Em minha solidão suprema
Solidifico o meu saudosismo
Perante saudações solenes
Semeando singelos simbolismos.
Sussurrando sonhos e sandices
Vou suando meu suor em lágrimas decentes
Recriando a vida em semblantes recentes
E recortando olhares de minhas crendices.
Como uma noitada vai decendo
Sem ao menos pedir licença
Para a maldade que vai colhendo
O teu sorriso em indiferênças?
sábado, 27 de dezembro de 2008
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Sem explicação
Acordo-me às duas da manhã. Voltando às origens, pego a minha velha máquina de escrever e sento no birô do meu quarto. A noite caía lúgubre e em consonância com meu sono. O barulho da máquina era gostoso e os dedos agradeciam o fato de serem tocados por aquelas teclas rudes. O papel velho e semicomido, que servia de estampa para a tinta, cheirava a mofo e os meus espirros eram sinal do ambiente denso que se formava no meu cubículo.
A história ia vasta de pensamentos, as idéias corriam soltas pelos meus dedos, que datilografavam rapidamente, com força. Era uma história triste a que eu escrevia, um crime cruel, algo móbido; não poderia ser diferente, já que a atmosfera que me rodeava era mesmo dessa natureza. Não sei como a história terminava, sei que alguém com um gorro preto assassinava os homossexuais que lhe apareciam em sua frente. Lembro-me que baseei-me, para redigir essa história, em algo que aconteceu parecido em um lugar, não sei em que parte do Brasil.
A madrugada tornara-se fria, enquanto a história acabava solenemente. Levantei-me da cadeira e fui olhar os cachorros dormindo. Meus cachorros não dormiam à noite, apenas tiravam um cochilo, esperando certamente eu aparecer. Estavam ofegantes e me olhavam, como que pedindo água. Fui buscar. Algo me inquietava naquela noite e eu não sabia o motivo pelo qual tinha-me vindo a insônia. Pus-me a tentar descobrir isso.
Dirigi-me para a cozinha e vi um rato comendo os farelos de pão. Virei-me para apanhar uma vassoura, mas, quando retornei, o safado não estava mais lá. Nunca deixava nada de comida em cima da mesa da cozinha. Sempre limpava tudo, temendo exatamente que algo como isso acontecesse. Alguma coisa tinha acontecido ali, e eu não sabia do que se tratava. Voltei aos meus cachorros para fornecer-lhes a água tão desejada. Bebiam vorazmente, enquanto aumentava a minha curiosidade.
Fui ao jardim e verifiquei que o gramado estava com algumas partes escavadas, uns buracos bem profundos. Haviam podado o meu pé de Jasmin e arrancado as flores das papoulas.
Objetivei me deslocar até o quintal, abrindo o portão que rangia surdamente. O imenso corredor que levava ao quintal estava escuro, como de costume. Ao escutar os meus passos pesados, alguém, por detrás da parede, com voz de criança, falou: "Parece que o cara acordou."
A história ia vasta de pensamentos, as idéias corriam soltas pelos meus dedos, que datilografavam rapidamente, com força. Era uma história triste a que eu escrevia, um crime cruel, algo móbido; não poderia ser diferente, já que a atmosfera que me rodeava era mesmo dessa natureza. Não sei como a história terminava, sei que alguém com um gorro preto assassinava os homossexuais que lhe apareciam em sua frente. Lembro-me que baseei-me, para redigir essa história, em algo que aconteceu parecido em um lugar, não sei em que parte do Brasil.
A madrugada tornara-se fria, enquanto a história acabava solenemente. Levantei-me da cadeira e fui olhar os cachorros dormindo. Meus cachorros não dormiam à noite, apenas tiravam um cochilo, esperando certamente eu aparecer. Estavam ofegantes e me olhavam, como que pedindo água. Fui buscar. Algo me inquietava naquela noite e eu não sabia o motivo pelo qual tinha-me vindo a insônia. Pus-me a tentar descobrir isso.
Dirigi-me para a cozinha e vi um rato comendo os farelos de pão. Virei-me para apanhar uma vassoura, mas, quando retornei, o safado não estava mais lá. Nunca deixava nada de comida em cima da mesa da cozinha. Sempre limpava tudo, temendo exatamente que algo como isso acontecesse. Alguma coisa tinha acontecido ali, e eu não sabia do que se tratava. Voltei aos meus cachorros para fornecer-lhes a água tão desejada. Bebiam vorazmente, enquanto aumentava a minha curiosidade.
Fui ao jardim e verifiquei que o gramado estava com algumas partes escavadas, uns buracos bem profundos. Haviam podado o meu pé de Jasmin e arrancado as flores das papoulas.
Objetivei me deslocar até o quintal, abrindo o portão que rangia surdamente. O imenso corredor que levava ao quintal estava escuro, como de costume. Ao escutar os meus passos pesados, alguém, por detrás da parede, com voz de criança, falou: "Parece que o cara acordou."
sábado, 12 de julho de 2008
Queria ter-te
Queria ter-te não mais que a eternidade,
avançar em teus lábios sórdidos a calar;
minha boca desbravada faz-me soluçar
em meu recôndito universo de saudade!
Não mais que a primavera queria amar-te;
comparar-te às rosas alvas do canteiro,
iluminar-te junto ao Sol o dia inteiro
e banhar-me junto ao luar de escarlate.
Porque és tu quem me faz ver a aurora;
toda manhã te enxergo no azul anil,
das relvas enlevadas sinto-te agora
indo embora colher as flores de abril.
Queria navegar num mar de águas calmas
e te ver refletida ao banho da lua
que dá-me a tua imagem no seio da tua
face pálida junta à alcova das almas.
Enfim, queria doudejar a tua presença
e derramar-me aos prantos do sofrer;
almejar o teu afeto incontido na ausência
da solidão, que me permite arrefecer.
avançar em teus lábios sórdidos a calar;
minha boca desbravada faz-me soluçar
em meu recôndito universo de saudade!
Não mais que a primavera queria amar-te;
comparar-te às rosas alvas do canteiro,
iluminar-te junto ao Sol o dia inteiro
e banhar-me junto ao luar de escarlate.
