Mark era daqueles que passavam horas a fio bebendo, sempre na presença de seu bom uísque escocês e de seu charuto cubano. Não bebia acompanhado de amigos, até porque ele nunca designou o conceito de amigo para nenhum indigente que passou por sua vida. Bebia e fumava só, no vigésimo terceiro andar, que dava para a cobertura do prédio das Astúrias, ao ar livre, onde morava com seu cachorro. Seu nome era Brown, ele não sabia ao certo de que raça era o Brown, mas parece-lhe que lembrava um pastor ou um weimaranner. Mark era um cara durão, mas de boa pinta, era um promotor de justiça, corrupto, batia em mulheres e tinhas vários filhos perdidos no mundo. Acabara de divorciar-se da sua terceira mulher, ou melhor, ela que quis a separação, foi assim com a primeira e com a segunda também. Estava puto com todo mundo, menos com seu cachorro. Tinha agora que responder processo criminal por ter sapecado uma garrafa do seu preferido uísque na cara esdrúxula de sua mulher. Foi obrigado a fazer isso, depois que ela enfiou a dianteira de seu Porsche Carreira GT debaixo da traseira de um caminhão. Mark lamentou muito pelo seu automóvel e mais ainda pela sua garrafa de uísque escocês esfacelada no chão, toda estilhaçada. Quanto à cara nojenta de sua mulher, ele não lamentou, pelo contrário, depois que ele próprio a levou para o hospital e soube que a cara dela receberia uma bela costura de dezessete pontos e que seu olho esquerdo estava perdido, ele deu uma risada seca e sarcástica, pensando nas plásticas que ela faria para tentar endireitar sua face toda rachada. Certamente seria inútil. Quando Mark viu a sua preciosa garrafa sapecando com força e os estilhaços penetrando no rosto da mulher, ele teve a certeza de que ficaria seqüelas para sempre na cara da coitada. Ele ficava só imaginando o rosto da ex-mulher, com dezessete pontos atravessando-lhe uma face à outra e com um tampão de pirata escondendo seu olho esquerdo. Era muito engraçado para ele imaginar o desespero dela em esconder seu rosto, ainda com um tampão de pirata no olho! Ela, supostamente, não sairia de casa por um bom tempo e não arranjaria mais homem algum.
Mark sabia que venceria mais uma vez na justiça, ele próprio se defendia e não precisava de nenhum advogado imbecil. E se o improvável acontecesse, ou seja, se ele fosse condenado, não tardaria a sair da sua prisão domiciliar com todas as regalias de que ele dispunha. Não estava nenhum pouco preocupado com o andamento do processo nem do que iria suceder, foi assim também com a primeira e com a segunda mulher, ganhou nos dois casos. Mas nestes casos não ocorreu algo trágico para nenhuma delas, que apenas exigiam pensão alimentícia para os filhos bastardos que lhe enchiam o saco. A não ser uma vez que, ainda namorando com sua primeira mulher, ele pressionou a ponta de seu charuto nos mamilos dela. Mark fez isso porque gostava mais de mamilos negros e os dela eram de uma cor morta, quase parda.
Ele não tinha muito jeito com as mulheres, a não ser para conquistá-las. Era meio bruto quando estava com a posse delas, não sabia fazer carícias ou algo que agradasse. Mas ele sempre foi boa pinta, não demoraria muito pra aparecer com outra mulher dentro de casa, o que deixava Brown enciumado.
Mark encomendava cinco garrafas de uísque por semana, ou então desfrutava-se de seu alambique que tinha dentro de casa. Fumava uns dois charutos por dia, tendo que pedir duas caixas com sete charutos cada, semanalmente, para um contrabandista cubano. Ele recebia o charuto por um preço piegas, mas ainda era de boa qualidade. Sua voz emitia um som extremamente grave, resultado da impregnação do carbono no seu pulmão, oriundo da fumaça que ele respirou durante trinta anos. Já sobreviveu duas vezes ao estado de coma alcoólico, sendo internado numa clínica de recuperação pela sua mulher, aquela mesmo que teve o bico do peito queimado. Por incrível que pareça, todas as mulheres que passaram por sua vida o amaram, talvez ainda ainda o amam, mas não conseguem viver ao lado de um cara totalmente anti-social.
