terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Em Cima do Muro

Em cima do muro me vejo
Gaguejo quando o frio vento me espeta
 Traço diversos planos e metas
Mas, como de costume, pestanejo.

Me vejo em cima do muro
Esmurro a parede por conseguinte
Minha voz esboça num sussurro
A dor do meu requinte.

Sempre no muro em cima
Fico quando algo me é pedido
Não me falta clima
Para desiludir o amor perdido.

E quando não mais me resta opção
Corro covardemente contra o tempo
E me esquivo da obstinação
Me dedicando a um passatempo.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Sina Sertaneja

Tão logo o Sol da tarde banhar
E o chão sedento de água assolar
O seco Sertão, no espaço do céu
Voa um xexéu, desbravando o luar.

Sem sombra de dúvidas o cheiro
De terra esturricada o homem sente
E mente para si mesmo, inocente,
Que o próximo ano choverá por inteiro.

Março feroz, desfarça-se em algoz
Do homem do mato, que matando a sede,
Deitado na rede, pergunta: - "Quêde
As águas de Março desse Jobim atroz?"

O gado morrendo, traçando o destino
Desse nordestino, guerreiro valente,
Que sente a chuva chegando, desde menino
Naquele sertão selvagem de gente carente,
Mas que é vivente das graças de um Deus trino.