Porque és tu quem me faz ver a aurora;
toda manhã te enxergo no azul anil,
das relvas enlevadas sinto-te agora
indo embora colher as flores de abril.
Queria navegar num mar de águas calmas
e te ver refletida ao banho da lua
que dá-me a tua imagem no seio da tua
face pálida junta à alcova das almas.
Enfim, queria doudejar a tua presença
e derramar-me aos prantos do sofrer;
almejar o teu afeto incontido na ausência
da solidão, que me permite arrefecer.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Versos Tristes
Não verás luz de velas abalar-te,
nem tampouco a chama ardente dançar
entre o enleio da dor. Fazer calar
a tua boca incessante a falar de arte.
Ante ao fulgaz recentimento mórbido,
sombria noite há de chegar serena,
e ao luar irás galgar vôo sórdido,
sutil balouçar de uma brisa amena.
Um sopro Divino fará inconsútil
a tua doce alma a calcar devaneios.
No vazio da sombra ressurgiste
e em plena luz de velas fez-te fútil.
Eu indo procurar-te em teus passeios
nada encontrarei, senão versos tristes.
nem tampouco a chama ardente dançar
entre o enleio da dor. Fazer calar
a tua boca incessante a falar de arte.
Ante ao fulgaz recentimento mórbido,
sombria noite há de chegar serena,
e ao luar irás galgar vôo sórdido,
sutil balouçar de uma brisa amena.
Um sopro Divino fará inconsútil
a tua doce alma a calcar devaneios.
No vazio da sombra ressurgiste
e em plena luz de velas fez-te fútil.
Eu indo procurar-te em teus passeios
nada encontrarei, senão versos tristes.
sábado, 7 de junho de 2008
Natália.
- Ô menina atrevida! Não tem medo de levar uma mãozada nos beiços, não? Essas garotas de hoje em dia...eu hein?
Era sábado à noite e eu passava pela rua monótona e sombria. Natália brincava, faceira, pela calçada de casa. A mãe havia mandado ela ir para casa, mas Natália inventava qualquer coisa para despachar a mãe, que, visando não perder a autoridade, dizia esses tipos de palavras que intimidavam a filha.
Enquanto eu passava pela rua, ia ouvindo as palavras que a mãe dizia, as palavras se perdendo, eu me distanciando, Natália brincando... Depois não escutava mais nada, apenas algum cachorro que latia ao estranhar minhas leves passadas pelas calçadas. Nesta época eu devia ter meus conturbados quinze anos, Natália devia não passar dos onze. Nesta época também começaram a nascer minhas primeiras idéias loucas, meus pensamentos divagadores, minhas conversas prolongadas com Alberto, as idéias socialistas, anarquistas...mal eu conhecia Marx ou Proudhon!
Gostava muito de estar sozinho com minhas idéias, discutir com minha persona interior, que tanto me ajudava a esboçar meus primeiros versos, os quais me saíam prontamente da cabeça e iam morrer no papel. Quando concluía uma idéia, formulava teoria e ansiava chegar o momento de partilhá-la com Alberto, que muitas vezes tinha idéias mais interessantes e acabava derrubando as minhas teorias. Mas lembro-me de uma teoria, que ambos formularam, com perfeita sincronia e harmonia de idéias...A Teoria da Arte Única, a qual não convém comentá-la por aqui.
Nas vezes que voltava do colégio, de noite, eu passava pela rua monótona onde brincava Natália. Era agradável para meus olhos vê-la dançando com seus cabelos loiros a tocar-lhe a face rosada. No meu pensamento de garoto de quinze anos, porém, não tramitava a idéia de namorar aquela menina faceira, até porque tinha eu o bom senso achá-la muito criança, infantil demais para um garoto que já lia alguma coisa de Nietzsche, que até chegara a escrever frases anarquistas em muro de propaganda política...Eu até por essas épocas cheguei a gostar de Isadora, uma menina linda, da minha idade, mas que me parecia muito pobre de sentimentos, de atitudes. Pensava muito nela, chegávamos a ir para cinema e trocar carícias íntimas na última cadeira, no escurinho. Tinha eu a certeza que não a amava, porque na minha mente morava um conceito muito rico de amor, que eu havia resgatado de Schopenhauer, ao ver um documentário sobre filósofos que Alberto havia me mostrado.
Comecei a sonhar em ser aviador da aeronáutica, mesmo sabendo da minha limitação de ter miopia, de que eu seria reprovado no exame médico. Sonhei em ir para a França, conhecer Paris, aquelas cidades antigas do sul da França, andar abraçado com minha musa num bosque, passar sobre a ponte de um riacho enquanto conversava sobre amor com minha namorada.
Um dia estávamos voltando eu e Alberto do cinema, na condução lotada de sexta à noite, quando me veio uma certeza em meu pensamento, precisava compartilhar com Alberto, sem saber por que aquilo me vinha à cabeça.
- Sabe, Alberto, não sei por que, mas eu tenho a certeza de que estaremos na França, você com sua namorada, eu com a minha...Nós bebendo vinho na tua casa, conversando sobre idéias loucas, escrevendo livros, amando nossas mulheres...
Enquanto isso, uma senhora sentada na cadeira a meu lado olhava-me dizendo aquelas palavras, certamente lembrando-se do passado, de algum amor perdido que vez em quando lhe voltava ao pensamento...
- Cara, dizia Alberto, eu tenho medo de que essas nossas idéias se percam com o tempo. Mas tenho a certeza que não vou me esquecer dessa tua convicção. Seria ideal isto acontecendo...
Via eu em Alberto um psicólogo, um conforto para minhas palavras angustiantes, uma página em branco para transcrever minhas idéias. Alberto tinha uma namorada, muito elegante, inteligente, aceitava seus pensamentos, a maneira de ser, compartilhava também de nossas idéias, era moderna, perfeita. Eu estava sem ninguém, sonhava com uma musa, ou apenas com uma garota que nem a namorada de Alberto. Era difícil ter de conviver com a solidão afetiva, não tinha com quem transmitir meu amor, meu afeto. Às vezes aparecia uma garota, que passava feito um relâmpago em minha vida, eu não conseguia entendê-las, não queriam nada sério.
