sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Cachimbo

Ainda era dia quando saiu pela rua, sem rumo. O chapéu de pano esfarrapado e o paletó preto já não eram mais trajes finos. O sapato a muito perdera o brilho, e a única coisa de valia naquele homem era o cachimbo francês que ostentava na boca. Apesar de tudo, a elegância rompia a tênue áurea que existia em torno dos seus trapos, aquele ar de mãos no bolso e a maneira de caminhar peculiares davam àquela forma de gente um quê de fantástico.
À medida que o sol ia se pondo e as ladeiras inclinando começavam a aparecer os usuários dos bares, já trazendo o mote da discussão que adentraria pela madrugada. Decidiu escolher um estabelecimento no qual o ambiente o agradasse mais. As opções não eram poucas, havia de todo o tipo, desde cabarés, restaurantes, tavernas e lojas de utensílios para viajantes. Por onde passava era tentado por alguém a entrar, mas só uma pessoa, uma mulher alta, loira, com um rosto bonito e sereno, foi capaz de lhe convencer a visitar o seu estabelecimento.
Espantou-se com a variedade de bebidas, principalmente vinhos e cognaques, e de cachimbos. Conhecida muito bem de cachimbos, a mulher logo percebeu que o que aquele homem trazia na boca tinha muito valor, e sem mais delongas tratou de elogiar-lhe o cachimbo. O homem então, muito agredecido, com modéstia tentou diminuir os elogios e educadamente pediu um vinho. A mulher virou-se para pegar o menu de vinhos. Algo chamou a atenção do homem, visto que percebera movimentos nos braços da mulher, como se estivesse ajeitando algo em seu corpo. Quando volta-se ao homem, trazendo o cardápio, vem mostrando boa parte de seus seios com um decote recentemente aberto. O homem perdera, por alguns segundos, a noção de que estava no mundo. Meio sem jeito, logo ficou nervoso, não conseguindo desfarçar os olhares em direção áquele V charmoso e convidativo. O último botão fechado já se encontava na altura de seu abdome. O homem, finalmente, pede qualquer tipo de vinho à mulher, que se vira novamente para lhe atender o pedido. Aproveita para respirar um pouco e enxugar uma gota de suor que lhe descia na testa. A mulher volta, e como que se insinuando, aproxima-se do balcão e se inclina na direção do homem, colocando os cotovelos por sobre a bancada. Inebriado com o decote da moça, o rapaz, como que vidrado, lança um olhar fixo de três segundos para aquele lugar mágico que aparecia na sua frente. Nesse ínterim, a mulher sorrateiramente põe um sonífero em seu vinho. Como de costume, o homem balança a sua taça e contribui para a dissolução da substância recém colocada, mascarando-a. Depois do terceiro gole, o homem começa a revirar os olhos e baixar levemente a cabeça. A moça logo o puxa na direção do balcão, visando que ele não caísse para trás. A mão que segurava o cachimbo então se abre e a outra mão, a da mulher, apara o valioso cachimbo francês. O homem declinado por sobre o balcão dormia profundamente quando apareceu, dos fundos do estabelecimento, um moço muito grande e gordo, que beija a mulher e fecha os botões da sua camisa. Avalia o objeto que sua dama tinha conseguido e se espanta:
- Mulher, encontramos o cachimbo que Freud usava quando estava perto de morrer!

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