Fabio Szafranski sempre foi o algo incomum dentre os 'fogosos amigos' que rodeavam sua convivência não muito agradável. Ele nunca tivera o desprazer de tê-los como tal. Sua sina jocosa e enfadonha era pisar em cima de um shape de skate e se deixar levar pelas ruas mal estruturadas e entupidas de carros de uma fortaleza bela, sem rumo, com um destino incerto, como se entregasse nas águas dum oceano e sofresse o balanço das ondas, que lhe levavam para nenhum lugar conhecido.
Não foram poucas as vezes que o taxaram de louco, incomum e isolado. Talvez isso para ele fosse até um elogio, antes visto a profunda morbidez de seu aspecto nenhum pouco normal. Mas ele não era louco. Fazia-se, às vezes. Mas sempre tivera como adjetivo essas palavras que muitas vezes lhe serviriam para entrar num grupo estúpido de jovens banais. Jovens banais. Era assim que se apresentava a maioria de jovens que compunha essa sociedade a qual Fabio estava inserido. Não era para menos que ele, no começo, tentou juntar-se àquela maioria idiota, que apenas possuía alguns ideais ilusórios e sentimentos irrelevantes.
No início dos tempos que o grupo banal começou a existir, ele era pouco conhecido, mas para esses poucos que o conheciam, era vítima de sátiras e apelidos que rasgavam com pudor sua estima. Sempre fora resignado por conta disso e já se cansava, desde criança, com as baboseiras bem elaboradas que lhe eram ditas.
Fabio então começa a andar de skate e muda um pouco sua atitude até então resignada, mas não menos desprezível. Já vão cinco anos desde começou a se jogar pelas ruas em cima de seu pedaço de madeira com quatro rodas desgastadas pelas pedras do asfalto e, desde então, não faz outra coisa mais rotineira. Todos do bando banal andavam junto com ele, fazendo street e se aventurando em lugares que nunca chegariam, em lugares longínquos, que apenas eram contemplados pelos olhares vazios daqueles meninos, num horizonte nunca alcançado. Mas Fabio nunca fora o mais jogado no seu esporte, muitas vezes tinha medo, mas quase nunca desistia fácil. Prova disso foi que, com o passar do tempo, os outros do bando foram parando de andar e aventurar-se e Fabio foi ficando e continuando a se deixar levar pelas ruas vadias da cidade.
A sina adquirida por ele, de andar sobre o skate pelas ruas vadias, foi ficando cada vez mais restrita a ele. Não se ouviam mais os gritos de empolgação por parte dos banais do bando, apenas se ouvia o penoso pesar das rodas do skate batendo no asfalto negro e quente que tomava de conta da cidade disforme. Mesmo assim, a solidão de sua rotina não fazia com que parasse e ele, inexplicavelmente, continuava jocosamente aquele penoso fardo, como que ansiando algo a ser alcançado, o que porém ele nunca conseguiria. Fabio não estudou muito e foi obrigado a fazer uma espécie de supletivo para compensar o que não aprendeu no colégio. Ao que indica, teve um período de trabalho numa lan house, onde nada fazia além de ver sites que a sociedade moderna chama de promíscuos. Era, às vezes, até paradoxal o que pensava ele da sua rotina sacal: ninguém sabia ao certo o que ele buscava, ou se ao menos buscava algo realmente, ou se estava apenas deixando seu corpo ser levado para bem longe, ou se estava querendo que o tempo passasse e nunca mais voltasse, nem por lembranças, podia ser também que teria o vislumbramento de ser um grande skatista, ou seria apenas uma forma de demonstrar para aquela sociedade bajuladora que estava puto com vida e se encontrava rebelde...Ninguém sabia de nada. Talvez nem ele sabia.
O que se sabe é que ainda hoje ele cumpre talvez sua forma de distanciar-se do mundo sombrio que nos rodeia. Inclusive do bando banal, que tanto lhe expugnou todas as formas de se expressar indistintamente. O fato é que ao mesmo tempo que tudo isso ocorria em sua vida -talvez até mesmo ele se sentia feliz por estar isolado- algo descomunal aconteceu, sem muitas evidências, presenciado pelo bando banal das ruas ganhadas por Fabio.