O famoso terceiro ano havia chegado para mim, tinha eu dezoito anos e estava amadurecido, como homem. Mas o ano do vestibular alienava-me de certa forma, eu escapava um pouco dessa alienação lendo alguns livros interessantes que nos eram indicados para o vestibular. Natália, agora por coincidência, estudava no mesmo colégio que eu, chamando muito a atenção dos garotos da sua idade. Ela devia cursar o nono ano, antiga oitava série, estava bem mais crescidinha, toda formada, de brilho nos lábios, irradiava o corredor de acesso ao colégio sempre que eu passava para dar entrada à sala. Devia ela me conhecer de vista, até porque eu não havia deixado de passar pela rua monótona, ao vê-la agora, não brincando, mas de papinho com garotos na porta de casa. Um dia, não me contive:
- Você deve ser a garota que mora no N° 311, da rua Ademar Pereira.
- E você deve ser o garoto que sempre passa em frente à minha casa, indo não sei para onde...
Havia me surpreendido com a pronta resposta que ela me deu.
- Você não sabe que eu moro na tua rua? Minha casa fica perto do final, ali na outra esquina, disse eu, com o intuito de saber mais alguma coisa da vida dela.
- Acho que sou eu mesmo, mas por que quer saber se realmente se trata de mim, quer me entregar algo, ou você perdeu alguma coisa?
Ela parecia querer me dizer outra coisa. Espantava-me a maturidade com que ela me dirigia a palavra.
- Não, não perdi nada, não. Queria só saber mesmo, sabe como é, naquela rua não se tem amigos, é muito monótona, é que eu pensei...
A sirene havia tocado, Natália se apressava para chegar na sala e caminhava enquanto conversava comigo, balançando a cabeça quando necessário. E foi isso que ela fez, talvez tivesse compreendido a minha inteção de conhecê-la, sabia que eu queria fazer amizade...
- É verdade, aquela rua é muito parada, precisamos movimentá-la de vez em quando! Desculpa, mas já tou indo para aula.
Não esperou eu dizer mais nada e seguiu correndo para a sala. Mas ainda foi capaz de escutar:
- Tchau, Natália, nos vemos depois!- eu gritei no meio do corredor.
Ela parou de repente. Devia estar pensando como é que eu deveria saber o nome dela, mas quando pensou em olhar para trás, eu já havia sumido no meio da multidão de atrasados.
Ao final da aula nos encontramos de novo, ela me pedindo carona para voltar para casa. Tinha tirado a minha carteira de motorista recentemente, não via a hora de isso acontecer, um ímpeto me veio e senti uma felicidade, misturada a uma sensação de prazer estonteante. Fui deixá-la na porta de casa e o que fui capaz de dizer durante todo o trajeto foi:
- Sempre ouvia tua mãe te chamar pelo nome quando eu passava pela tua casa.
Natália apenas sorriu e me agradeceu quando chegou à porta de casa.
- Nos vemos amanhã, disse ela.
Eu acenava com a mão para fora do carro e a olhava pelo retrovisor até perdê-la de vista.
Passei a deixá-la em casa todos os dias e sempre procurava saber de algo mais da vida dela, roubar alguma informação, mas Natália era muito misteriosa e isso me atraía muito. Comecei a perceber que ela se sentia importante para com as amigas, ao ver que elas a olhavam com desdém quando a viam entrar no meu carro - que na verdade era do meu velho coroa. Ela sabia que era importante e sabia fazer com que as amigas sentissem inveja.
Um dia, nós não dissemos palavra enquanto estávamos no carro, e uma atmosfera estranha e ao mesmo tempo estimulante havia pairado no carro. Ela sabia que algo ia acontecer. Ao me despedir dela, desviei um pouco meus lábios do seu rosto, em direção à sua boca. Metade de nossos lábios se encontraram. Ela não se conteve e me beijou avidamente...
- Amor, acabei de receber o telefonema da editora francesa, informando que queria publicar o teu livro!
Pulei da cama atordoado, deixando cair o café que Natália havia posto em meu colo. Estávamos casados. Eu com 30 e ela com 26 anos. Eu formado em Odontologia, ela cursando direito. Meu livro, que havia demorado quatro anos para ser escrito, eu o tinha mandado a uma editora francesa, cuja recomendação eu recebi de Alberto, o qual já se encontrava em território francês.
Alberto, também casado, lecionando Economia numa universidade da França, casado com a garota elegante e inteligente, que aceitava suas idéias. Morava na França há três anos, desde que conseguira a aprovação do seu mestrado para Economia. Eu ainda estava preso ao Brasil, minha profissão me impedia de ser cosmopolita, Natália não trabalhava, eu tinha que passar por maus bocados no consultório, graças a Deus, lotado de pacientes.
E eis que vinha a oportunidade para concretizar a certeza que tive quando jovem, no interior daquela condução, com aquela velha de testemunha, que talvez já tivesse morrido, vendo-me dizer aquelas palavras.
- Amor, acho que não vou poder ir para França contigo. Meu semestre na faculdade está acabando e eu não posso perder mais aula, senão sou reprovada!
Eu via uma parte do meu sonho escorrendo pelo ralo do banheiro quando Natália me dizia aquilo. Não podia impedi-la de ficar. Mas ela parecia tentar me compreender, forçava-se, às vezes.
- Não Natália, você não compreende.
Mas ela insistia. Até que conseguiu antecipar as últimas aulas do semestre, para poder viajar na semana seguinte à minha viagem.
- Tudo bem, Natália.
Senti que algo estava se apagando dentro de mim. Um semestre na faculdade! O que era um semestre diante de quinze anos de espera? Um sonho a ser realizado, era muito importante para mim. Ela tentava, mas não compreendia. Resolvi não forçar.
Quando, mais tarde, estava na França, pude contemplar, de longe, Alberto com sua esposa, à margem do riacho, cuja ponte atravessava-o timidamente, dando acesso à outra margem. Alberto me encontrou, abrindo um sorriso. Não fui capaz de compartilhar sua expressão agradável e ele sabia o porquê.
- É, rapaz, eu compreendo sua monotonia.
Só ele realmente compreendia.
O dia que estava previsto para a chegada de Natália havia passado. Nenhum sinal. No aeroporto, não obtive informação sobre o vôo, apenas me disseram que ele havia sido cancelado. Voltei para casa com um vazio sufocante, que pressionava o meu peito, empurrando-me para o abismo.