Mark passava a noite bebendo e fumando ao lado de seu fiel cachorro. Voltava sempre puto de seu escritório e abria, ainda no carro, sua primeira garrafa de uísque. Ele bebia no trânsito, o que o fazia chegar cada vez mais rápido em casa para receber os pulos de alegria de Brown. Ao passar pela porta do elevador, que abria-se diretamente para seu apartamento, jogava o paletó amassado em cima do sofá, desvencilhava-se de seus sapatos gastos e abria logo sua camisa social para receber o vento gélido, que subia até a cobertura do prédio e lhe fazia resfriar um pouco a cabeça, consternada pelo seu laborioso trabalho. Sentava-se à sua poltrona ao ar livre, apossava-se de seu isqueiro que conseguira em Paris e acendia seu segundo charuto do dia, tendo fumado o seu primeiro ainda no escritório, o qual se impestava do cheiro fedorento da fumaça. Passava as longas horas da madrugada definhando com sua bebida favorita e só despertava às onze, quando tinha que tratar dos processos criminais. Lamentava não ter um chefe que lhe mandasse fazer a barba ou engomar o paletó, pois queria muito esmurrar algum desses imbecis mandões que lhe despertavam uma ira enorme. Seu olhar torpe para os funcionários da repartição fazia estremecer as pernas daqueles subordinados que babavam-lhe o saco constantemente. Tinha repugnância aos 'companheiros' de escritório que se achavam fodões.
Vez por outra, recebia reclamações do servente, que o dizia ser muito rabugento sujando o chão com cinzas de charuto e algumas gotas pegajosas de uísque. Quem entrasse na repartição de Mark certamente se depararia com um caos exorbitante. As pilhas de papéis se aglomeravam sob a mesa de tal maneira que formava um imenso bloco, o qual Mark facilmente se escondia atrás. As folhas de processos criminais também de apoderavam do chão e os livros grossos decaiam da estante em plena desordem. O trabalho mais pesado sempre ficava mesmo com o resignado servente.
- Toc toc toc!
O som da porta da repartição soava como um tambor oco que emitia barulhos secos. Depois de divagar por uns dez segundos, Mark dá uma tragada no seu charuto, sem responder ao chamado da porta. Começam a bater nela novamente, e antes que se completem as três batidas tradicionais da porta, ele grita friamente: 'Se é dinheiro, estou duro!'
- Por favor, chefe, tem um garoto querendo falar com o senhor - responde do outro lado o servente.
- Pelo que me consta, não tem ninguém marcado pra abrir um processo hoje.
- Ele diz que é importante - insiste o servente.
- Mande-o aguardar um momento.
Mark pega sua garrafa de uísque escondida dentro da gaveta da mesa e dá uns cinco goles seguidos, enquanto o garoto espera impaciente do outro lado. Dá aquela baforada refrescante do álcool e o manda entrar. Ao abrir a porta, cautelosamente, o garoto se assusta com o caos que está a sala e com o cheiro desagradável habitando o ambiente. O que ele vê é uma mesa com uma imensa pilha de papéis ocultando quem está atrás. Percebe a fumaça que se esvai atrás da pilha indo refogar o lugar desordenado, tropeça em alguns papéis amassados e se senta na cadeira desconfortável que lhe aguarda.
- E então...vai ficar aí mesmo parado sem falar nada?
O garoto se sente tomado pela voz grave que sai da boca de Mark e logo fica curioso para ver a cara do homem que é dono daquela voz triunfante.
- É...porque eu queria saber do andamento do processo da minha mãe, ela foi agredida por um imbecil que arremessou uma garrafa no rosto dela, ela ficou muito mal, com seqüelas na face e corre o risco de perder seu olho esquerdo. Eu mandei a queixa para um delegado incompetente, mas ele mandou eu vir aqui no seu escritório para fazer o andamento do processo.
Mark por um momento achou que fosse coincidência, afinal, com certeza ele não seria o único alcoólatra da cidade que batia em mulheres.
- Hum, deixe-me ver, realmente o caso é deprimente, ela não teria feito algo para deixá-lo irado a ponto de agredi-la com uma garrafa?
- Não, promotor, sinceramente minha mãe é uma santa, não faria algo para merecer o que o imbecil fez com ela.
- Lamento, mas o senhor não tem como provar isso, afinal você não foi testemunha.
- Mas, promotor!-disse o garoto já todo nervosinho- não tenho que provar nada, basta olhar o rosto dela para perceber tamanha brutalidade!
- Lamento novamente, meu rapaz, sem testemunha ou provas concretas não posso fazer nada! Por favor, mexa logo esse seu traseiro e vá procurar outro cara para avaliar o caso da sua mãe.