Numa de suas saídas noturnas pelas nada seguras ruas do centro da cidade, ele foi vítima de uma briga por um grupo mais banal ainda que o seu. Pontapés e socos voavam pelo ar e iam instalar-se nos rostos dos membros do grupo banal. Garrafas de vidro apontavam sobre o céu e se definhavam sobre o chão, emitindo os estalidos de caco de vidro pelo solo. Uma daquelas laboriosas o atingiu em cheio a face e o olho.
Ficou deprimente o seu estado na hora do infortúnio ocorrido e por mais de quatro meses transcorridos. Internaram-lhe por dois dias. Definhou numa crise mais profunda que os cortes em seu rosto, ficou com a ameaça de perder um olho para sempre, viveu na certeza da mediocridade de sua vida então patética. Depois de certo tempo em repouso, os seus 'fogosos amigos' lhe ofereceram visitas não muito confiáveis e laços de afetividade não menos desconfiáveis. Esteve, durante este repouso de vários meses, recuperando-se psicologicamente da porrada. Porrada essa que lhe mudou um pouco a forma de pensar, talvez, mas fez-lhe com que parasse para refletir, mesmo sem querer, sobre sua vida. Não se sabe se realmente ele pensou sobre o próprio, nem se ele pensava em se matar, tudo indica que sim. O fato é que isso tudo acarretou transformações não consideráveis, mas talvez desonestas em sua sina então perdida por um longo tempo.
Um pouco antes de receber a autorização de voltar à sua rotina tão esperada, ele já a fazia clandestinamente. Voltava a andar com mais vontade e determinação, sendo um dos poucos a fazer bem o que gostava, que era andar de skate. Talvez fazia isso não por simplesmente gostar, mas por avançar num mundo só dele, pelas ruas vadias, jogando-se em destinos cada vez mais incertos e consoladores.
Passou-se até relativo tempo depois da porrada significativa e ele escutava, agora, músicas de bom agrado e que lhe acalmavam o pensamento, ainda atribulado. Não se sabe ao certo que namorada possuía naquele momento, ou se tinha uma digna namorada. Sabia ele que as mulheres - pelo menos as que passavam perto dele, roçando seus traseiros mais rodados do que bolsa de travesti - não eram, nenhuma, dignas de bom agrado seu. Todas elas mereciam mesmo é serem jogadas dentro do lago, depois de uma boa noite de transa. Tudo indica que era assim que ele pensava das mulheres as quais via rebolando suas bundas para a sua cara rechonchuda.
Deixava seu cabelo crescer pela encosta dos ombros esguios e não preocupava-se em arrumá-los quando saía. Mostrava-se, pelo menos para os membros do grupo banal, que porventura ainda existe, que a sua fisionomia antes bajulada havia mudado, talvez não para melhor, mas algo havia amadurecido em sua mente, é o que tudo indica, mais uma vez.
E mais uma vez seu destino incerto, até para Deus, era vislumbrado por ele mesmo em sua sina que ainda persistia em sua rotina enfadonha. A incerteza era o que lhe fazia sair de casa e isolar-se em seu pedaço de madeira andante, que era o único meio o qual levava-lhe para bem longe da bajulação do bando banal, da vida banal, da banalidade de convivência com familiares e talvez até da vida aqui na Terra. O seu pedaço de madeira andante sobrepunha todos os seus ideais não traçados, suas metas não planejadas e sua coragem nunca antes nem depois despertada.
O seu destino incerto era certo para ele, que sabia de algo com certeza: sua vida resumia-se à incerteza do destino, em ser levado para bem longe, para algum lugar que nunca alcançará, mas que pelo menos o levará à uma viagem sem volta, como uma terapia que lhe livra de entraves e o faz adentrar num mundo um pouco melhor de se habitar sozinho.
Por esses tempos, soube-se que Fabio agora dera para tocar gaitas desafinadas e cantar inglês de improviso nos bancos de praça. Disseram que lembrava agora um rebelde sem causa, sem um motivo específico para tal desolação.
Mas disseram ainda que era capaz de vê-lo vagando pelas ruas vadias, deslizando em ladeiras das ruas não tão disformes, que mostravam para ele a inconstância de seu futuro nunca desvendado por nenhuma cartomante, por nenhum Deus, que até agora, perguntava-se sobre o destino desse humano solene que definhava sobre um pedaço de madeira vagabunda. Ouviu-se falar que mudou um pouco sua rotina sem sentido, tendo como passatempo, em todos os finais de semana, fumar duas carteiras de seu Los Angeles que danificava seus pulmões sequiosos de novos ares e mais destinos incertos.