- Cara, você tem que ser forte...
Alberto segurava o meu braço com uma força descomunal. Eu estava preparado para a notícia.
- Não pudemos fazer nada, o avião dela caiu...
Tive que esperar alguns segundos para que o som entorpecido daquelas palavras chegassem aos meus ouvidos de forma nítida. Caí de bruços na cama e empurrei o travesseiro sobre minha cabeça e finalmente pude ter a prova de que amava Natália. Talvez só agora pudesse mensurar o tamanho do amor que realmente existia entre nós.
E eu, atendendo ao pedido de Alberto, fui forte. O dia do lançamento chegava e eu fazia o discurso do livro contando a minha trajetória de vida, deixando as lágrimas correrem no meu rosto, sem, no entanto, tremer a voz, dedicando o meu ato de amor todo à alma de Natália.
A partir dali, vivi como algo perdido. Mas não havia deixado de amar Natália, pelo contrário, amava-a agora mais intensamente, com uma certeza formidável, como nunca havia sentido. Via Natália todas as noites, deitada na cama a meu lado, vez em quando acariciando meus cabelos, vez em quando me dizendo palavras de amor. Ia passear com ela no bosque, passava pela ponte no riacho, discutia sobre o amor...
Nunca mais viria a vida com os olhos de um dentista ou de um escritor. Minha vida profissional não fazia mais nenhum sentido. Só quem vivia em mim era minha vida temporal, Natália estava viva em mim, como uma chama inesgotável.
Muitos anos depois, pude ver nos olhos de Alberto uma felicidade, ao me ver na cama, aparentemente conversando sozinho. Alberto compreendia minha atitude, e me observava com um olhar alegre. Chegava a sentar na minha cama, e vez em quando arriscava uma palavrinha com Natália, a meu lado...
Era sábado à noite e eu passava pela rua monótona e sombria. Natália brincava, faceira, pela calçada de casa. A mãe havia mandado ela ir para casa, mas Natália inventava qualquer coisa para despachar a mãe, que, visando não perder a autoridade, dizia esses tipos de palavras que intimidavam a filha.
Enquanto eu passava pela rua, ia ouvindo as palavras que a mãe dizia, as palavras se perdendo, eu me distanciando, Natália brincando... Depois não escutava mais nada, apenas algum cachorro que latia ao estranhar minhas leves passadas pelas calçadas. Nesta época eu devia ter meus conturbados quinze anos, Natália devia não passar dos onze. Nesta época também começaram a nascer minhas primeiras idéias loucas, meus pensamentos divagadores, minhas conversas prolongadas com Alberto, as idéias socialistas, anarquistas...mal eu conhecia Marx ou Proudhon!
Gostava muito de estar sozinho com minhas idéias, discutir com minha persona interior, que tanto me ajudava a esboçar meus primeiros versos, os quais me saíam prontamente da cabeça e iam morrer no papel. Quando concluía uma idéia, formulava teoria e ansiava chegar o momento de partilhá-la com Alberto, que muitas vezes tinha idéias mais interessantes e acabava derrubando as minhas teorias. Mas lembro-me de uma teoria, que ambos formularam, com perfeita sincronia e harmonia de idéias...A Teoria da Arte Única, a qual não convém comentá-la por aqui.
Nas vezes que voltava do colégio, de noite, eu passava pela rua monótona onde brincava Natália. Era agradável para meus olhos vê-la dançando com seus cabelos loiros a tocar-lhe a face rosada. No meu pensamento de garoto de quinze anos, porém, não tramitava a idéia de namorar aquela menina faceira, até porque tinha eu o bom senso achá-la muito criança, infantil demais para um garoto que já lia alguma coisa de Nietzsche, que até chegara a escrever frases anarquistas em muro de propaganda política...Eu até por essas épocas cheguei a gostar de Isadora, uma menina linda, da minha idade, mas que me parecia muito pobre de sentimentos, de atitudes. Pensava muito nela, chegávamos a ir para cinema e trocar carícias íntimas na última cadeira, no escurinho. Tinha eu a certeza que não a amava, porque na minha mente morava um conceito muito rico de amor, que eu havia resgatado de Schopenhauer, ao ver um documentário sobre filósofos que Alberto havia me mostrado.
Comecei a sonhar em ser aviador da aeronáutica, mesmo sabendo da minha limitação de ter miopia, de que eu seria reprovado no exame médico. Sonhei em ir para a França, conhecer Paris, aquelas cidades antigas do sul da França, andar abraçado com minha musa num bosque, passar sobre a ponte de um riacho enquanto conversava sobre amor com minha namorada.
Um dia estávamos voltando eu e Alberto do cinema, na condução lotada de sexta à noite, quando me veio uma certeza em meu pensamento, precisava compartilhar com Alberto, sem saber por que aquilo me vinha à cabeça.
- Sabe, Alberto, não sei por que, mas eu tenho a certeza de que estaremos na França, você com sua namorada, eu com a minha...Nós bebendo vinho na tua casa, conversando sobre idéias loucas, escrevendo livros, amando nossas mulheres...
Enquanto isso, uma senhora sentada na cadeira a meu lado olhava-me dizendo aquelas palavras, certamente lembrando-se do passado, de algum amor perdido que vez em quando lhe voltava ao pensamento...
- Cara, dizia Alberto, eu tenho medo de que essas nossas idéias se percam com o tempo. Mas tenho a certeza que não vou me esquecer dessa tua convicção. Seria ideal isto acontecendo...
Via eu em Alberto um psicólogo, um conforto para minhas palavras angustiantes, uma página em branco para transcrever minhas idéias. Alberto tinha uma namorada, muito elegante, inteligente, aceitava seus pensamentos, a maneira de ser, compartilhava também de nossas idéias, era moderna, perfeita. Eu estava sem ninguém, sonhava com uma musa, ou apenas com uma garota que nem a namorada de Alberto. Era difícil ter de conviver com a solidão afetiva, não tinha com quem transmitir meu amor, meu afeto. Às vezes aparecia uma garota, que passava feito um relâmpago em minha vida, eu não conseguia entendê-las, não queriam nada sério.
