sábado, 27 de dezembro de 2008

Teu sorriso em Indiferênças

Em minha solidão suprema
Solidifico o meu saudosismo
Perante saudações solenes
Semeando singelos simbolismos.

Sussurrando sonhos e sandices
Vou suando meu suor em lágrimas decentes
Recriando a vida em semblantes recentes
E recortando olhares de minhas crendices.

Como uma noitada vai decendo
Sem ao menos pedir licença
Para a maldade que vai colhendo
O teu sorriso em indiferênças?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sem explicação

Acordo-me às duas da manhã. Voltando às origens, pego a minha velha máquina de escrever e sento no birô do meu quarto. A noite caía lúgubre e em consonância com meu sono. O barulho da máquina era gostoso e os dedos agradeciam o fato de serem tocados por aquelas teclas rudes. O papel velho e semicomido, que servia de estampa para a tinta, cheirava a mofo e os meus espirros eram sinal do ambiente denso que se formava no meu cubículo.
A história ia vasta de pensamentos, as idéias corriam soltas pelos meus dedos, que datilografavam rapidamente, com força. Era uma história triste a que eu escrevia, um crime cruel, algo móbido; não poderia ser diferente, já que a atmosfera que me rodeava era mesmo dessa natureza. Não sei como a história terminava, sei que alguém com um gorro preto assassinava os homossexuais que lhe apareciam em sua frente. Lembro-me que baseei-me, para redigir essa história, em algo que aconteceu parecido em um lugar, não sei em que parte do Brasil.
A madrugada tornara-se fria, enquanto a história acabava solenemente. Levantei-me da cadeira e fui olhar os cachorros dormindo. Meus cachorros não dormiam à noite, apenas tiravam um cochilo, esperando certamente eu aparecer. Estavam ofegantes e me olhavam, como que pedindo água. Fui buscar. Algo me inquietava naquela noite e eu não sabia o motivo pelo qual tinha-me vindo a insônia. Pus-me a tentar descobrir isso.
Dirigi-me para a cozinha e vi um rato comendo os farelos de pão. Virei-me para apanhar uma vassoura, mas, quando retornei, o safado não estava mais lá. Nunca deixava nada de comida em cima da mesa da cozinha. Sempre limpava tudo, temendo exatamente que algo como isso acontecesse. Alguma coisa tinha acontecido ali, e eu não sabia do que se tratava. Voltei aos meus cachorros para fornecer-lhes a água tão desejada. Bebiam vorazmente, enquanto aumentava a minha curiosidade.
Fui ao jardim e verifiquei que o gramado estava com algumas partes escavadas, uns buracos bem profundos. Haviam podado o meu pé de Jasmin e arrancado as flores das papoulas.
Objetivei me deslocar até o quintal, abrindo o portão que rangia surdamente. O imenso corredor que levava ao quintal estava escuro, como de costume. Ao escutar os meus passos pesados, alguém, por detrás da parede, com voz de criança, falou: "Parece que o cara acordou."