A Máscara de Folha-de-Flandres

À época da escravidão no Brasil, a fuga de escravos era muito comum, muito embora fosse coisa fugaz, visto que os cidadãos das cidades temiam a lei que oprimia severos castigos a quem fosse conivente com a fuga dos negros cativos. Aliado à fuga, relacionavam-se fatores como a depressão, a saudade das origens, dos antepassados, muitas vezes, obrigando-os a caírem em vícios como o alcoolismo e o fumo inveterado. Ingênuos, viam na fuga a possibilidade de eterna libertação, encorajando-se, através das bebedeiras a enfrentar os capitães-do-mato e se embrenhar nas matas, à madrugada, porém sendo pegos e castigados mal se percebiam os primeiros raios da manhã. Dentre os castigos estavam as chicotadas, correntes e pouco menos conhecidas, no entanto, não menos severa estava a máscara de folha-de-flandres, utilizada para tirar o vício da embriaguez, já que constava de apenas três buracos, sendo dois para enxergar e outro para respirar, selada por um cadeado na parte de trás. Pois que nesse contexto existiu Zé Lobo, um escravo líder do Quilombo de mesmo nome datado de 1789. Zé Lobo já havia tentado fugir três vezes, mas devido à imensidão das terras que lhe serviam de prisão, logo fora catado pelos capitães do mato do Coronel Juvêncio. A cada investida mal sucedida de Zé Lobo, lhe eram impostas 80 chibatadas com chicote trançado ao couro ressecado do boi. Cansado de falhar em suas investidas, o negro caiu no vício do álcool, mais precisamente a cachaça, que era fabricada ali mesmo, das sobras de cana-de-açúcar que não tinham sido utilizadas na produção mensal. O produto era consumido pelos capitães-do-mato, capangas, açoitadores e, quando saqueados, pelos escravos. Os mesmos consumiam o produto clandestinamente no interior dos quilombos, sorrateiramente, para não serem percebidos pelos homens do senhor de engenho. Aqueles que eram pegos bêbados, percebidos pela baixa produtividade quando estavam alcoolizados, ou que eram pegos em flagrante bebendo, eram açoitados e tinham o couro marcado pelo símbolo da fazenda nas duas nádegas. Caso fossem reincidentes, a máscara de folha-de-flandres lhes era severamente imposta, envolvendo a face de maneira justa, de forma que em alguns pontos do rosto do negro ficavam isquemiados devido o apertamento da máscara. A isquemia chegava a ser tanta que esses pontos sofriam necrose e formavam imensas feridas, as quais ao serem comprimidas geravam dor e desespero, se instaurando uma tortura sem precedentes àqueles negros. O pequeno buraco que se localizava à altura da boca limitava consideravelmente a alimentação dos escravos, o que gerava perda de peso, fraqueza, desidratação e letargia. O cadeado atrás da cabeça impedia que se deitassem com a cabeça para trás, sendo obrigados a se deitarem de lado. Os buracos dos olhos limitavam a visão panorâmica do negro e dificultavam os movimentos de esquiva que muitas vezes eles tinham que realizar para fugirem de cobras, ratos, escorpiões e lacraias que dividiam o espaço com os escravos. Acontece que Zé Lobo, depois de ser pego e açoitado por estar cambaleando no serviço da lavoura, teve o azar de ser acusado de reincidência, ao ser visto saqueando um litro de aguardente dos alambiques do coronel. Não lhe restava outro destino a não ser a máscara de folha-de-Flandres. Não existia moldes, logo, a máscara era instalada da maneira que melhor se encaixasse, ou pior, da maneira que ficasse mais justa. Zé Lobo recebeu o castigo de passar cinco anos com essa máscara, sem removê-la um só segundo durante esses anos. Considerando que a expectativa de vida dos escravos no Brasil daquela época era de 27 anos, e que o dito-cujo negro já tinha 25, seria no mínimo heroico que o mesmo sobrevivesse esses próximos cinco anos, tendo em vista a infinidade de moléstias que lhes eram oferecidas àquele tempo, como queimaduras, mal de Lázaro, cólera, coqueluche, tumores nas pernas, além das picadas de bichos peçonhentos antes comentada. Pois que em meio a essa realidade, inconformado com sua situação, sem ter nem como tirar a sua própria vida, pois era proibido o fluxo de facas, cordas e outras armas de potencial letal Nas imediações do quilombo, Zé Lobo não viu outra alternativa a não tentar mais uma vez, uma derradeira tentativa de fuga. Ele sabia que só havia mais uma chance, no entanto, não estava disposto a esperar a sua morte vagarosamente chegar para lhe buscar. Foi então que numa noite de lua cheia, o negro rouba um cavalo que havia se perdido no pasto e não voltara para o estábulo e parte em disparada montado no equino, iluminado pela luz do luar e direcionado pelo espírito de liberdade que lhe ofuscava os olhos e o empurrava rumo às saídas daquelas terras malditas. Porém, Zé ainda foi capaz de ouvir o estouro, antes de lhe atravessar o peito, da bala disparada por Cândido Neves, o mais fiel capanga de Juvêncio, o qual não costumava errar daquela distância, a cerca de 100 metros. Zé Lobo viu, então, a luz da liberdade apagar-se lentamente, e acender-se outra, mais opaca, era o sinal da morte vindo lhe buscar mais cedo naquela noite insólita.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Criminalidade como um Problema Cultural

A criminalidade é um problema cultural.

Constantemente nos deparamos com violência, em diversas partes do mundo, até em países onde o crime praticamente não existia, hoje ele habita as cidades sem qualquer restrição. Agora, é difícil pensarmos e adimitirmos que a criminalidade tem, em sua gênese, um caréter que advem da cultura. Pois eis que uma cidade de aproximadamente 3 milhões de habitantes se vê completamente parada, sitiada por bandidos que, livremente, saqueiam e arrastam carros, supermercados, farmácias, casas, estimulados por um governante que se nega a uma simples negociação com os policiais militares do Estado, que aderiram a uma greve para garantir seus mínimos direitos. Mas esse não é problema mor, deixemos de lado este fato e reflitemos acerca do princípio original deste agravante.