O famoso terceiro ano havia chegado para mim, tinha eu dezoito anos e estava amadurecido, como homem. Mas o ano do vestibular alienava-me de certa forma, eu escapava um pouco dessa alienação lendo alguns livros interessantes que nos eram indicados para o vestibular. Natália, agora por coincidência, estudava no mesmo colégio que eu, chamando muito a atenção dos garotos da sua idade. Ela devia cursar o nono ano, antiga oitava série, estava bem mais crescidinha, toda formada, de brilho nos lábios, irradiava o corredor de acesso ao colégio sempre que eu passava para dar entrada à sala. Devia ela me conhecer de vista, até porque eu não havia deixado de passar pela rua monótona, ao vê-la agora, não brincando, mas de papinho com garotos na porta de casa. Um dia, não me contive:
- Você deve ser a garota que mora no N° 311, da rua Ademar Pereira.
- E você deve ser o garoto que sempre passa em frente à minha casa, indo não sei para onde...
Havia me surpreendido com a pronta resposta que ela me deu.
- Você não sabe que eu moro na tua rua? Minha casa fica perto do final, ali na outra esquina, disse eu, com o intuito de saber mais alguma coisa da vida dela.
- Acho que sou eu mesmo, mas por que quer saber se realmente se trata de mim, quer me entregar algo, ou você perdeu alguma coisa?
Ela parecia querer me dizer outra coisa. Espantava-me a maturidade com que ela me dirigia a palavra.
- Não, não perdi nada, não. Queria só saber mesmo, sabe como é, naquela rua não se tem amigos, é muito monótona, é que eu pensei...
A sirene havia tocado, Natália se apressava para chegar na sala e caminhava enquanto conversava comigo, balançando a cabeça quando necessário. E foi isso que ela fez, talvez tivesse compreendido a minha inteção de conhecê-la, sabia que eu queria fazer amizade...
- É verdade, aquela rua é muito parada, precisamos movimentá-la de vez em quando! Desculpa, mas já tou indo para aula.
Não esperou eu dizer mais nada e seguiu correndo para a sala. Mas ainda foi capaz de escutar:
- Tchau, Natália, nos vemos depois!- eu gritei no meio do corredor.
Ela parou de repente. Devia estar pensando como é que eu deveria saber o nome dela, mas quando pensou em olhar para trás, eu já havia sumido no meio da multidão de atrasados.
Ao final da aula nos encontramos de novo, ela me pedindo carona para voltar para casa. Tinha tirado a minha carteira de motorista recentemente, não via a hora de isso acontecer, um ímpeto me veio e senti uma felicidade, misturada a uma sensação de prazer estonteante. Fui deixá-la na porta de casa e o que fui capaz de dizer durante todo o trajeto foi:
- Sempre ouvia tua mãe te chamar pelo nome quando eu passava pela tua casa.
Natália apenas sorriu e me agradeceu quando chegou à porta de casa.
- Nos vemos amanhã, disse ela.
Eu acenava com a mão para fora do carro e a olhava pelo retrovisor até perdê-la de vista.
Passei a deixá-la em casa todos os dias e sempre procurava saber de algo mais da vida dela, roubar alguma informação, mas Natália era muito misteriosa e isso me atraía muito. Comecei a perceber que ela se sentia importante para com as amigas, ao ver que elas a olhavam com desdém quando a viam entrar no meu carro - que na verdade era do meu velho coroa. Ela sabia que era importante e sabia fazer com que as amigas sentissem inveja.
Um dia, nós não dissemos palavra enquanto estávamos no carro, e uma atmosfera estranha e ao mesmo tempo estimulante havia pairado no carro. Ela sabia que algo ia acontecer. Ao me despedir dela, desviei um pouco meus lábios do seu rosto, em direção à sua boca. Metade de nossos lábios se encontraram. Ela não se conteve e me beijou avidamente...
- Amor, acabei de receber o telefonema da editora francesa, informando que queria publicar o teu livro!
Pulei da cama atordoado, deixando cair o café que Natália havia posto em meu colo. Estávamos casados. Eu com 30 e ela com 26 anos. Eu formado em Odontologia, ela cursando direito. Meu livro, que havia demorado quatro anos para ser escrito, eu o tinha mandado a uma editora francesa, cuja recomendação eu recebi de Alberto, o qual já se encontrava em território francês.
Alberto, também casado, lecionando Economia numa universidade da França, casado com a garota elegante e inteligente, que aceitava suas idéias. Morava na França há três anos, desde que conseguira a aprovação do seu mestrado para Economia. Eu ainda estava preso ao Brasil, minha profissão me impedia de ser cosmopolita, Natália não trabalhava, eu tinha que passar por maus bocados no consultório, graças a Deus, lotado de pacientes.
E eis que vinha a oportunidade para concretizar a certeza que tive quando jovem, no interior daquela condução, com aquela velha de testemunha, que talvez já tivesse morrido, vendo-me dizer aquelas palavras.
- Amor, acho que não vou poder ir para França contigo. Meu semestre na faculdade está acabando e eu não posso perder mais aula, senão sou reprovada!
Eu via uma parte do meu sonho escorrendo pelo ralo do banheiro quando Natália me dizia aquilo. Não podia impedi-la de ficar. Mas ela parecia tentar me compreender, forçava-se, às vezes.
- Não Natália, você não compreende.
Mas ela insistia. Até que conseguiu antecipar as últimas aulas do semestre, para poder viajar na semana seguinte à minha viagem.
- Tudo bem, Natália.
Senti que algo estava se apagando dentro de mim. Um semestre na faculdade! O que era um semestre diante de quinze anos de espera? Um sonho a ser realizado, era muito importante para mim. Ela tentava, mas não compreendia. Resolvi não forçar.
Quando, mais tarde, estava na França, pude contemplar, de longe, Alberto com sua esposa, à margem do riacho, cuja ponte atravessava-o timidamente, dando acesso à outra margem. Alberto me encontrou, abrindo um sorriso. Não fui capaz de compartilhar sua expressão agradável e ele sabia o porquê.
- É, rapaz, eu compreendo sua monotonia.
Só ele realmente compreendia.