O sangue do rapaz sobe-lhe à cabeça e é possível ver os vasos do olho se dilatando. Num gesto de impulso, ele dá um soco na pilha de papéis e a desfaz por completo, na esperança de ver a cara do homem que ele julgava imbecil. Mas mesmo assim, ele não vê Mark, que está com a cadeira voltada de costas, de modo que cobre-lhe todo o corpo.
- Vocês são uns vagabundos, todos, todos iguais! Essa justiça de merda só defende os ricos, enquanto a impunidade impera neste mundo!
Mark, ainda de costas, aplaude ironicamente as palavras do garoto e vira-se com a cadeira, agora encarando de frente o rapazinho puto.
- A lei é assim, meu camarada, faço o serviço sujo a quem me paga bem!
O garoto se depara com a cara fria de Mark e pára, por um momento. Observa bem o rosto dele, que parece-lhe não ser estranho. Ofegante, o garoto enfim reconhece a cara desbravada daquele que tanto ele xingava, daquele homem que ele desejava a morte, que velava os dias para esbofetear-lhe a face até matá-lo espancado. O rapaz cai na real e tenta fazer o que pensava que tinha que fazer. Ergue-se da cadeira, que vai ao chão, e pula em cima da mesa da mesa de Mark, como uma cobra que dá um bote em sua presa.
- Foi você, seu desgraçado, foi você quem atirou a garrafa na minha mãe!-diz o garoto ao esmurrar a face de Mark uma vez - filha da puta! você vai morrer agora!
E dá-lhe um murro outra vez. E outra, e outra, várias vezes. Mark apenas fica parado enquanto a fraca mão do garoto tenta quebrar-lhe a cara. O próprio Mark sabia que merecia uns socos na cara e deixou o rapaz lhe bater até se satisfazer. Percebendo um pouco da dor que estava sentindo ele segura a mão do garoto e o empurra para fora da mesa, fazendo-o ir ao chão. Era evidente a diferença do tamanho do corpo dos dois e o franzino garoto de dezoito anos não poderia fazer mais nada para tentar matar aquele que agredira sua mãe. Mark ajeita a gola de seu paletó, passa a mão na boca suja de sangue e cospe na cara do garoto. Ele o algema, prende-o junto à sua mesa, de modo que fique sentado. Pega seu charuto e fuma perto dele, soltando-lhe a fumaça diretamente no nariz. Espera o garoto acabar de tossir e o avisa:
- Infelizmente a vadia da sua mãe não vai conseguir me processar. Mas, por favor, mande esse dinheiro para ela poder ajeitar a cara nojenta e sumir da minha vida. Ah, aproveite e pegue uma parte para pagar uma musculação, pois precisa ficar mais forte se quiser me matar outro dia. Agora vaza daqui como se nada tivesse acontecido e faça o que eu disse com o dinheiro.
Ele solta o rapaz, que chora humilhado, tira algo em torno de dez mil dólares da gaveta e entrega ao garoto. Abre a porta do escritório, expulsa-o, e vira de uma vez o resto de uísque que continha na garrafa, deixando algumas gotas escorrerem no seu paletó amassado, que pinga o uísque em cima da folha que se traduzia o processo criminal da sua ex-mulher.
Mark sabia que venceria mais uma vez na justiça, ele próprio se defendia e não precisava de nenhum advogado imbecil. E se o improvável acontecesse, ou seja, se ele fosse condenado, não tardaria a sair da sua prisão domiciliar com todas as regalias de que ele dispunha. Não estava nenhum pouco preocupado com o andamento do processo nem do que iria suceder, foi assim também com a primeira e com a segunda mulher, ganhou nos dois casos. Mas nestes casos não ocorreu algo trágico para nenhuma delas, que apenas exigiam pensão alimentícia para os filhos bastardos que lhe enchiam o saco. A não ser uma vez que, ainda namorando com sua primeira mulher, ele pressionou a ponta de seu charuto nos mamilos dela. Mark fez isso porque gostava mais de mamilos negros e os dela eram de uma cor morta, quase parda.
Ele não tinha muito jeito com as mulheres, a não ser para conquistá-las. Era meio bruto quando estava com a posse delas, não sabia fazer carícias ou algo que agradasse. Mas ele sempre foi boa pinta, não demoraria muito pra aparecer com outra mulher dentro de casa, o que deixava Brown enciumado.
