quarta-feira, 25 de junho de 2008

Versos Tristes

Não verás luz de velas abalar-te,
nem tampouco a chama ardente dançar
entre o enleio da dor. Fazer calar
a tua boca incessante a falar de arte.

Ante ao fulgaz recentimento mórbido,
sombria noite há de chegar serena,
e ao luar irás galgar vôo sórdido,
sutil balouçar de uma brisa amena.

Um sopro Divino fará inconsútil
a tua doce alma a calcar devaneios.
No vazio da sombra ressurgiste

e em plena luz de velas fez-te fútil.
Eu indo procurar-te em teus passeios
nada encontrarei, senão versos tristes.

sábado, 7 de junho de 2008

Natália.

- Ô menina atrevida! Não tem medo de levar uma mãozada nos beiços, não? Essas garotas de hoje em dia...eu hein?
Era sábado à noite e eu passava pela rua monótona e sombria. Natália brincava, faceira, pela calçada de casa. A mãe havia mandado ela ir para casa, mas Natália inventava qualquer coisa para despachar a mãe, que, visando não perder a autoridade, dizia esses tipos de palavras que intimidavam a filha.
Enquanto eu passava pela rua, ia ouvindo as palavras que a mãe dizia, as palavras se perdendo, eu me distanciando, Natália brincando... Depois não escutava mais nada, apenas algum cachorro que latia ao estranhar minhas leves passadas pelas calçadas. Nesta época eu devia ter meus conturbados quinze anos, Natália devia não passar dos onze. Nesta época também começaram a nascer minhas primeiras idéias loucas, meus pensamentos divagadores, minhas conversas prolongadas com Alberto, as idéias socialistas, anarquistas...mal eu conhecia Marx ou Proudhon!
Gostava muito de estar sozinho com minhas idéias, discutir com minha persona interior, que tanto me ajudava a esboçar meus primeiros versos, os quais me saíam prontamente da cabeça e iam morrer no papel. Quando concluía uma idéia, formulava teoria e ansiava chegar o momento de partilhá-la com Alberto, que muitas vezes tinha idéias mais interessantes e acabava derrubando as minhas teorias. Mas lembro-me de uma teoria, que ambos formularam, com perfeita sincronia e harmonia de idéias...A Teoria da Arte Única, a qual não convém comentá-la por aqui.
Nas vezes que voltava do colégio, de noite, eu passava pela rua monótona onde brincava Natália. Era agradável para meus olhos vê-la dançando com seus cabelos loiros a tocar-lhe a face rosada. No meu pensamento de garoto de quinze anos, porém, não tramitava a idéia de namorar aquela menina faceira, até porque tinha eu o bom senso achá-la muito criança, infantil demais para um garoto que já lia alguma coisa de Nietzsche, que até chegara a escrever frases anarquistas em muro de propaganda política...Eu até por essas épocas cheguei a gostar de Isadora, uma menina linda, da minha idade, mas que me parecia muito pobre de sentimentos, de atitudes. Pensava muito nela, chegávamos a ir para cinema e trocar carícias íntimas na última cadeira, no escurinho. Tinha eu a certeza que não a amava, porque na minha mente morava um conceito muito rico de amor, que eu havia resgatado de Schopenhauer, ao ver um documentário sobre filósofos que Alberto havia me mostrado.
Comecei a sonhar em ser aviador da aeronáutica, mesmo sabendo da minha limitação de ter miopia, de que eu seria reprovado no exame médico. Sonhei em ir para a França, conhecer Paris, aquelas cidades antigas do sul da França, andar abraçado com minha musa num bosque, passar sobre a ponte de um riacho enquanto conversava sobre amor com minha namorada.
Um dia estávamos voltando eu e Alberto do cinema, na condução lotada de sexta à noite, quando me veio uma certeza em meu pensamento, precisava compartilhar com Alberto, sem saber por que aquilo me vinha à cabeça.
- Sabe, Alberto, não sei por que, mas eu tenho a certeza de que estaremos na França, você com sua namorada, eu com a minha...Nós bebendo vinho na tua casa, conversando sobre idéias loucas, escrevendo livros, amando nossas mulheres...
Enquanto isso, uma senhora sentada na cadeira a meu lado olhava-me dizendo aquelas palavras, certamente lembrando-se do passado, de algum amor perdido que vez em quando lhe voltava ao pensamento...
- Cara, dizia Alberto, eu tenho medo de que essas nossas idéias se percam com o tempo. Mas tenho a certeza que não vou me esquecer dessa tua convicção. Seria ideal isto acontecendo...