O dia que estava previsto para a chegada de Natália havia passado. Nenhum sinal. No aeroporto, não obtive informação sobre o vôo, apenas me disseram que ele havia sido cancelado. Voltei para casa com um vazio sufocante, que pressionava o meu peito, empurrando-me para o abismo.
- Cara, você tem que ser forte...
Alberto segurava o meu braço com uma força descomunal. Eu estava preparado para a notícia.
- Não pudemos fazer nada, o avião dela caiu...
Tive que esperar alguns segundos para que o som entorpecido daquelas palavras chegassem aos meus ouvidos de forma nítida. Caí de bruços na cama e empurrei o travesseiro sobre minha cabeça e finalmente pude ter a prova de que amava Natália. Talvez só agora pudesse mensurar o tamanho do amor que realmente existia entre nós.
E eu, atendendo ao pedido de Alberto, fui forte. O dia do lançamento chegava e eu fazia o discurso do livro contando a minha trajetória de vida, deixando as lágrimas correrem no meu rosto, sem, no entanto, tremer a voz, dedicando o meu ato de amor todo à alma de Natália.
A partir dali, vivi como algo perdido. Mas não havia deixado de amar Natália, pelo contrário, amava-a agora mais intensamente, com uma certeza formidável, como nunca havia sentido. Via Natália todas as noites, deitada na cama a meu lado, vez em quando acariciando meus cabelos, vez em quando me dizendo palavras de amor. Ia passear com ela no bosque, passava pela ponte no riacho, discutia sobre o amor...
Nunca mais viria a vida com os olhos de um dentista ou de um escritor. Minha vida profissional não fazia mais nenhum sentido. Só quem vivia em mim era minha vida temporal, Natália estava viva em mim, como uma chama inesgotável.
Muitos anos depois, pude ver nos olhos de Alberto uma felicidade, ao me ver na cama, aparentemente conversando sozinho. Alberto compreendia minha atitude, e me observava com um olhar alegre. Chegava a sentar na minha cama, e vez em quando arriscava uma palavrinha com Natália, a meu lado...
sábado, 15 de março de 2008
Não mais comerei da carne a figura.
Não mais comerei da carne a figura
Que um dia meditei constante assim;
Figura insone, patética, uma doçura
Uma doçura disforme, colhi no jardim.
Jardim das pétalas aveludadas,
Das rosas e carícias e arbustos...
Dos mimos cor-de-rosa, rosa dada
Ao torpor do mundo em seu busto.
Em teu colo, entorpecido de amor,
Deitei o meu fardo da manhã cinzenta
Fria, solitária, oh manhã isenta...
Atinei em meu suor a lágrima descendo,
A pele enaltecendo a carne da boca tua;
Nua, tu despiste teu véu e eu morrendo
Guiando-me aos contentes brilhos da lua.
Que um dia meditei constante assim;
Figura insone, patética, uma doçura
Uma doçura disforme, colhi no jardim.
Jardim das pétalas aveludadas,
Das rosas e carícias e arbustos...
Dos mimos cor-de-rosa, rosa dada
Ao torpor do mundo em seu busto.
Em teu colo, entorpecido de amor,
Deitei o meu fardo da manhã cinzenta
Fria, solitária, oh manhã isenta...
Atinei em meu suor a lágrima descendo,
A pele enaltecendo a carne da boca tua;
Nua, tu despiste teu véu e eu morrendo
Guiando-me aos contentes brilhos da lua.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Bêbados Famigerados
Todos dias da semana lá estavam eles, patéticos e insondáveis, com suas loucuras fascinantes, de enrubecer as donzelas mesquinhas que passavam por lá. O lugar era uma taverna, um pouco rústica e antiga, de há meio século atrás, que ainda mantinha o cheiro característico de álcool, misturado com o fedor exaurido das axilas dos outros bêbados.
E eles eram um médico, um advogado e um engenheiro. Todos bem vividos, casados, tinham mulheres dondocas, filhos arrogantes, que foram moldados numa rebeldia sem causa, num ideal ilusório, que nem eles mesmos conheciam de verdade. Mas isso não era o que fazia os bêbados famigerados beberem todos os dias. Nada, aliás, os fazia buscar um motivo para beber, pois beber era justamente o motivo.
Como todo estabelecimento popular e tradicional, a taverna localizava-se numa esquina bem movimentada, entre as pricipais ruas da cidade. Ao longe, já se podia ver as luzes, de todos os tipos, que davam ao lugar uma atmosfera convidativa. Na entrada, ostentava-se um manequim feminino, sorridente e todo iluminado, que apontava para o interior da taverna. Tinha-se que chegar muito perto para provar que o manequim não era uma mulher de verdade, tamanha era a aparência real que a figura proporcionava aos olhos dos bêbados.
Eles bebiam vinho, de preferência um Marcus James bem servido. Era essencial, para estes pobres dependentes do cotidiano alcoólico, um dia cansativo em seus trabalhos jocosos, pois eles queriam bebericar à vontade e só voltar para casa à meia noite. Ainda assim, conseguiam estar no trabalho na hora de sempre e quase nunca se atrasavam.
Numa noite daquelas, havia sido marcada uma partida poker entre os amigos. Sentavam-se à uma mesa bem próxima ao balcão, de onde viriam as musas que fariam os marmanjos bêbados delirarem de excitação. A bebida era servida por umas garçonetes bem safadas, que vestiam roupas justas e minúsculas. Marcus Antonio, o médico, levantou-se e ofereceu um brinde a todos, que, ao mesmo tempo, erguiram-se cordialmente e brindaram, frenéticos. As taças batiam uma nas outras, o vinho era derramado em algumas gotas e eles tomavam enormes goles, que desciam queimando. Ao perceber esta cena, Dante, o advogado lembrou-se da lenda de como surgiu a tradição de brindar. Fantasioso, como sempre fora, tomou a palavra na mesa, indagando aos companheiros de bar:
- Amigos, antes de começarmos o jogo, gostaria de lhes contar uma lenda muito interessante. Alguém aqui conhece a lenda do brinde?
Os amigos ficaram todos olhando atentamente para ele e ninguém respondeu antes de Joshua, o engenheiro:
- Não, eu, pelo menos, não conheço, mas já estou ficando curioso...