Mark encomendava cinco garrafas de uísque por semana, ou então desfrutava-se de seu alambique que tinha dentro de casa. Fumava uns dois charutos por dia, tendo que pedir duas caixas com sete charutos cada, semanalmente, para um contrabandista cubano. Ele recebia o charuto por um preço piegas, mas ainda era de boa qualidade. Sua voz emitia um som extremamente grave, resultado da impregnação do carbono no seu pulmão, oriundo da fumaça que ele respirou durante trinta anos. Já sobreviveu duas vezes ao estado de coma alcoólico, sendo internado numa clínica de recuperação pela sua mulher, aquela mesmo que teve o bico do peito queimado. Por incrível que pareça, todas as mulheres que passaram por sua vida o amaram, talvez ainda ainda o amam, mas não conseguem viver ao lado de um cara totalmente anti-social.
Mark passava a noite bebendo e fumando ao lado de seu fiel cachorro. Voltava sempre puto de seu escritório e abria, ainda no carro, sua primeira garrafa de uísque. Ele bebia no trânsito, o que o fazia chegar cada vez mais rápido em casa para receber os pulos de alegria de Brown. Ao passar pela porta do elevador, que abria-se diretamente para seu apartamento, jogava o paletó amassado em cima do sofá, desvencilhava-se de seus sapatos gastos e abria logo sua camisa social para receber o vento gélido, que subia até a cobertura do prédio e lhe fazia resfriar um pouco a cabeça, consternada pelo seu laborioso trabalho. Sentava-se à sua poltrona ao ar livre, apossava-se de seu isqueiro que conseguira em Paris e acendia seu segundo charuto do dia, tendo fumado o seu primeiro ainda no escritório, o qual se impestava do cheiro fedorento da fumaça. Passava as longas horas da madrugada definhando com sua bebida favorita e só despertava às onze, quando tinha que tratar dos processos criminais. Lamentava não ter um chefe que lhe mandasse fazer a barba ou engomar o paletó, pois queria muito esmurrar algum desses imbecis mandões que lhe despertavam uma ira enorme. Seu olhar torpe para os funcionários da repartição fazia estremecer as pernas daqueles subordinados que babavam-lhe o saco constantemente. Tinha repugnância aos 'companheiros' de escritório que se achavam fodões.
Vez por outra, recebia reclamações do servente, que o dizia ser muito rabugento sujando o chão com cinzas de charuto e algumas gotas pegajosas de uísque. Quem entrasse na repartição de Mark certamente se depararia com um caos exorbitante. As pilhas de papéis se aglomeravam sob a mesa de tal maneira que formava um imenso bloco, o qual Mark facilmente se escondia atrás. As folhas de processos criminais também de apoderavam do chão e os livros grossos decaiam da estante em plena desordem. O trabalho mais pesado sempre ficava mesmo com o resignado servente.
- Toc toc toc!
O som da porta da repartição soava como um tambor oco que emitia barulhos secos. Depois de divagar por uns dez segundos, Mark dá uma tragada no seu charuto, sem responder ao chamado da porta. Começam a bater nela novamente, e antes que se completem as três batidas tradicionais da porta, ele grita friamente: 'Se é dinheiro, estou duro!'
- Por favor, chefe, tem um garoto querendo falar com o senhor - responde do outro lado o servente.
- Pelo que me consta, não tem ninguém marcado pra abrir um processo hoje.
- Ele diz que é importante - insiste o servente.
- Mande-o aguardar um momento.
Mark pega sua garrafa de uísque escondida dentro da gaveta da mesa e dá uns cinco goles seguidos, enquanto o garoto espera impaciente do outro lado. Dá aquela baforada refrescante do álcool e o manda entrar. Ao abrir a porta, cautelosamente, o garoto se assusta com o caos que está a sala e com o cheiro desagradável habitando o ambiente. O que ele vê é uma mesa com uma imensa pilha de papéis ocultando quem está atrás. Percebe a fumaça que se esvai atrás da pilha indo refogar o lugar desordenado, tropeça em alguns papéis amassados e se senta na cadeira desconfortável que lhe aguarda.
- E então...vai ficar aí mesmo parado sem falar nada?
O garoto se sente tomado pela voz grave que sai da boca de Mark e logo fica curioso para ver a cara do homem que é dono daquela voz triunfante.
- É...porque eu queria saber do andamento do processo da minha mãe, ela foi agredida por um imbecil que arremessou uma garrafa no rosto dela, ela ficou muito mal, com seqüelas na face e corre o risco de perder seu olho esquerdo. Eu mandei a queixa para um delegado incompetente, mas ele mandou eu vir aqui no seu escritório para fazer o andamento do processo.