Não foram poucas as vezes que o taxaram de louco, incomum e isolado. Talvez isso para ele fosse até um elogio, antes visto a profunda morbidez de seu aspecto nenhum pouco normal. Mas ele não era louco. Fazia-se, às vezes. Mas sempre tivera como adjetivo essas palavras que muitas vezes lhe serviriam para entrar num grupo estúpido de jovens banais. Jovens banais. Era assim que se apresentava a maioria de jovens que compunha essa sociedade a qual Fabio estava inserido. Não era para menos que ele, no começo, tentou juntar-se àquela maioria idiota, que apenas possuía alguns ideais ilusórios e sentimentos irrelevantes.
No início dos tempos que o grupo banal começou a existir, ele era pouco conhecido, mas para esses poucos que o conheciam, era vítima de sátiras e apelidos que rasgavam com pudor sua estima. Sempre fora resignado por conta disso e já se cansava, desde criança, com as baboseiras bem elaboradas que lhe eram ditas.
Fabio então começa a andar de skate e muda um pouco sua atitude até então resignada, mas não menos desprezível. Já vão cinco anos desde começou a se jogar pelas ruas em cima de seu pedaço de madeira com quatro rodas desgastadas pelas pedras do asfalto e, desde então, não faz outra coisa mais rotineira. Todos do bando banal andavam junto com ele, fazendo street e se aventurando em lugares que nunca chegariam, em lugares longínquos, que apenas eram contemplados pelos olhares vazios daqueles meninos, num horizonte nunca alcançado. Mas Fabio nunca fora o mais jogado no seu esporte, muitas vezes tinha medo, mas quase nunca desistia fácil. Prova disso foi que, com o passar do tempo, os outros do bando foram parando de andar e aventurar-se e Fabio foi ficando e continuando a se deixar levar pelas ruas vadias da cidade.
A sina adquirida por ele, de andar sobre o skate pelas ruas vadias, foi ficando cada vez mais restrita a ele. Não se ouviam mais os gritos de empolgação por parte dos banais do bando, apenas se ouvia o penoso pesar das rodas do skate batendo no asfalto negro e quente que tomava de conta da cidade disforme. Mesmo assim, a solidão de sua rotina não fazia com que parasse e ele, inexplicavelmente, continuava jocosamente aquele penoso fardo, como que ansiando algo a ser alcançado, o que porém ele nunca conseguiria. Fabio não estudou muito e foi obrigado a fazer uma espécie de supletivo para compensar o que não aprendeu no colégio. Ao que indica, teve um período de trabalho numa lan house, onde nada fazia além de ver sites que a sociedade moderna chama de promíscuos. Era, às vezes, até paradoxal o que pensava ele da sua rotina sacal: ninguém sabia ao certo o que ele buscava, ou se ao menos buscava algo realmente, ou se estava apenas deixando seu corpo ser levado para bem longe, ou se estava querendo que o tempo passasse e nunca mais voltasse, nem por lembranças, podia ser também que teria o vislumbramento de ser um grande skatista, ou seria apenas uma forma de demonstrar para aquela sociedade bajuladora que estava puto com vida e se encontrava rebelde...Ninguém sabia de nada. Talvez nem ele sabia.
O que se sabe é que ainda hoje ele cumpre talvez sua forma de distanciar-se do mundo sombrio que nos rodeia. Inclusive do bando banal, que tanto lhe expugnou todas as formas de se expressar indistintamente. O fato é que ao mesmo tempo que tudo isso ocorria em sua vida -talvez até mesmo ele se sentia feliz por estar isolado- algo descomunal aconteceu, sem muitas evidências, presenciado pelo bando banal das ruas ganhadas por Fabio.
Numa de suas saídas noturnas pelas nada seguras ruas do centro da cidade, ele foi vítima de uma briga por um grupo mais banal ainda que o seu. Pontapés e socos voavam pelo ar e iam instalar-se nos rostos dos membros do grupo banal. Garrafas de vidro apontavam sobre o céu e se definhavam sobre o chão, emitindo os estalidos de caco de vidro pelo solo. Uma daquelas laboriosas o atingiu em cheio a face e o olho.