- Conta a lenda - prosseguiu Dante - que há muito tempo, na Alta Idade Média, os cavaleiros do Rei Artur reuniam-se num bar e serviam-se de vinho, postado sobre uma távola redonda. Versões contam que os cavaleiros variavam em número de 12 a 150, mas ninguém sabia ao certo. Tomavam bastante vinho em ocasiões especiais, como festas e comemorações tradicionais. Numa destas confraternizações, ocorreu que, por puro azar, um dos cavaleiros havia tido um ataque e morrera, decaído sobre a távola redonda. O fato inicialmente foi abafado, pois ninguém queria acusar cavaleiro nenhum de ter cometido alguma traição. Até que um dia, ainda encucado com a morte do amigo, um outro cavaleiro, mais astuto, desconfiou da morte por envenenamento. Outra festa veio e ele receou que o mesmo problema aconteceria novamente naquela ocasião. Antes que todos colocassem a taça na boca e ingerissem o vinho, o cavaleiro astuto propôs algo nunca antes visto por eles. Sugeriu que todos levantassem suas taças e as tocassem umas com as outras, para simbolizar a união dos amigos. Todos o fizeram e os vinhos derramaram das taças, misturando o conteúdo de umas nas outras. Desta feita, ele convidou a todos para tomarem o vinho, que agora era um único, igualmente para todos. Mas percebeu que havia um cavaleiro que não havia bebido o vinho, justamente aquele que ele já havia conjecturado. O cavaleiro astuto o acusou e todos os outros provaram a traição que aquele cavaleiro infame havia cometido, matando-o com a própria dose do vinho, o qual ele mesmo envenenara. Assim, desde então, todos que queriam provar a honestidade dos amigos acabavam tendo que brindar, para então ter a certeza da confiança de estarem bebendo algo sem veneno. A tradição foi passada de geração a geração, até chegar onde estamos agora.
Os companheiros já estavam impacientes e ansiosos para começaram logo com o jogo.
- Ah, Dante! Para de falar bobagens e vamos logo com esse jogo! - disse um homem, desconhecido.
- Por acaso, você, amigo, não nos envenenou com este vinho que está servido aqui, não? - retrucou Dante, um pouco tomado pela história que acabara de contar.
Todos da mesa riram.
O homem desconhecido sabia o nome de Dante, mas este não o conhecia, nem ao menos sabia o seu nome. Desconfiado, Dante sugeriu outro brinde para tirar as suas conclusões. Todos o fizeram novamente e ele observou atentamente a atitude do desconhecido. Viu-o tomar o vinho em longos goles, de tomar gosto, que ele mesmo havia se impressionado. Ficou sem reação ao perceber que sua desconfiança inútil só fazia com que os amigos o taxassem de louco e depravado. Sentiu-se um fútil.
Logo depois, o jogo iniciou-se.
Dante não jogou por estar se sentido mal, psicologicamente. O jogo começou bastante disputado entre os jogadores bêbados, que já haviam conquistado a fama. O melhor, quem mais blefava, era o engenheiro Joshua, que estava ganhando o jogo naquela ocasião. O jogo tornava-se um tanto quanto ridículo quando todos já estavam bêbados, incluindo Joshua, que atacava com uns blefes que todos os bêbados, inocentemente, acreditavam. Era sempre quem ganhava, não tinha pra ninguém.
Enquanto o jogo rolava, Dante apenas mordiscava um pouco do seu vinho e via os outros se embebedarem e falarem bobagens no jogo de poker. Vez em quando saia uns tapas, nada que evoluisse pra pancadaria extrema, pois ninguém se metia, os dois que brigassem que se entendessem. Essa era uma das regras do jogo.
O jogo já estava se encaminhando para o final e Joshua estava com a bola toda, havia ganhado muito dinheiro com as fichas e ninguém conseguia detê-lo. As mulheres começaram a subir no balcão, rebolando seus traseiros para os bêbados. Uma música dance tocava, as moças tivaram a roupa e todos iam à loucura. O som das batidas soava pesado dentro do ambiente e todos se empolgavam ainda mais. Calcinhas e sutiãs voavam como ouro no meio dos rapazes...
O jogo esquentava continuamente, os homens babavam e berravam àquelas animadoras da noite. Então, foi que Dante percebeu algo estranho na fisionomia de Joshua, que começou a sentir dores abdominais. O jogo continuava e ninguém se importava com as dores do companheiro...
Minutos mais tarde, Joshua, o melhor jogador da noite, estava ao chão, contorcendo-se de dor. Os últimos gritos apavorantes sairam de sua garganta e todos, agora, poderam ver a morte lenta e gradual do amigo.
Dante deu uma olhada ao redor da taverna.
O desconhecido havia sumido.
Joshua perdera a vida, o jogo e o dinheiro. Ganhou apenas a alcunha de mais um "bêbado famigerado", e todas as vezes era relembrado pela ocasião da lenda contada por Dante, que consumou-se coincidentemente na morte trágica de seu amigo, a quem sempre oferecera a companhia desoladora numa taverna promíscua.
E eles eram um médico, um advogado e um engenheiro. Todos bem vividos, casados, tinham mulheres dondocas, filhos arrogantes, que foram moldados numa rebeldia sem causa, num ideal ilusório, que nem eles mesmos conheciam de verdade. Mas isso não era o que fazia os bêbados famigerados beberem todos os dias. Nada, aliás, os fazia buscar um motivo para beber, pois beber era justamente o motivo.
Como todo estabelecimento popular e tradicional, a taverna localizava-se numa esquina bem movimentada, entre as pricipais ruas da cidade. Ao longe, já se podia ver as luzes, de todos os tipos, que davam ao lugar uma atmosfera convidativa. Na entrada, ostentava-se um manequim feminino, sorridente e todo iluminado, que apontava para o interior da taverna. Tinha-se que chegar muito perto para provar que o manequim não era uma mulher de verdade, tamanha era a aparência real que a figura proporcionava aos olhos dos bêbados.
Eles bebiam vinho, de preferência um Marcus James bem servido. Era essencial, para estes pobres dependentes do cotidiano alcoólico, um dia cansativo em seus trabalhos jocosos, pois eles queriam bebericar à vontade e só voltar para casa à meia noite. Ainda assim, conseguiam estar no trabalho na hora de sempre e quase nunca se atrasavam.