Via eu em Alberto um psicólogo, um conforto para minhas palavras angustiantes, uma página em branco para transcrever minhas idéias. Alberto tinha uma namorada, muito elegante, inteligente, aceitava seus pensamentos, a maneira de ser, compartilhava também de nossas idéias, era moderna, perfeita. Eu estava sem ninguém, sonhava com uma musa, ou apenas com uma garota que nem a namorada de Alberto. Era difícil ter de conviver com a solidão afetiva, não tinha com quem transmitir meu amor, meu afeto. Às vezes aparecia uma garota, que passava feito um relâmpago em minha vida, eu não conseguia entendê-las, não queriam nada sério.
O famoso terceiro ano havia chegado para mim, tinha eu dezoito anos e estava amadurecido, como homem. Mas o ano do vestibular alienava-me de certa forma, eu escapava um pouco dessa alienação lendo alguns livros interessantes que nos eram indicados para o vestibular. Natália, agora por coincidência, estudava no mesmo colégio que eu, chamando muito a atenção dos garotos da sua idade. Ela devia cursar o nono ano, antiga oitava série, estava bem mais crescidinha, toda formada, de brilho nos lábios, irradiava o corredor de acesso ao colégio sempre que eu passava para dar entrada à sala. Devia ela me conhecer de vista, até porque eu não havia deixado de passar pela rua monótona, ao vê-la agora, não brincando, mas de papinho com garotos na porta de casa. Um dia, não me contive:
- Você deve ser a garota que mora no N° 311, da rua Ademar Pereira.
- E você deve ser o garoto que sempre passa em frente à minha casa, indo não sei para onde...
Havia me surpreendido com a pronta resposta que ela me deu.
- Você não sabe que eu moro na tua rua? Minha casa fica perto do final, ali na outra esquina, disse eu, com o intuito de saber mais alguma coisa da vida dela.
- Acho que sou eu mesmo, mas por que quer saber se realmente se trata de mim, quer me entregar algo, ou você perdeu alguma coisa?
Ela parecia querer me dizer outra coisa. Espantava-me a maturidade com que ela me dirigia a palavra.
- Não, não perdi nada, não. Queria só saber mesmo, sabe como é, naquela rua não se tem amigos, é muito monótona, é que eu pensei...
A sirene havia tocado, Natália se apressava para chegar na sala e caminhava enquanto conversava comigo, balançando a cabeça quando necessário. E foi isso que ela fez, talvez tivesse compreendido a minha inteção de conhecê-la, sabia que eu queria fazer amizade...
- É verdade, aquela rua é muito parada, precisamos movimentá-la de vez em quando! Desculpa, mas já tou indo para aula.
Não esperou eu dizer mais nada e seguiu correndo para a sala. Mas ainda foi capaz de escutar:
- Tchau, Natália, nos vemos depois!- eu gritei no meio do corredor.
Ela parou de repente. Devia estar pensando como é que eu deveria saber o nome dela, mas quando pensou em olhar para trás, eu já havia sumido no meio da multidão de atrasados.
Ao final da aula nos encontramos de novo, ela me pedindo carona para voltar para casa. Tinha tirado a minha carteira de motorista recentemente, não via a hora de isso acontecer, um ímpeto me veio e senti uma felicidade, misturada a uma sensação de prazer estonteante. Fui deixá-la na porta de casa e o que fui capaz de dizer durante todo o trajeto foi:
- Sempre ouvia tua mãe te chamar pelo nome quando eu passava pela tua casa.
Natália apenas sorriu e me agradeceu quando chegou à porta de casa.
- Nos vemos amanhã, disse ela.
Eu acenava com a mão para fora do carro e a olhava pelo retrovisor até perdê-la de vista.
Passei a deixá-la em casa todos os dias e sempre procurava saber de algo mais da vida dela, roubar alguma informação, mas Natália era muito misteriosa e isso me atraía muito. Comecei a perceber que ela se sentia importante para com as amigas, ao ver que elas a olhavam com desdém quando a viam entrar no meu carro - que na verdade era do meu velho coroa. Ela sabia que era importante e sabia fazer com que as amigas sentissem inveja.
Um dia, nós não dissemos palavra enquanto estávamos no carro, e uma atmosfera estranha e ao mesmo tempo estimulante havia pairado no carro. Ela sabia que algo ia acontecer. Ao me despedir dela, desviei um pouco meus lábios do seu rosto, em direção à sua boca. Metade de nossos lábios se encontraram. Ela não se conteve e me beijou avidamente...