De onde vem a criminalidade do país em que vivemos? Primeiramente, deveremos deixar claro a herança portuguesa de corrupção que, lamentavel e desgraçadamente, recebemos. Não culpo por inteiro os portugueses que, pelos seus ideais de expancionismo, o qual na era das navegações foi o princípio básico, lutaram por terras novas, tendo por acaso “descoberto” o Brasil. Culpo, sinceramente, não uma nação, mas a apatia, a falta de nacionalismo, o espírito de impunidade, o não revolucionarismo de um povo, que simplesmente assiste de braços cruzados e bocas amordaçadas, todos os dias, casos absurdos de violência e corrupção. Pergunto-me incessantemente: de onde herdamos esse mal-hábito? Será que não percebemos que os corruptos desse país – não digo somente políticos corruptos, pois existem corruptos em todos os setores da sociedade – se aproveitam de tal hábito para garantirem impunidade diante de seus atos que já se tornaram comuns e já não mais absurdos? Ou será que percebemos isso, e esse nosso hábito nos permite ficarmos parados, olhando tamanho estapafúrdio de corrupção que se alastra por esse país?

Tentemos buscar uma explicação para a gravidade dos acontecimentos, sem dados científicos, apenas usando a lógica: se no passado o Brasil fosse composto de mentes honestas, talvez não tivessem deixado os escravos, recém-alforriados e sem eira nem beira, amontoarem-se em morros, miseravelmente vivendo em condições subumanas, sendo obrigados a se iniciarem no crime, furtando, assaltando, para sobreviver. E se, ao invés disso, tivessem construído habitações, centros de ensino para o investimento na educação dos ex-escravos? E se, educados, os negros trabalhassem e construissem famílias dignamente, sem precisar cometer crimes para alcançar tal intento? E se?

É tudo uma questão de interesse próprio, ganância, sendo esta não digo ser ‘natural da mente humana’, mas sabemos que é fato que ela esteve presente em muitos momentos decisivos da história e contribuiu bastante para os agravos das situações de violência em todo o mundo.

Acredito que a corrupção seja filha da ganância com o interesse próprio. Só não sei explicar porque aqui no Brasil ela aparece com uma força que se aproxima do sobrenatural.

Não nos esqueçamos do caso da cidade de 3 milhões de habitantes. Vejo uma ligação direta dos fatos mencionados acima com esse caso. Até que o interesse próprio de uma ‘autoridade’ esteja acima de qualquer interesse coletivo de um povo à margem de uma democracia teórica não sairemos da situação de caos, violência e corrupção. E se essa amizade entre corrupção, ganância e interesse próprio continuar a estabelecer laços com a nossa apatia e falta de espírito de revolução, o mundo realmente tem grandes chances de explodir em 2012, sem que me poupe dizer que o mesmo já vai tarde.

Khalil Viana, 03/01/2012.

sábado, 13 de agosto de 2011

Eu, simplesmente, Lia

Naquela noite monótona da minha vida então banal
A madrugada me banhava com o seio da lua
E a solidão me arrebatava ao som do sarau
De músicas vadias e de uma moral nua.

Mas eis que me surge um livro pungente
E na solidão da noite me deito em suas linhas
E me sacio com as palavras que me tocam a mente
De maneira tal que meus passos ele advinha.

Advinha este livro de um tempo vindouro
Tempo de fartura e muitos ventos bons...
Ventos de renovação, sorte, a era de ouro
Onde a música da vida me soa outros tons.

Eu lia aquele livro voraz e ansiosamente
E lia sabendo que era algo de muita valia
Pois lia e percebia que tudo passava a ser diferente
Quando suas páginas eu, simplesmente, Lia.



sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Cachimbo

Ainda era dia quando saiu pela rua, sem rumo. O chapéu de pano esfarrapado e o paletó preto já não eram mais trajes finos. O sapato a muito perdera o brilho, e a única coisa de valia naquele homem era o cachimbo francês que ostentava na boca. Apesar de tudo, a elegância rompia a tênue áurea que existia em torno dos seus trapos, aquele ar de mãos no bolso e a maneira de caminhar peculiares davam àquela forma de gente um quê de fantástico.
À medida que o sol ia se pondo e as ladeiras inclinando começavam a aparecer os usuários dos bares, já trazendo o mote da discussão que adentraria pela madrugada. Decidiu escolher um estabelecimento no qual o ambiente o agradasse mais. As opções não eram poucas, havia de todo o tipo, desde cabarés, restaurantes, tavernas e lojas de utensílios para viajantes. Por onde passava era tentado por alguém a entrar, mas só uma pessoa, uma mulher alta, loira, com um rosto bonito e sereno, foi capaz de lhe convencer a visitar o seu estabelecimento.
Espantou-se com a variedade de bebidas, principalmente vinhos e cognaques, e de cachimbos. Conhecida muito bem de cachimbos, a mulher logo percebeu que o que aquele homem trazia na boca tinha muito valor, e sem mais delongas tratou de elogiar-lhe o cachimbo. O homem então, muito agredecido, com modéstia tentou diminuir os elogios e educadamente pediu um vinho. A mulher virou-se para pegar o menu de vinhos. Algo chamou a atenção do homem, visto que percebera movimentos nos braços da mulher, como se estivesse ajeitando algo em seu corpo. Quando volta-se ao homem, trazendo o cardápio, vem mostrando boa parte de seus seios com um decote recentemente aberto. O homem perdera, por alguns segundos, a noção de que estava no mundo. Meio sem jeito, logo ficou nervoso, não conseguindo desfarçar os olhares em direção áquele V charmoso e convidativo. O último botão fechado já se encontava na altura de seu abdome. O homem, finalmente, pede qualquer tipo de vinho à mulher, que se vira novamente para lhe atender o pedido. Aproveita para respirar um pouco e enxugar uma gota de suor que lhe descia na testa. A mulher volta, e como que se insinuando, aproxima-se do balcão e se inclina na direção do homem, colocando os cotovelos por sobre a bancada. Inebriado com o decote da moça, o rapaz, como que vidrado, lança um olhar fixo de três segundos para aquele lugar mágico que aparecia na sua frente. Nesse ínterim, a mulher sorrateiramente põe um sonífero em seu vinho. Como de costume, o homem balança a sua taça e contribui para a dissolução da substância recém colocada, mascarando-a. Depois do terceiro gole, o homem começa a revirar os olhos e baixar levemente a cabeça. A moça logo o puxa na direção do balcão, visando que ele não caísse para trás. A mão que segurava o cachimbo então se abre e a outra mão, a da mulher, apara o valioso cachimbo francês. O homem declinado por sobre o balcão dormia profundamente quando apareceu, dos fundos do estabelecimento, um moço muito grande e gordo, que beija a mulher e fecha os botões da sua camisa. Avalia o objeto que sua dama tinha conseguido e se espanta:
- Mulher, encontramos o cachimbo que Freud usava quando estava perto de morrer!

terça-feira, 23 de março de 2010

Tempos outros




O impulso constante de medo e arrepio
Faz-me retroceder ao passado distante...
Remonto às cinzas das dores e me esguio
Em meio ao tempo dos tempos de antes.

Antes era tudo no claro e escuro,
O Preto no Branco era surreal desilusão... ;
Neste sumo momento me vejo em cima do muro,
E ao tempo pretérito não mais volto em vão...

A doce lembrança nostálgica da esperança
Mata a vingança do ódio e do rancor...
Que noutros tempos me fazia tal qual criança
Que em sonho de ouro ainda crê no amor.

À meia-noite o mundo já não é tão feio,
Creio que tão perfeito o era a tempos outros;
Outros tempos...ah! agora serão vindouros...
No entanto me vou sem pensar em qualquer receio.

Feliz daquele que acredita sem vê;
Feliz daquele que esquece o que viu;
Feliz é aquele que em si próprio crê;
Feliz é aquele que na multidão - ninguém viu.