Imagine-se no alto de um prédio.
Um prédio bem alto, por sinal. Vinte e três andares e mais a displicência desoladora de uma cobertura, que emerge desde o térreo, lá embaixo, até onde a ponta de um tijolo fura o céu, rasgando-lhe o azul.
Você está lá, agora, beirando um dos parapeitos que, paradoxalmente, está à altura de sua cintura. Nada o faz pensar como conseguiu elevar-se até lá. Você não se lembra como subiu aquelas exaustivas escadas, nem como conseguiu burlar os seguranças do prédio para invadi-lo. É, certamente o prédio ainda está em construção, e pelas normas da construção civil, é expressamente proibida a invasão de imóveis em obras inacabadas.
É capaz de se ver o vão quase sem fim que cede espaço ao elevador, o qual nem sequer implantou-se ainda na obra. Vê-se uma infinidade de materiais de construção, ao lado de abismos que te sugam para o medo inevitável.
Fazem-se ouvir os uivos dos ventos que timidamente visitam o local do 23° terceiro andar, você sente os calafrios, oriundos dos ventos, adentrarem no âmbito da sua alma, impelindo-te a dar mais um passo na direção do abismo.
Você olha. Vê o chão longínquo puxar sua vista cansada, o que faz você se curvar no parapeito. Por um momento você se imagina escorregando e virando de cabeça para baixo, ficando livre de qualquer superfície sólida. Mas felizmente você não é capaz de pensar no que virá a acontecer depois do deslize fatal. As náuseas agora te tomam por inteiro e você sente o bolo que comeu na casa sua avó revirar-se no seu estômago.
Você não é capaz de se imaginar amolecido, curvando os joelhos diante do precipício e deixando o seu corpo cair levemente ao encontro da morte.
Você não é capaz de sentir o vento mexendo suas roupas frouxas e nem de pensar como seria a sensação de está em queda livre.
Queda livre.
Nada te prende agora, queda livre, livre de entraves e prelúdios, livre de pensamentos e de ações. Livre.
Livre-se da dor que te solta ao abismo desenfreado, livre-se do medo que te consome ao perceber o chão cada vez mais perto e palpável.
Mas você não é capaz de se ver inerte ao estado supremo, aquele estado que só as aves têm o luxo de desfrutar. Mas você não voa. Nem plana.
Você cai abruptamente. E não é nem capaz de imaginar isso. Você nem ao menos quer imaginar, tem medo, receio.
Não é capaz de imaginar a sensação da queda sufocando sua traquéia, aquele friozinho na barriga que mais parece um inverno rigoroso te congelando o corpo. Você nem ao menos pensa que ficou congelado pelo frio na barriga, você nem ao menos é capaz de gritar de entusiasmo ao sentir o prazer que as aves sentem todos os dias.
Você não sabe onde está agora. Nem eu mesmo sei. Talvez você não se lembre quando brigou com seu pai e esmurrou a parede de seu quarto. É bem capaz que você não recorde da sua fuga de casa, com a mesma mochila que se encontra agora em suas costas. Mas você não sabe onde, ao menos, está agora.
Talvez você não se lembre que passou por debaixo das grades que circundam o prédio medonho para finalmente subir. Você não é capaz de voltar alguns instantes no tempo e perceber que você subia as escadas avidamente, à procura de sei lá o quê. Não é capaz de trazer à memória a escuridão e o mistério angustiante a cada andar que subia, e os números consecutivos que não tardariam a chegar ao 23°.
Mas, você não se lembra que chegou bem perto do abismo e que encostou as pontas dos dedos na quina. Você tivera aberto os braços e sentira a maior liberdade que lhe veio na vida.
Curvou-se. Amoleceu-se. Fechou os olhos.
Caiu.
Mas você não se lembra de nada disso. E é por isso que agora você é capaz de saber onde está.
Você retorna para si. Assusta-se com o infortúnio e, finalmente, vê que a vastidão do chão compacto te suga mais rapidamente. Que liberdade você sente agora, não?
Um ímpeto de felicidade te toma de conta e você não é capaz de evitar o impossível. Talvez seu corpo esteja a cento e vinte por hora e você consegue então extravasar.
Um grito ensurdecedor sai da tua garganta, bate no chão e retorna para ti.
Pouco tempo depois: eu te perdi de vista.
E você não sabe onde está.
Seus motivos perderam o sentido, suas sensações, seu medo, sua loucura, sua predisposição ao suicídio, tudo, perdeu o sentido.
O vento resseca teus olhos e você não vê mais nada, além de preto; finalmente.
Não sentiu dor, apenas prazer e medo, angústia e consolo.
Nesta hora você estava se despedindo da vida, alegremente, sentindo o que não havia nenhum sentido.
Você foi embora.
E não caiu mais.
Um prédio bem alto, por sinal. Vinte e três andares e mais a displicência desoladora de uma cobertura, que emerge desde o térreo, lá embaixo, até onde a ponta de um tijolo fura o céu, rasgando-lhe o azul.