- Amor, acabei de receber o telefonema da editora francesa, informando que queria publicar o teu livro!
Pulei da cama atordoado, deixando cair o café que Natália havia posto em meu colo. Estávamos casados. Eu com 30 e ela com 26 anos. Eu formado em Odontologia, ela cursando direito. Meu livro, que havia demorado quatro anos para ser escrito, eu o tinha mandado a uma editora francesa, cuja recomendação eu recebi de Alberto, o qual já se encontrava em território francês.
Alberto, também casado, lecionando Economia numa universidade da França, casado com a garota elegante e inteligente, que aceitava suas idéias. Morava na França há três anos, desde que conseguira a aprovação do seu mestrado para Economia. Eu ainda estava preso ao Brasil, minha profissão me impedia de ser cosmopolita, Natália não trabalhava, eu tinha que passar por maus bocados no consultório, graças a Deus, lotado de pacientes.
E eis que vinha a oportunidade para concretizar a certeza que tive quando jovem, no interior daquela condução, com aquela velha de testemunha, que talvez já tivesse morrido, vendo-me dizer aquelas palavras.
- Amor, acho que não vou poder ir para França contigo. Meu semestre na faculdade está acabando e eu não posso perder mais aula, senão sou reprovada!
Eu via uma parte do meu sonho escorrendo pelo ralo do banheiro quando Natália me dizia aquilo. Não podia impedi-la de ficar. Mas ela parecia tentar me compreender, forçava-se, às vezes.
- Não Natália, você não compreende.
Mas ela insistia. Até que conseguiu antecipar as últimas aulas do semestre, para poder viajar na semana seguinte à minha viagem.
- Tudo bem, Natália.
Senti que algo estava se apagando dentro de mim. Um semestre na faculdade! O que era um semestre diante de quinze anos de espera? Um sonho a ser realizado, era muito importante para mim. Ela tentava, mas não compreendia. Resolvi não forçar.
Quando, mais tarde, estava na França, pude contemplar, de longe, Alberto com sua esposa, à margem do riacho, cuja ponte atravessava-o timidamente, dando acesso à outra margem. Alberto me encontrou, abrindo um sorriso. Não fui capaz de compartilhar sua expressão agradável e ele sabia o porquê.
- É, rapaz, eu compreendo sua monotonia.
Só ele realmente compreendia.
O dia que estava previsto para a chegada de Natália havia passado. Nenhum sinal. No aeroporto, não obtive informação sobre o vôo, apenas me disseram que ele havia sido cancelado. Voltei para casa com um vazio sufocante, que pressionava o meu peito, empurrando-me para o abismo.
- Cara, você tem que ser forte...
Alberto segurava o meu braço com uma força descomunal. Eu estava preparado para a notícia.
- Não pudemos fazer nada, o avião dela caiu...
Tive que esperar alguns segundos para que o som entorpecido daquelas palavras chegassem aos meus ouvidos de forma nítida. Caí de bruços na cama e empurrei o travesseiro sobre minha cabeça e finalmente pude ter a prova de que amava Natália. Talvez só agora pudesse mensurar o tamanho do amor que realmente existia entre nós.
E eu, atendendo ao pedido de Alberto, fui forte. O dia do lançamento chegava e eu fazia o discurso do livro contando a minha trajetória de vida, deixando as lágrimas correrem no meu rosto, sem, no entanto, tremer a voz, dedicando o meu ato de amor todo à alma de Natália.
A partir dali, vivi como algo perdido. Mas não havia deixado de amar Natália, pelo contrário, amava-a agora mais intensamente, com uma certeza formidável, como nunca havia sentido. Via Natália todas as noites, deitada na cama a meu lado, vez em quando acariciando meus cabelos, vez em quando me dizendo palavras de amor. Ia passear com ela no bosque, passava pela ponte no riacho, discutia sobre o amor...
Nunca mais viria a vida com os olhos de um dentista ou de um escritor. Minha vida profissional não fazia mais nenhum sentido. Só quem vivia em mim era minha vida temporal, Natália estava viva em mim, como uma chama inesgotável.
Muitos anos depois, pude ver nos olhos de Alberto uma felicidade, ao me ver na cama, aparentemente conversando sozinho. Alberto compreendia minha atitude, e me observava com um olhar alegre. Chegava a sentar na minha cama, e vez em quando arriscava uma palavrinha com Natália, a meu lado...