À época da escravidão no Brasil, a fuga de escravos era muito comum, muito embora fosse coisa fugaz, visto que os cidadãos das cidades temiam a lei que oprimia severos castigos a quem fosse conivente com a fuga dos negros cativos. Aliado à fuga, relacionavam-se fatores como a depressão, a saudade das origens, dos antepassados, muitas vezes, obrigando-os a caírem em vícios como o alcoolismo e o fumo inveterado. Ingênuos, viam na fuga a possibilidade de eterna libertação, encorajando-se, através das bebedeiras a enfrentar os capitães-do-mato e se embrenhar nas matas, à madrugada, porém sendo pegos e castigados mal se percebiam os primeiros raios da manhã. Dentre os castigos estavam as chicotadas, correntes e pouco menos conhecidas, no entanto, não menos severa estava a máscara de folha-de-flandres, utilizada para tirar o vício da embriaguez, já que constava de apenas três buracos, sendo dois para enxergar e outro para respirar, selada por um cadeado na parte de trás. Pois que nesse contexto existiu Zé Lobo, um escravo líder do Quilombo de mesmo nome datado de 1789. Zé Lobo já havia tentado fugir três vezes, mas devido à imensidão das terras que lhe serviam de prisão, logo fora catado pelos capitães do mato do Coronel Juvêncio. A cada investida mal sucedida de Zé Lobo, lhe eram impostas 80 chibatadas com chicote trançado ao couro ressecado do boi. Cansado de falhar em suas investidas, o negro caiu no vício do álcool, mais precisamente a cachaça, que era fabricada ali mesmo, das sobras de cana-de-açúcar que não tinham sido utilizadas na produção mensal. O produto era consumido pelos capitães-do-mato, capangas, açoitadores e, quando saqueados, pelos escravos. Os mesmos consumiam o produto clandestinamente no interior dos quilombos, sorrateiramente, para não serem percebidos pelos homens do senhor de engenho. Aqueles que eram pegos bêbados, percebidos pela baixa produtividade quando estavam alcoolizados, ou que eram pegos em flagrante bebendo, eram açoitados e tinham o couro marcado pelo símbolo da fazenda nas duas nádegas. Caso fossem reincidentes, a máscara de folha-de-flandres lhes era severamente imposta, envolvendo a face de maneira justa, de forma que em alguns pontos do rosto do negro ficavam isquemiados devido o apertamento da máscara. A isquemia chegava a ser tanta que esses pontos sofriam necrose e formavam imensas feridas, as quais ao serem comprimidas geravam dor e desespero, se instaurando uma tortura sem precedentes àqueles negros. O pequeno buraco que se localizava à altura da boca limitava consideravelmente a alimentação dos escravos, o que gerava perda de peso, fraqueza, desidratação e letargia. O cadeado atrás da cabeça impedia que se deitassem com a cabeça para trás, sendo obrigados a se deitarem de lado. Os buracos dos olhos limitavam a visão panorâmica do negro e dificultavam os movimentos de esquiva que muitas vezes eles tinham que realizar para fugirem de cobras, ratos, escorpiões e lacraias que dividiam o espaço com os escravos. Acontece que Zé Lobo, depois de ser pego e açoitado por estar cambaleando no serviço da lavoura, teve o azar de ser acusado de reincidência, ao ser visto saqueando um litro de aguardente dos alambiques do coronel. Não lhe restava outro destino a não ser a máscara de folha-de-Flandres. Não existia moldes, logo, a máscara era instalada da maneira que melhor se encaixasse, ou pior, da maneira que ficasse mais justa. Zé Lobo recebeu o castigo de passar cinco anos com essa máscara, sem removê-la um só segundo durante esses anos. Considerando que a expectativa de vida dos escravos no Brasil daquela época era de 27 anos, e que o dito-cujo negro já tinha 25, seria no mínimo heroico que o mesmo sobrevivesse esses próximos cinco anos, tendo em vista a infinidade de moléstias que lhes eram oferecidas àquele tempo, como queimaduras, mal de Lázaro, cólera, coqueluche, tumores nas pernas, além das picadas de bichos peçonhentos antes comentada. Pois que em meio a essa realidade, inconformado com sua situação, sem ter nem como tirar a sua própria vida, pois era proibido o fluxo de facas, cordas e outras armas de potencial letal Nas imediações do quilombo, Zé Lobo não viu outra alternativa a não tentar mais uma vez, uma derradeira tentativa de fuga. Ele sabia que só havia mais uma chance, no entanto, não estava disposto a esperar a sua morte vagarosamente chegar para lhe buscar. Foi então que numa noite de lua cheia, o negro rouba um cavalo que havia se perdido no pasto e não voltara para o estábulo e parte em disparada montado no equino, iluminado pela luz do luar e direcionado pelo espírito de liberdade que lhe ofuscava os olhos e o empurrava rumo às saídas daquelas terras malditas. Porém, Zé ainda foi capaz de ouvir o estouro, antes de lhe atravessar o peito, da bala disparada por Cândido Neves, o mais fiel capanga de Juvêncio, o qual não costumava errar daquela distância, a cerca de 100 metros. Zé Lobo viu, então, a luz da liberdade apagar-se lentamente, e acender-se outra, mais opaca, era o sinal da morte vindo lhe buscar mais cedo naquela noite insólita.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
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