Ficou deprimente o seu estado na hora do infortúnio ocorrido e por mais de quatro meses transcorridos. Internaram-lhe por dois dias. Definhou numa crise mais profunda que os cortes em seu rosto, ficou com a ameaça de perder um olho para sempre, viveu na certeza da mediocridade de sua vida então patética. Depois de certo tempo em repouso, os seus 'fogosos amigos' lhe ofereceram visitas não muito confiáveis e laços de afetividade não menos desconfiáveis. Esteve, durante este repouso de vários meses, recuperando-se psicologicamente da porrada. Porrada essa que lhe mudou um pouco a forma de pensar, talvez, mas fez-lhe com que parasse para refletir, mesmo sem querer, sobre sua vida. Não se sabe se realmente ele pensou sobre o próprio, nem se ele pensava em se matar, tudo indica que sim. O fato é que isso tudo acarretou transformações não consideráveis, mas talvez desonestas em sua sina então perdida por um longo tempo.
Um pouco antes de receber a autorização de voltar à sua rotina tão esperada, ele já a fazia clandestinamente. Voltava a andar com mais vontade e determinação, sendo um dos poucos a fazer bem o que gostava, que era andar de skate. Talvez fazia isso não por simplesmente gostar, mas por avançar num mundo só dele, pelas ruas vadias, jogando-se em destinos cada vez mais incertos e consoladores.
Passou-se até relativo tempo depois da porrada significativa e ele escutava, agora, músicas de bom agrado e que lhe acalmavam o pensamento, ainda atribulado. Não se sabe ao certo que namorada possuía naquele momento, ou se tinha uma digna namorada. Sabia ele que as mulheres - pelo menos as que passavam perto dele, roçando seus traseiros mais rodados do que bolsa de travesti - não eram, nenhuma, dignas de bom agrado seu. Todas elas mereciam mesmo é serem jogadas dentro do lago, depois de uma boa noite de transa. Tudo indica que era assim que ele pensava das mulheres as quais via rebolando suas bundas para a sua cara rechonchuda.
Deixava seu cabelo crescer pela encosta dos ombros esguios e não preocupava-se em arrumá-los quando saía. Mostrava-se, pelo menos para os membros do grupo banal, que porventura ainda existe, que a sua fisionomia antes bajulada havia mudado, talvez não para melhor, mas algo havia amadurecido em sua mente, é o que tudo indica, mais uma vez.
E mais uma vez seu destino incerto, até para Deus, era vislumbrado por ele mesmo em sua sina que ainda persistia em sua rotina enfadonha. A incerteza era o que lhe fazia sair de casa e isolar-se em seu pedaço de madeira andante, que era o único meio o qual levava-lhe para bem longe da bajulação do bando banal, da vida banal, da banalidade de convivência com familiares e talvez até da vida aqui na Terra. O seu pedaço de madeira andante sobrepunha todos os seus ideais não traçados, suas metas não planejadas e sua coragem nunca antes nem depois despertada.
O seu destino incerto era certo para ele, que sabia de algo com certeza: sua vida resumia-se à incerteza do destino, em ser levado para bem longe, para algum lugar que nunca alcançará, mas que pelo menos o levará à uma viagem sem volta, como uma terapia que lhe livra de entraves e o faz adentrar num mundo um pouco melhor de se habitar sozinho.
Por esses tempos, soube-se que Fabio agora dera para tocar gaitas desafinadas e cantar inglês de improviso nos bancos de praça. Disseram que lembrava agora um rebelde sem causa, sem um motivo específico para tal desolação.
Mas disseram ainda que era capaz de vê-lo vagando pelas ruas vadias, deslizando em ladeiras das ruas não tão disformes, que mostravam para ele a inconstância de seu futuro nunca desvendado por nenhuma cartomante, por nenhum Deus, que até agora, perguntava-se sobre o destino desse humano solene que definhava sobre um pedaço de madeira vagabunda. Ouviu-se falar que mudou um pouco sua rotina sem sentido, tendo como passatempo, em todos os finais de semana, fumar duas carteiras de seu Los Angeles que danificava seus pulmões sequiosos de novos ares e mais destinos incertos.

Um comentário:
Achei o seu texto muito independente, ousado, astuto. Gostei disso, porque foge um pouco dos protocolos literários atuais e esboça uma nova visão de ver o mundo.
É interessante a forma com que você tratou a vida do garoto e o 'bando banal', sempre traçando uma analogia com o nosso Tempo.
Khalil, recente comprei "O Capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio", de Charles Bukowski. O livro é excelente, estou terminando. Já leste?
Abraço.
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