Mark por um momento achou que fosse coincidência, afinal, com certeza ele não seria o único alcoólatra da cidade que batia em mulheres.
- Hum, deixe-me ver, realmente o caso é deprimente, ela não teria feito algo para deixá-lo irado a ponto de agredi-la com uma garrafa?
- Não, promotor, sinceramente minha mãe é uma santa, não faria algo para merecer o que o imbecil fez com ela.
- Lamento, mas o senhor não tem como provar isso, afinal você não foi testemunha.
- Mas, promotor!-disse o garoto já todo nervosinho- não tenho que provar nada, basta olhar o rosto dela para perceber tamanha brutalidade!
- Lamento novamente, meu rapaz, sem testemunha ou provas concretas não posso fazer nada! Por favor, mexa logo esse seu traseiro e vá procurar outro cara para avaliar o caso da sua mãe.
O sangue do rapaz sobe-lhe à cabeça e é possível ver os vasos do olho se dilatando. Num gesto de impulso, ele dá um soco na pilha de papéis e a desfaz por completo, na esperança de ver a cara do homem que ele julgava imbecil. Mas mesmo assim, ele não vê Mark, que está com a cadeira voltada de costas, de modo que cobre-lhe todo o corpo.
- Vocês são uns vagabundos, todos, todos iguais! Essa justiça de merda só defende os ricos, enquanto a impunidade impera neste mundo!
Mark, ainda de costas, aplaude ironicamente as palavras do garoto e vira-se com a cadeira, agora encarando de frente o rapazinho puto.
- A lei é assim, meu camarada, faço o serviço sujo a quem me paga bem!
O garoto se depara com a cara fria de Mark e pára, por um momento. Observa bem o rosto dele, que parece-lhe não ser estranho. Ofegante, o garoto enfim reconhece a cara desbravada daquele que tanto ele xingava, daquele homem que ele desejava a morte, que velava os dias para esbofetear-lhe a face até matá-lo espancado. O rapaz cai na real e tenta fazer o que pensava que tinha que fazer. Ergue-se da cadeira, que vai ao chão, e pula em cima da mesa da mesa de Mark, como uma cobra que dá um bote em sua presa.
- Foi você, seu desgraçado, foi você quem atirou a garrafa na minha mãe!-diz o garoto ao esmurrar a face de Mark uma vez - filha da puta! você vai morrer agora!
E dá-lhe um murro outra vez. E outra, e outra, várias vezes. Mark apenas fica parado enquanto a fraca mão do garoto tenta quebrar-lhe a cara. O próprio Mark sabia que merecia uns socos na cara e deixou o rapaz lhe bater até se satisfazer. Percebendo um pouco da dor que estava sentindo ele segura a mão do garoto e o empurra para fora da mesa, fazendo-o ir ao chão. Era evidente a diferença do tamanho do corpo dos dois e o franzino garoto de dezoito anos não poderia fazer mais nada para tentar matar aquele que agredira sua mãe. Mark ajeita a gola de seu paletó, passa a mão na boca suja de sangue e cospe na cara do garoto. Ele o algema, prende-o junto à sua mesa, de modo que fique sentado. Pega seu charuto e fuma perto dele, soltando-lhe a fumaça diretamente no nariz. Espera o garoto acabar de tossir e o avisa:
- Infelizmente a vadia da sua mãe não vai conseguir me processar. Mas, por favor, mande esse dinheiro para ela poder ajeitar a cara nojenta e sumir da minha vida. Ah, aproveite e pegue uma parte para pagar uma musculação, pois precisa ficar mais forte se quiser me matar outro dia. Agora vaza daqui como se nada tivesse acontecido e faça o que eu disse com o dinheiro.
Ele solta o rapaz, que chora humilhado, tira algo em torno de dez mil dólares da gaveta e entrega ao garoto. Abre a porta do escritório, expulsa-o, e vira de uma vez o resto de uísque que continha na garrafa, deixando algumas gotas escorrerem no seu paletó amassado, que pinga o uísque em cima da folha que se traduzia o processo criminal da sua ex-mulher.

3 comentários:
Adorei o texto.
Além de ter sido muito bem escrito, traz uma série de idéias que também compartilho.
Inteligentemente crítico, na minha opinião.
O que mais admiro, ainda, é a riqueza de vocabulário com a qual você trabalha.
Atualizei o meu hoje.
Abraços!
Muito bom,
o que mais me agradou até agora.
abraços
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