou longas demoras para chegar com as macas ao local. Esperávamos principalmente pelos para-médicos, que portavam os desfibriladores necessários à revitalização da paciente.
Quando os para-médicos chegaram, frívolos, receberam minhas instruções e iniciaram a preparação para reanimar Judith. Porém, todo o esforço esboçado pelos meus ajudantes não foi capaz de reanimá-la, o que confirmou o meu presságio.
Constato, com imensa frustração, a morte trágica dessa mulher que, sem sombra de dúvidas, teve o seu sortilégio muito bem arquitetado, com o intuito de não deixar a mínima possibilidade de sobrevivência. Neste momento, dou-me a gentileza de levá-la ao carro do IML, para que a perícia corpórea seja feita e possa ajudar a Polícia a desvendar as causas deste óbito.
Dr. Gervázio Costa,
médico legista do IML.
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2) Nota Policial sobre o óbito de Judith Barbosa Pessoa
Nenhum vestígio, seja de pólvora ou de perfurações de arma branca, foi encontrado no corpo de Judith, o que nos fez pasmar diante da sua aparência física iníqua e esquálida. Nosso objetivo, no entanto, foi de logo nos ocuparmos com a investigação local de toda a casa, desde o jardim, que serviu de espaço para a consumação da morte, até os mais inóspitos aposentos do imóvel. Constantemente recebendo informações de populares, constatamos que o cadáver não apresentava, em vida, qualquer ente habitando consigo, o que nos faz ter a certeza da remota chance de alguém ter pedido ajuda médica imediata.
Segundo o Dr. Gervázio Costa, pioneiro no local de morte, os populares ligaram para o IML para saber se havia morrido a referida mulher, pois há mais de duas semanas a mesma não era vista andando pelas ruas do bairro e quando tentavam a campainha não logravam resposta alguma. Este fato fez com que o Dr. nos comunicasse para logo podermos invadir a casa e averiguar o que teria ocorrido. Não recebemos nenhuma ligação de familiares, que até o presente momento não deram luz alguma à nossa investigação policial.
Constatamos a identidade do cadáver pela conta de energia elétrica que se encontrava sobre a mesa da sala. Algo nos intriga: examinando a folha do pagamento, notamos que sua conta era quase isenta de valor, o que nos permite afirmar que a defunta não utilizava quase luz nenhuma em seus aposentos. A sala estava em perfeita arrumação, ao passo que a cozinha nos apresentou uma forte evidência: encontramos pílulas, dos mais variados tamanhos e cores, espalhadas pela prateleira e pelo chão.
Voltamos ao local da morte e ajudamos os peritos a demarcar o contorno do corpo na área em que o mesmo jazia. Lá, encontramos outro precioso meio para nos ajudar nas procedências do óbito: seu celular estava meio escondido entre as folhas secas do jardim, bem próximo da demarcação do corpo. Tratamos de enviá-lo à Policia Civil para obtermos a autorização necessária ao grampeamento do telefone.
Investigamos o nome da defunta e ficamos sabendo do Ministério do Trabalho que a mesma tratava-se de uma advogada civil, que trabalhava em um escritório na avenida Rebouças. Fomos até lá e obtivemos os nomes dos pais de Judith. O pai já também encontrava-se morto, mas a mãe, de 86 anos, ainda viva, residia em outro bairro, oposto ao que a filha morava.
Ao depararmos com o endereço que nos foi fornecido, pasmamos com o local absolutamente inóspito e sombrio que nos rodeava. A casa jazia sem número algum e era vigiada por cachorros fétidos e valentes, os quais nos obrigaram a manter uma distância mínima de vinte metros do local. Então, sem mais opção a escolher, dei um tiro voltado para o alto com a minha pistola, mas não logramos êxito em expulsar os animais, que permaneciam ferozmente no recinto da casa velha e sombria. Talvez incomodada com o barulho tenebroso que os animais faziam, a velha senhora abriu, ou melhor, tirou a porta do lugar e nos apareceu com uma cara estranhamente severa. Bateu fortemente com sua bengala no crânio de cada um dos animais que nos perturbava, afastando todos, que gritaram agudamente após a pancada. Percebeu então que se tratava de polícia e nos foi logo tratando com poucas palavras, o que nos fez desconfiar da forma como se portou a nós.
Depois das poucas e grossas palavras que a velha senhora nos dirigiu, mandei uma intimação para a mesma depor e ela reagiu de forma muito suspeita.
Inspetor-chefe de Polícia do Estado.
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3) Gravação telefônica-celular fornecida pela Polícia Civil
- Hum... é... por favor moça... me ajude, por favor...estou morrendo... me envenenaram! Chame logo uma ambulância...
- Mas não sabemos onde mora, moça, o que fizeram com você? Não está em condições de falar?
- Hur...aah, foi a velha maldita, moça, ela me envenenou...aah.
- O que? Moça, responda! Diga-me onde mora! Moça? Alô? Alô? Alô?
- [...]
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4) Manchete puplicada na primeira página do Jornal Policial
IDOSA DE 86 ANOS É PRESA, APÓS JULGAMENTO, POR ENVENENAR E MATAR A PRÓPRIA FILHA, ADVOGADA, DE 36 ANOS.

4 comentários:
Deveras criativo...
A inspiração em Bram Stoker e Mary Sheller é certa, mas, de qualquer forma, adorei o conto. Prendeu bastante minha atenção. Como disse o gilberto, realmente é bem criativo.
Abraços!
UShauhashuasuhauhauha
Adorei!
tóxico cara!
sempre que publicar me avisa!
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