Você está lá, agora, beirando um dos parapeitos que, paradoxalmente, está à altura de sua cintura. Nada o faz pensar como conseguiu elevar-se até lá. Você não se lembra como subiu aquelas exaustivas escadas, nem como conseguiu burlar os seguranças do prédio para invadi-lo. É, certamente o prédio ainda está em construção, e pelas normas da construção civil, é expressamente proibida a invasão de imóveis em obras inacabadas.
É capaz de se ver o vão quase sem fim que cede espaço ao elevador, o qual nem sequer implantou-se ainda na obra. Vê-se uma infinidade de materiais de construção, ao lado de abismos que te sugam para o medo inevitável.
Fazem-se ouvir os uivos dos ventos que timidamente visitam o local do 23° terceiro andar, você sente os calafrios, oriundos dos ventos, adentrarem no âmbito da sua alma, impelindo-te a dar mais um passo na direção do abismo.
Você olha. Vê o chão longínquo puxar sua vista cansada, o que faz você se curvar no parapeito. Por um momento você se imagina escorregando e virando de cabeça para baixo, ficando livre de qualquer superfície sólida. Mas felizmente você não é capaz de pensar no que virá a acontecer depois do deslize fatal. As náuseas agora te tomam por inteiro e você sente o bolo que comeu na casa sua avó revirar-se no seu estômago.
Você não é capaz de se imaginar amolecido, curvando os joelhos diante do precipício e deixando o seu corpo cair levemente ao encontro da morte.
Você não é capaz de sentir o vento mexendo suas roupas frouxas e nem de pensar como seria a sensação de está em queda livre.
Queda livre.
Nada te prende agora, queda livre, livre de entraves e prelúdios, livre de pensamentos e de ações. Livre.
Livre-se da dor que te solta ao abismo desenfreado, livre-se do medo que te consome ao perceber o chão cada vez mais perto e palpável.
Mas você não é capaz de se ver inerte ao estado supremo, aquele estado que só as aves têm o luxo de desfrutar. Mas você não voa. Nem plana.
Você cai abruptamente. E não é nem capaz de imaginar isso. Você nem ao menos quer imaginar, tem medo, receio.
Não é capaz de imaginar a sensação da queda sufocando sua traquéia, aquele friozinho na barriga que mais parece um inverno rigoroso te congelando o corpo. Você nem ao menos pensa que ficou congelado pelo frio na barriga, você nem ao menos é capaz de gritar de entusiasmo ao sentir o prazer que as aves sentem todos os dias.
Você não sabe onde está agora. Nem eu mesmo sei. Talvez você não se lembre quando brigou com seu pai e esmurrou a parede de seu quarto. É bem capaz que você não recorde da sua fuga de casa, com a mesma mochila que se encontra agora em suas costas. Mas você não sabe onde, ao menos, está agora.
Talvez você não se lembre que passou por debaixo das grades que circundam o prédio medonho para finalmente subir. Você não é capaz de voltar alguns instantes no tempo e perceber que você subia as escadas avidamente, à procura de sei lá o quê. Não é capaz de trazer à memória a escuridão e o mistério angustiante a cada andar que subia, e os números consecutivos que não tardariam a chegar ao 23°.
Mas, você não se lembra que chegou bem perto do abismo e que encostou as pontas dos dedos na quina. Você tivera aberto os braços e sentira a maior liberdade que lhe veio na vida.
Curvou-se. Amoleceu-se. Fechou os olhos.
Caiu.
Mas você não se lembra de nada disso. E é por isso que agora você é capaz de saber onde está.
Você retorna para si. Assusta-se com o infortúnio e, finalmente, vê que a vastidão do chão compacto te suga mais rapidamente. Que liberdade você sente agora, não?
Um ímpeto de felicidade te toma de conta e você não é capaz de evitar o impossível. Talvez seu corpo esteja a cento e vinte por hora e você consegue então extravasar.
Um grito ensurdecedor sai da tua garganta, bate no chão e retorna para ti.
Pouco tempo depois: eu te perdi de vista.
E você não sabe onde está.
Seus motivos perderam o sentido, suas sensações, seu medo, sua loucura, sua predisposição ao suicídio, tudo, perdeu o sentido.
O vento resseca teus olhos e você não vê mais nada, além de preto; finalmente.
Não sentiu dor, apenas prazer e medo, angústia e consolo.
Nesta hora você estava se despedindo da vida, alegremente, sentindo o que não havia nenhum sentido.
Você foi embora.
E não caiu mais.

2 comentários:
Fascinante o texto, sob qualquer sentido lato da palavra.
Penso constantemente sobre essa sensação que se tem ao suicidar-se; o que, para mim, sempre será um enigma quase inexpugnável. No entanto, creio que há um pouco de tudo o que você colocou aqui.
Atualizei o meu também.
Abraços.
Postar um comentário