Numa noite daquelas, havia sido marcada uma partida poker entre os amigos. Sentavam-se à uma mesa bem próxima ao balcão, de onde viriam as musas que fariam os marmanjos bêbados delirarem de excitação. A bebida era servida por umas garçonetes bem safadas, que vestiam roupas justas e minúsculas. Marcus Antonio, o médico, levantou-se e ofereceu um brinde a todos, que, ao mesmo tempo, erguiram-se cordialmente e brindaram, frenéticos. As taças batiam uma nas outras, o vinho era derramado em algumas gotas e eles tomavam enormes goles, que desciam queimando. Ao perceber esta cena, Dante, o advogado lembrou-se da lenda de como surgiu a tradição de brindar. Fantasioso, como sempre fora, tomou a palavra na mesa, indagando aos companheiros de bar:
- Amigos, antes de começarmos o jogo, gostaria de lhes contar uma lenda muito interessante. Alguém aqui conhece a lenda do brinde?
Os amigos ficaram todos olhando atentamente para ele e ninguém respondeu antes de Joshua, o engenheiro:
- Não, eu, pelo menos, não conheço, mas já estou ficando curioso...
- Conta a lenda - prosseguiu Dante - que há muito tempo, na Alta Idade Média, os cavaleiros do Rei Artur reuniam-se num bar e serviam-se de vinho, postado sobre uma távola redonda. Versões contam que os cavaleiros variavam em número de 12 a 150, mas ninguém sabia ao certo. Tomavam bastante vinho em ocasiões especiais, como festas e comemorações tradicionais. Numa destas confraternizações, ocorreu que, por puro azar, um dos cavaleiros havia tido um ataque e morrera, decaído sobre a távola redonda. O fato inicialmente foi abafado, pois ninguém queria acusar cavaleiro nenhum de ter cometido alguma traição. Até que um dia, ainda encucado com a morte do amigo, um outro cavaleiro, mais astuto, desconfiou da morte por envenenamento. Outra festa veio e ele receou que o mesmo problema aconteceria novamente naquela ocasião. Antes que todos colocassem a taça na boca e ingerissem o vinho, o cavaleiro astuto propôs algo nunca antes visto por eles. Sugeriu que todos levantassem suas taças e as tocassem umas com as outras, para simbolizar a união dos amigos. Todos o fizeram e os vinhos derramaram das taças, misturando o conteúdo de umas nas outras. Desta feita, ele convidou a todos para tomarem o vinho, que agora era um único, igualmente para todos. Mas percebeu que havia um cavaleiro que não havia bebido o vinho, justamente aquele que ele já havia conjecturado. O cavaleiro astuto o acusou e todos os outros provaram a traição que aquele cavaleiro infame havia cometido, matando-o com a própria dose do vinho, o qual ele mesmo envenenara. Assim, desde então, todos que queriam provar a honestidade dos amigos acabavam tendo que brindar, para então ter a certeza da confiança de estarem bebendo algo sem veneno. A tradição foi passada de geração a geração, até chegar onde estamos agora.
Os companheiros já estavam impacientes e ansiosos para começaram logo com o jogo.
- Ah, Dante! Para de falar bobagens e vamos logo com esse jogo! - disse um homem, desconhecido.
- Por acaso, você, amigo, não nos envenenou com este vinho que está servido aqui, não? - retrucou Dante, um pouco tomado pela história que acabara de contar.
Todos da mesa riram.
O homem desconhecido sabia o nome de Dante, mas este não o conhecia, nem ao menos sabia o seu nome. Desconfiado, Dante sugeriu outro brinde para tirar as suas conclusões. Todos o fizeram novamente e ele observou atentamente a atitude do desconhecido. Viu-o tomar o vinho em longos goles, de tomar gosto, que ele mesmo havia se impressionado. Ficou sem reação ao perceber que sua desconfiança inútil só fazia com que os amigos o taxassem de louco e depravado. Sentiu-se um fútil.
Logo depois, o jogo iniciou-se.
Dante não jogou por estar se sentido mal, psicologicamente. O jogo começou bastante disputado entre os jogadores bêbados, que já haviam conquistado a fama. O melhor, quem mais blefava, era o engenheiro Joshua, que estava ganhando o jogo naquela ocasião. O jogo tornava-se um tanto quanto ridículo quando todos já estavam bêbados, incluindo Joshua, que atacava com uns blefes que todos os bêbados, inocentemente, acreditavam. Era sempre quem ganhava, não tinha pra ninguém.
Enquanto o jogo rolava, Dante apenas mordiscava um pouco do seu vinho e via os outros se embebedarem e falarem bobagens no jogo de poker. Vez em quando saia uns tapas, nada que evoluisse pra pancadaria extrema, pois ninguém se metia, os dois que brigassem que se entendessem. Essa era uma das regras do jogo.
O jogo já estava se encaminhando para o final e Joshua estava com a bola toda, havia ganhado muito dinheiro com as fichas e ninguém conseguia detê-lo. As mulheres começaram a subir no balcão, rebolando seus traseiros para os bêbados. Uma música dance tocava, as moças tivaram a roupa e todos iam à loucura. O som das batidas soava pesado dentro do ambiente e todos se empolgavam ainda mais. Calcinhas e sutiãs voavam como ouro no meio dos rapazes...
O jogo esquentava continuamente, os homens babavam e berravam àquelas animadoras da noite. Então, foi que Dante percebeu algo estranho na fisionomia de Joshua, que começou a sentir dores abdominais. O jogo continuava e ninguém se importava com as dores do companheiro...
Minutos mais tarde, Joshua, o melhor jogador da noite, estava ao chão, contorcendo-se de dor. Os últimos gritos apavorantes sairam de sua garganta e todos, agora, poderam ver a morte lenta e gradual do amigo.
Dante deu uma olhada ao redor da taverna.
O desconhecido havia sumido.
Joshua perdera a vida, o jogo e o dinheiro. Ganhou apenas a alcunha de mais um "bêbado famigerado", e todas as vezes era relembrado pela ocasião da lenda contada por Dante, que consumou-se coincidentemente na morte trágica de seu amigo, a quem sempre oferecera a companhia desoladora numa taverna promíscua.
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